Entre quem usa o remédio para obesidade, pelo menos metade desiste no primeiro ano, e o peso volta depressa. O que acontece depois, sobretudo com quem nunca teve obesidade, ainda é pouco estudado.
“O melhor tratamento é aquele que é possível de ser mantido para sempre.” O endocrinologista Bruno Geloneze, livre-docente pela Unicamp e pesquisador principal do Centro de Pesquisa em Obesidade e Comorbidades (OCRC), diz a frase mesmo admitindo que ela parece frase de efeito. Parece, mas resume o problema que médicos e pesquisadores enfrentam desde que a semaglutida, a liraglutida e a tirzepatida viraram fenômeno de consumo: muita gente começa, muita gente para e pouquíssima gente imagina o que pode acontecer com a interrupção do tratamento.
Entre quem usa o remédio para obesidade, sem diabetes tipo 2, de 50% a 65% desistem ainda no primeiro ano. Entre quem tem diabetes, a taxa é menor, mas continua alta: de 36% a 46%. Os números estão em uma revisão sobre as causas e as consequências dessa interrupção, publicada em maio pela revista Nature Reviews Endocrinology e assinada por um grupo liderado pelo italiano Antonio Ceriello, do IRCCS MultiMedica, em Milão. Segundo os autores, a persistência no tratamento é baixa no mundo real.
Quando o medicamento é suspenso, o peso volta e os fatores de risco cardiometabólico pioram. Os autores vão além e levantam uma hipótese: os ciclos de início, pausa e reinício, que provocam o chamado efeito ioiô no peso, poderiam ser, eles próprios, um fator de risco para o coração e os vasos.
Por que as pessoas param de usar?
Na revisão italiana, os motivos mais citados são intolerância gastrointestinal e custo. Geloneze acrescenta uma causa que vem antes de todas: o nome. “Eu abomino o termo caneta emagrecedora. Acho que essa é uma das boas causas da interrupção do tratamento. Na hora em que a gente simplifica a ideia de que é emagrecedor, dá a impressão de que é uma opção temporária”, diz. Ele defende que a obesidade seja entendida como uma doença neuroquímica, crônica e recidivante, “da mesma forma que a hipertensão: parou de tomar remédio, ela vai voltar”.
Pesam também as expectativas desalinhadas, e o custo vira mais um argumento para desistir. “Todo dia escuto: ‘Esse remédio não está funcionando mais’. Por quê? ‘Porque parei de emagrecer.’ Mas a pessoa está 30 quilos abaixo do peso em que estaria se não estivesse tomando”, conta.
Sim, o peso volta, e mais rápido
Os ensaios clínicos que testaram a retirada do medicamento mostram um padrão consistente. Em um deles, com semaglutida, os participantes recuperaram cerca de dois terços do peso perdido no ano seguinte à suspensão. Em outro, com tirzepatida, que teve centros também no Brasil, quem continuou o tratamento perdeu mais 5,5% do peso em um ano. Quem passou a receber placebo, uma caneta idêntica sem o princípio ativo, recuperou 14%.
O retrato mais amplo veio em janeiro, numa metanálise publicada no BMJ por um grupo da Universidade de Oxford. Os pesquisadores reuniram 37 estudos, com 9.341 participantes. Depois da interrupção do medicamento, as pessoas recuperaram em média 400 gramas por mês. Nesse ritmo, pela projeção dos autores, voltariam ao peso inicial em cerca de 1 ano e 8 meses. Pressão arterial, glicemia e colesterol retornariam aos valores anteriores ainda antes, em cerca de 1 ano e 4 meses.
O dado mais intrigante foi a comparação com quem emagreceu em programas que previam apenas dieta e exercício. Depois do fim desses programas, o peso também volta, porém mais devagar: cerca de 300 gramas por mês a menos, mesmo comparando pessoas que haviam perdido quantidades semelhantes de peso.
Em entrevista à MIT Technology Review Brasil, Dimitrios Koutoukidis – professor associado de Oxford e um dos autores do estudo – diz que ainda não há explicação comprovada. “Só podemos supor que, durante programas comportamentais de controle de peso, as pessoas tendem a pôr em prática as habilidades que vão precisar adquirir para manter uma ingestão menor de energia e a perda de peso no futuro, e isso pode ajudá-las a manter o peso por mais tempo. Mas não temos dados para provar isso”, afirma. “Temos uma compreensão muito limitada do que as pessoas comem quando usam esses medicamentos, porque a maioria dos estudos não mediu a dieta. Seria útil entender não só a dieta, mas os comportamentos em torno dela: como as pessoas comem nos círculos sociais, se mudam o jeito de comer quando vão a um restaurante.”
Para o pesquisador de Oxford, a principal utilidade do estudo é informar a conversa inicial entre paciente e médico. “As pessoas precisam entender que esse é um medicamento que vão ter que tomar pela vida toda, e que, se vão pagar por ele e tomá-lo por alguns meses ou alguns anos, precisam estar cientes das consequências de parar. Isso pode ajudá-las a tomar uma decisão informada”, diz.
A hipótese do liga-desliga
A revisão de Ceriello levanta uma hipótese: o vaivém de começar, parar e recomeçar o tratamento faria o peso e a glicemia subirem e descerem repetidas vezes, e esse sobe e desce, por si só, aumentaria o risco de infarto e AVC. Os próprios autores admitem que faltam provas. Há poucos dados sobre infartos, AVCs e mortes em quem interrompeu o tratamento, e boa parte do argumento vem de pesquisas anteriores do próprio Ceriello sobre a oscilação da glicemia em pessoas com diabetes, que não tratavam das canetas.
O endocrinologista Bruno Geloneze vê fundamento biológico nela, mais precisamente no tecido adiposo. “O senso comum diz que o tecido adiposo é formado de adipócitos. Isso é uma verdade incompleta. Em número, a maioria das células são do sistema imunológico: linfócitos, macrófagos”, explica. Quando o tecido adiposo se expande demais, diz ele, as células de gordura entram em exaustão e morrem, e os macrófagos passam a ter uma função de limpeza que os torna pró-inflamatórios. É essa inflamação crônica que liga a obesidade a doenças cardíacas e renais.
“Quando a pessoa emagrece, o adipócito diminui de tamanho e para de produzir citocinas inflamatórias. Mas o tecido imunológico que um dia foi estimulado a ser pró-inflamatório nunca mais desinflama. A gente chama isso de memória metabólica do tecido adiposo. Estamos programados para recuperar peso”, afirma.
Segundo ele, quem tem diabetes ainda leva um legado positivo dos anos de bom controle da glicemia, que reduz o risco de infarto mesmo depois da interrupção. Mas, para quem tem obesidade sem diabetes, a conclusão é incômoda. “A cada vez que a pessoa emagrece e recupera, emagrece e recupera, essa inflamação vai aumentando e o risco cardiovascular e metabólico dela piora. O efeito colateral de parar não é recuperar peso. É voltar pior do que já era”, diz Geloneze. “Então, para alguém com excesso de peso que não tem um planejamento de tratamento de longo prazo, é melhor nem começar.”
O argumento tem consequências para a política pública. “Se a gente for para o sistema público de saúde com essa pretensão de distribuir e não houver uma boa estrutura para mitigar o abandono do tratamento, vamos fazer iatrogenia”, afirma, usando o termo médico para um dano causado pelo próprio tratamento.
A gordura volta fácil. O músculo, nem sempre
Nos ensaios clínicos, cerca de um quarto do peso perdido com esses medicamentos é massa magra, o que inclui músculo. O que acontece com ela quando o peso volta ainda não foi medido diretamente, diz o nutricionista e fisiologista Hamilton Roschel, diretor científico do Centro de Medicina do Estilo de Vida da Faculdade de Medicina da USP. Estudos somente com dietas indicam que, em adultos, o peso recuperado tende a ter uma proporção de massa magra parecida com a do peso perdido. Mas há exceções, como os idosos, que respondem menos aos estímulos que constroem músculo.
Roschel vê outra exceção nas pessoas mais magras. “Esse indivíduo tem menos gordura para perder, e a restrição calórica é uma paulada. Temos relatos de pacientes que passam o dia com pão com manteiga, porque o efeito anorexígeno da droga é tão grande que a pessoa simplesmente não come. Ele tem menos de onde tirar, então vai perder mais músculo. E, se recuperar o peso, recupera muito rápido a gordura”, afirma.
Tem também o efeito sanfona. “O pessoal usa para o verão, para caber no vestido do casamento, para a festinha de fim de ano da empresa. Você faz um ciclo, perde bastante peso, perde músculo também. Retoma, depois faz outro, e a cada ciclo vai deixando um déficit na recuperação de massa magra. Você termina com o mesmo peso e com menos músculo do que quando começou”, diz. “Alguém já olhou para isso com essas drogas? Não, nem há tempo de mercado para isso. Mas não há por que ser diferente.”
Todos acham que estão com sobrepeso
Se faltam dados sobre o que acontece quando pessoas com obesidade param o tratamento, sobre quem não tem ou nunca teve obesidade eles praticamente não existem. Os ensaios clínicos de obesidade só incluíram pessoas com IMC (cálculo que mede o peso com relação à altura) a partir de 30, ou a partir de 27 com alguma doença associada. Pela classificação da OMS, o índice de 18,5 a 24,9 é peso normal, de 25 a 29,9 é sobrepeso e, a partir de 30, obesidade.
Roschel conta que a forma como seu grupo olha para esses usuários mudou depois que o centro passou a incluir pesquisadores das ciências sociais. Para ele, não adianta recriminar quem quer perder peso mesmo sem indicação médica. “Se a pessoa está usando, é porque, em algum nível, para ela isso é necessário. O que você precisa entender é o que está acontecendo com esse sujeito”, diz. O pesquisador observa que essa necessidade é alimentada por uma cobrança social que transforma o corpo em medida de desempenho, com padrões longe da realidade da maioria da população.
Um estudo do grupo com esses usuários, ainda com dados preliminares, aponta um efeito inesperado. “Elas [as pessoas] sofrem por antecipação, porque vão ter que parar, ou porque o dinheiro não vai dar, ou porque sabem que vão ter que tomar continuamente. Olha a loucura que estamos fazendo com a sociedade”, afirma.
O que pode haver dentro da caneta clandestina
Outra pesquisa do grupo da USP, com usuários de esteroides anabolizantes, mostra até onde o uso das canetas chegou. Na fase final de preparação para competições, fisiculturistas fazem dietas extremas para reduzir a gordura ao mínimo. “Esses caras comem como mamutes e, de repente, vivem de gelatina diet, porque não há caloria para pôr outra coisa para dentro. Estão usando a caneta para tirar essa angústia com a fome”, diz Roschel.
No mesmo estudo, os pesquisadores pedem aos voluntários amostras do que compram no mercado clandestino, e um laboratório de toxicologia parceiro verifica o conteúdo. “Analisamos um monte de canetinhas de semaglutida, de tirzepatida. Sabe o que tem na maioria delas? Insulina. O pessoal comprando do Paraguai está tomando insulina, e não análogo de GLP-1. Olha o perigo”, diz. Os resultados sobre isso ainda não foram publicados.
E se eu parar amanhã?
Para Dimitrios Koutoukidis, parte da saída está no acompanhamento. Na metanálise do BMJ, os estudos que ofereciam o medicamento junto com apoio comportamental tiveram participantes que perderam o dobro de peso em comparação com quem recebeu só o remédio. “As pessoas precisam não só de orientação sobre o que comer, mas de apoio e contato frequente com um nutricionista ou outro profissional de saúde, para ajudá-las a resolver problemas, encorajá-las e motivá-las”, diz.
A quem pretende interromper o medicamento, ele dá um conselho. “O importante é reconhecer que o apetite vai voltar. Vai ser difícil. Você ainda vai precisar praticar toda aquela restrição calórica que fazia, mas agora vai dar muito mais trabalho. E se a pessoa conseguir um pouco mais de orientação ou apoio, isso pode ajudá-la a longo prazo.”
Roschel resume o que falta numa frase. “O medicamento tira a fome, mas não ensina a comer. E nem constrói músculo.”
Os análogos de GLP-1 são uma descoberta da ciência que veio para ficar, ajudando a combater doenças crônicas. Tanto que continuam sendo pesquisados, aperfeiçoados e diversificados. E tendem a ficar mais baratos: em 2026, a patente da semaglutida expirou em países que somam cerca de 40% da população mundial, entre eles Brasil, China e Índia, segundo a consultoria IQVIA. Só na China, 16 empresas desenvolviam versões genéricas no ano passado, de acordo com a GlobalData.
Resta agora aguardar os resultados das pesquisas que ainda estão avaliando os efeitos da droga. Enquanto isso, é necessário conscientizar os usuários – sobretudo com a ajuda de profissionais de saúde – de que não se trata apenas de emagrecimento, mas de um projeto de vida que não se resume a uma picada de agulha.




