A chegada da Grande Convergência
Tecnologia & Sociedade

A chegada da Grande Convergência

A Inteligência Artificial pode aproximar tecnologias e pessoas, enquanto afasta países, empresas e empregos

No final do século XVIII, uma máquina começou a mudar a geografia econômica do mundo. Movida a vapor, permitia produzir mais, transportar mais longe e substituir parte da força humana por energia mecânica. Vieram as fábricas, as ferrovias, as cidades industriais e uma transformação de produtividade que enriqueceria o planeta numa escala até então desconhecida. O mundo parecia maravilhoso. Mais riqueza e tempo livre para todos. Mas não foi isso o que aconteceu. A riqueza ficou na mão de poucos.

Os países que primeiro dominaram as novas tecnologias abriram uma distância enorme em relação aos demais. O fenômeno ficaria conhecido como “A Grande Divergência”. Esse fenômeno não foi provocado apenas pela máquina a vapor. Além do capital, da energia e do comércio, foi a tecnologia que ajudou a estabelecer uma nova geografia da riqueza.

Durante as últimas décadas, parte dessa distância diminuiu. Países que chegaram mais tarde à industrialização cresceram rapidamente. China, Coreia do Sul e outras economias asiáticas são os grandes exemplos. Renda, educação, saúde e expectativa de vida avançaram em grande parte do mundo em desenvolvimento.

Agora, existe a possibilidade de a história mudar novamente de direção. Talvez ainda estejamos vivos para ver o mundo se mexendo novamente. Desta vez, com mais velocidade.

O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento deu um nome provocador a esse risco: “A Nova Grande Divergência”. Segundo o PNUD, a Inteligência Artificial pode acelerar o desenvolvimento, mas os benefícios serão muito maiores onde já existem infraestrutura digital, capacidade computacional, energia, capital e profissionais preparados para incorporá-la à economia. É curioso olhar para essa discussão lembrando do que imaginávamos sobre a Internet trinta anos atrás.

Quando a “rede mundial de computadores” começou a se espalhar no início dos anos 1990, acreditamos estar diante de uma transformação comparável à Revolução Industrial. Em muitos aspectos, estávamos certos. A Internet mudou a comunicação, o comércio, a cultura e o acesso à informação. Criou algumas das maiores empresas da história e jogou pelo ralo muitas outras. Talvez, porém, tenhamos confundido a construção da infraestrutura com a revolução que ela permitiria.

Durante três décadas, a Internet conectou bilhões de pessoas, digitalizou empresas e serviços e acumulou quantidades inimagináveis de dados. Vieram a computação em nuvem, os smartphones e enormes centros de processamento. Sem essa infraestrutura, a Inteligência Artificial não teria encontrado condições para se espalhar na velocidade atual.

Há uma diferença importante. A Internet transformou principalmente nossa capacidade de acessar e distribuir informação. A Inteligência Artificial começa a participar da execução do trabalho. A IA escreve, programa, traduz, analisa documentos, reconhece padrões, produz imagens, auxilia diagnósticos e participa de decisões. Ela entra na operação das empresas e começa a alterar profissões e sistemas econômicos.

Quando Klaus Schwab, economista e presidente do Fórum Econômico Mundial de Davos, popularizou a expressão Quarta Revolução Industrial, em 2016, uma de suas preocupações era justamente essa: os enormes ganhos produzidos pela convergência tecnológica poderiam se concentrar nos países, empresas e trabalhadores mais preparados para capturá-los. Dez anos depois, essa possibilidade começa a ganhar uma geografia.

Estados Unidos e China disputam a fronteira tecnológica. Os americanos concentram capital, empresas e infraestrutura computacional numa escala nunca antes vista. A China, mais uma vez, enfrentou boicotes e reduziu rapidamente a distância na qualidade de seus modelos e combinou pesquisa, indústria e capacidade de implementação. A Europa, protagonista das primeiras revoluções industriais, tenta de forma sofrida recuperar o espaço perdido numa transformação cujo centro de gravidade tecnológico se deslocou para além das suas fronteiras.

E o Brasil?

Não estamos fora dessa revolução. O índice de Inteligência Artificial da CEPAL coloca o Brasil entre os pioneiros latino-americanos. Temos um mercado grande, uma população hiperconectada, produção científica, energia relativamente limpa e condições que começam a atrair investimentos em infraestrutura computacional.

Mas estamos na franja do sistema. Pertencemos ao bloco que representa apenas 6,6% da economia mundial e recebe pouco mais de 1% do investimento global em Inteligência Artificial.

A dúvida, portanto, não é se usaremos IA. É qual posição ocuparemos na cadeia que está sendo construída. Tudo aponta que seremos, mais uma vez, um enorme mercado consumidor de modelos desenvolvidos no exterior. Podemos fornecer energia, território e data centers para uma economia concebida em outros lugares. Há uma enorme diferença entre hospedar a nova economia e participar da riqueza que ela produz.

Na Revolução Industrial, máquinas e fábricas demoravam décadas para atravessar fronteiras. Agora, uma tecnologia pode chegar quase simultaneamente a São Paulo, Nova York, Pequim ou Nairóbi. Nunca estivemos tão próximos de compartilhar as mesmas ferramentas. Isso não significa que compartilharemos igualmente aquilo que elas serão capazes de produzir. A convergência tecnológica já começou. A briga é pra ver quem senta na janela.

Como nasceu esta coluna:

Esta coluna nasceu de uma preocupação e de uma frustração. Com a eleição chegando, fui olhar as propostas dos dois principais candidatos à presidência. Tentei entender o que ambos projetavam para a tecnologia no Brasil. Apesar dos dois serem muito diferentes e falarem para públicos praticamente opostos, suas propostas nesse campo quase se igualam. Vazias, genéricas e repetitivas para ganhar votos. Se a sociedade civil não participar ativamente dessas escolhas, poderá perder o bonde da tecnologia que avança pelo mundo afora.

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