Como ideias sobre uma vasta rede de censura saíram das margens da Internet e chegaram à política de Trump
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Como ideias sobre uma vasta rede de censura saíram das margens da Internet e chegaram à política de Trump

Narrativas sobre um “complexo industrial da censura” circularam por anos em meios de direita; depois, ganharam força em Washington. O que e quem está por trás delas?

Certa manhã de abril de 2025, funcionários de um pequeno escritório do Departamento de Estado dos Estados Unidos receberam o e-mail que muitos deles vinham temendo.

Havia meses, o Departamento de Eficiência Governamental de Elon Musk vinha promovendo cortes abrangentes nas agências federais, desmantelando equipes que trabalhavam com tudo, de pesquisa científica a Previdência Social e ajuda internacional. Por isso, quando os funcionários do Centro de Combate à Manipulação e à Interferência de Informações Estrangeiras (R/FIMI), uma unidade encarregada de monitorar a desinformação estrangeira, receberam uma mensagem pedindo que participassem de uma reunião dali a meia hora, muitos sentiram que sua hora havia chegado.

“Todos nós tínhamos ouvido […] que chegaria o dia em que fechariam nosso escritório”, diz um ex-funcionário, que pediu anonimato por medo de retaliação.

Darren Beattie, um provocador de extrema direita que vinha atuando como subsecretário de Estado interino para diplomacia pública, não perdeu tempo com cortesias e disse aos funcionários reunidos que o escritório estava sendo fechado e que seus cargos estavam sendo eliminados. O clima na sala oscilava entre a tristeza e a indignação, diz o ex-funcionário, com “muitos funcionários jovens e dedicados chorando e arrasados”.

Mas, em outras partes do Departamento de Estado, o fechamento do R/FIMI foi motivo de comemoração.

“Acabamos com a censura patrocinada pelo governo nos Estados Unidos por meio do Departamento de Estado”, anunciou pouco depois o secretário de Estado Marco Rubio, em uma entrevista em vídeo com um ativista de direita na Internet chamado Mike Benz.

“Isso é, obviamente, uma notícia incrível”, respondeu Benz, antes de introduzir uma teoria que vinha promovendo havia anos: “Agora temos tanta gente se perguntando: fui censurado por causa de algo que o Departamento de Estado fez?”

A noção de que o Departamento de Estado vinha trabalhando para silenciar americanos talvez seja desconhecida para muitas pessoas, mas é uma parte fundamental de uma rede mais ampla de ideias conspiratórias promovidas há uma década em blogs, podcasts e redes sociais de extrema direita. A teoria básica é que, sob o pretexto de combater a desinformação, uma vasta constelação de agências governamentais, acadêmicos, grupos da sociedade civil e plataformas das Big Techs, ou aquilo que os adeptos chamam de “complexo industrial da censura”, vem trabalhando para reprimir discursos conservadores e populistas na Internet. A luta contra a “desinformação”, como Benz afirmou em um podcast de 2025, “é censura disfarçada”. O R/FIMI, juntamente com um órgão antecessor que tinha a mesma missão, o Centro de Engajamento Global (GEC), estava havia muito tempo entre os alvos da direita; agora, tornara-se uma de suas vítimas mais recentes.

A guerra contra a censura do segundo governo Trump contribuiu para o desmantelamento de várias agências governamentais, como a Agência de Segurança Cibernética e de Infraestrutura do Departamento de Segurança Interna, a Força-Tarefa de Influência Estrangeira do FBI e a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), entre outras. Ela destruiu a infraestrutura responsável por monitorar e combater tentativas de potências estrangeiras de influenciar eleições e a opinião pública. Também tem sido usada para justificar amplas proibições de viagem e sanções contra indivíduos específicos e setores inteiros. Provocou tensões com a União Europeia por causa de suas regulamentações para o setor de tecnologia, que, segundo esses críticos, silenciam americanos. E chegou até mesmo a reformular a estratégia de segurança nacional dos Estados Unidos.

Seu alcance, no entanto, não se limita à burocracia dos Estados Unidos, ao meio acadêmico ou a grupos da sociedade civil. A instrumentalização de ideias sobre censura também afeta os bilhões de pessoas ao redor do mundo que obtêm informações ou interagem umas com as outras pela Internet, ou seja, praticamente todo mundo.

Grande parte do que tem sido caracterizado como censura é, na verdade, parte de um esforço para tornar a Internet mais segura. Isso pode incluir trabalhos para quantificar com que frequência pessoas na Internet geram conteúdo sexualizado não consensual envolvendo mulheres e crianças; ajudar vítimas de perseguição online, doxxing e outros crimes a buscar justiça; ou identificar se alguém com quem estamos interagindo na Internet é quem realmente afirma ser e não, por exemplo, um agente estrangeiro se passando por um eleitor americano.

Mas de onde veio essa ideia?

Nos últimos nove meses, a MIT Technology Review e a Type Investigations investigaram suas origens e rastrearam como uma teoria da conspiração relativamente restrita à extrema direita conseguiu, e continua conseguindo, influenciar uma ampla variedade de ações do segundo governo Trump. De inúmeras maneiras, a teoria do complexo industrial da censura, ou CIC, explica a lógica por trás da forma como o governo Trump atua tanto internamente quanto no restante do mundo.

Para entender como ela saiu das margens da esfera informacional e passou a influenciar as decisões dos indivíduos mais poderosos do país, usamos métodos de código aberto para coletar conteúdo de sites de direita; examinamos centenas de milhares de páginas de registros públicos, vídeos e podcasts; e analisamos mais de 100 mil publicações em redes sociais que promoveram essa narrativa. Nossa análise constatou que, embora as raízes da ideia sejam profundas e abrangentes, a estrutura conceitual do CIC realmente ganhou força no início de 2023, impulsionada por um pequeno grupo de indivíduos, com o apoio de uma rede bastante próxima de organizações e veículos de mídia de direita.

No centro desse esforço está Mike Benz, que entrevistou Rubio em abril passado. Benz teve uma breve passagem pelo primeiro governo de Donald Trump, mas permaneceu em grande parte desconhecido, mesmo enquanto algumas de suas ideias, incluindo a teoria da conspiração de que Taylor Swift era um ativo da OTAN e o conteúdo favorável à identidade branca que publicou anonimamente antes de entrar para o governo, conquistaram seguidores. Nossa análise revela o quanto ele, em particular, foi essencial para a disseminação da teoria do CIC: constatamos que ele foi o mais prolífico criador de conteúdo relacionado ao tema na Internet, material que, por sua vez, foi repercutido por veículos de mídia e podcasts de direita e acabou chegando aos níveis mais altos do poder nos Estados Unidos. Seu trabalho motivou ações do Congresso e, posteriormente, da Presidência, além de gerar atenção e benefícios financeiros para o próprio Benz. (Benz não respondeu a vários pedidos de comentário.)

Em abril passado, perto do fim da entrevista no Departamento de Estado, Rubio fez para Benz um gesto amistoso com a mão, imitando uma arma com os dedos.

“Obrigado pela atenção que você tem dedicado a esse tema”, disse Rubio. “Sei que você acompanha isso há muito tempo.”

As origens do descontentamento

Toda teoria da conspiração é sustentada por uma combinação particular de ressentimentos e atores obscuros, mas, em sua essência, elas são surpreendentemente semelhantes. Muitas vezes, começam com alguns adeptos dedicados atuando nas margens. Eles afirmam revelar verdades ocultas sobre pessoas no poder. Oferecem ordem e significado aos seguidores, criando ou reforçando identidades de grupo. E as mais bem-sucedidas contêm um fundo de verdade.

Isso também descreve “as melhores campanhas de propaganda”, segundo David Millar, veterano funcionário da inteligência dos Estados Unidos que passou anos no Instituto do Serviço Exterior do Departamento de Estado ensinando futuros diplomatas a reconhecer esse tipo de propaganda de agitação. “Raramente são apenas mentiras completas”, diz Millar. “Geralmente, pegam algo fora de proporção ou amplificam algo que realmente aconteceu até transformá-lo em algo que não aconteceu.”

Esse é o caso da ideia de que a censura na Internet tem como alvo a direita. Em 2016, um ex-funcionário anônimo do Facebook afirmou que o site estava suprimindo notícias conservadoras em sua seção de “assuntos em alta”. A empresa correu para tranquilizar os conservadores de que isso não estava acontecendo, mas, ainda assim, eliminou a função de seus editores humanos. Pouco depois, na esteira das operações de influência russas na eleição presidencial dos Estados Unidos de 2016 e no referendo do Brexit, no Reino Unido, as plataformas de redes sociais intensificaram seus esforços de moderação de conteúdo para filtrar a desinformação estrangeira. Ao fazer isso, também acabaram banindo algumas vozes conservadoras, muitas vezes por violarem as políticas das plataformas contra informações falsas.

Para usuários da Internet alinhados à direita, as publicações e contas classificadas como problemáticas ou falsas “pareciam muito com coisas que estavam de acordo com o sistema de crenças [deles]”, afirma Dannagal Young, diretora do Centro de Comunicação Política da Universidade de Delaware. “A Rússia tinha feito sua lição de casa tão bem que os tipos de coisas […] produzidas por propagandistas russos não eram tão diferentes daquilo que as pessoas nos Estados Unidos diriam.”

Foi um momento caótico em nossa vida digital coletiva. Nunca antes qualquer pessoa havia recebido um megafone que lhe permitisse transmitir instantaneamente para uma audiência global, para o bem e para o mal. Esses novos poderes trouxeram questões difíceis sobre como esse conteúdo deveria ser controlado e por quem, se é que deveria ser controlado. O que deveria acontecer se, por exemplo, um serviço de inteligência estrangeiro se passasse em massa por pessoas nas redes sociais para manipular cidadãos? E se alguém, qualquer pessoa, dissesse algo provocativo, odioso ou destinado a incitar a violência? Ou algo que não fizesse um chamado direto à violência, mas que, ainda assim, pudesse provocá-la? A pressão para que as empresas de redes sociais agissem era imensa.

E, mais ou menos em tempo real, as empresas de tecnologia, assim como burocratas do governo, pesquisadores e jornalistas, tiveram de traçar um caminho para o qual não havia mapa. Surgiu um novo campo para ajudar a orientar, e até mesmo tomar, decisões sobre o que se enquadrava como “misinformation” e “disinformation”, embora não houvesse uma definição clara para nenhum dos dois termos, nem para “censura”. Como resultado desse trabalho, ao longo da última década as plataformas adotaram medidas para proteger os usuários de notícias falsas, teorias da conspiração e influência estrangeira encoberta. Ao fazer isso, às vezes foram longe demais, como alguns líderes do setor de tecnologia passaram a argumentar posteriormente. Serviços e plataformas alternativas começaram a surgir com a intenção de criar espaços livres de “censura”, termo pelo qual se referiam à moderação de conteúdo; Parler, Gab e outras tendiam a atender vozes alinhadas à direita. Mais tarde, elas próprias foram removidas das lojas de aplicativos da Apple e do Google ou banidas por serviços de hospedagem e de pagamentos.

Narrativas de grande repercussão, como as alegações de que o Twitter teria aplicado um “shadow ban” a conservadores em 2018 e suprimido notícias sobre o laptop de Hunter Biden em 2020, mantiveram constantemente viva a ideia de uma censura direcionada aos conservadores. E influenciadores online como Benz conseguiram distorcer o que aconteceu para desmantelar setores inteiros do governo dos Estados Unidos e silenciar pessoas das quais discordam.

A pandemia de covid-19, em particular, mostrou-se um terreno ideal para a proliferação da narrativa da censura. À medida que a confiança nas instituições despencava e rumores prejudiciais sobre a crise se disseminavam pela Internet, plataformas como Facebook, Twitter e YouTube passaram a decidir o que se qualificava como desinformação relacionada à covid, incluindo alegações sobre a origem da pandemia, e removeram publicações e baniram negacionistas de destaque das vacinas, como Robert F. Kennedy Jr., às vezes com o incentivo de setores do governo federal.

A pandemia se tornou um “momento decisivo na radicalização dos conservadores”, afirma Young. Eles “sentiam algo como: isso não está certo. Nem todo mundo está sendo censurado, só nós”.

Após a insurreição de 6 de janeiro no Capitólio dos Estados Unidos, ela própria impulsionada por alegações falsas de que a eleição de 2020 havia sido roubada, as empresas de redes sociais adotaram medidas mais agressivas, entre elas banir o presidente de suas plataformas, citando o risco de que ele incitasse mais violência. Para os aliados e apoiadores de Trump, porém, sua remoção apenas reforçou a ideia de que uma rede de atores trabalhava nos bastidores para censurar suas vozes, e impedir que o presidente permanecesse no poder.

“Foi quando Trump foi censurado até praticamente desaparecer, em 2020, pelo governo dos Estados Unidos debaixo do próprio nariz, trabalhando com redes de ONGs externas e organizações de fachada do Pentágono para censurar em massa praticamente todas as narrativas que ele divulgava, que ele perdeu”, disse Benz mais tarde a Joe Rogan em seu podcast. Para Benz, isso era a prova do poder sombrio da censura.

Em abril de 2022, as discussões online sobre a censura governamental ganharam um vilão no mundo real. O governo Biden havia anunciado a criação de um Conselho de Governança da Desinformação para coordenar os esforços do Departamento de Segurança Interna nessa frente; o órgão seria liderado por Nina Jankowicz, que havia iniciado sua carreira no combate à propaganda russa no Leste Europeu.

Mas o lançamento foi desajeitado; e, para a extrema direita, o nome de tom ameaçador do grupo e a escassez de detalhes sobre o que ele realmente faria o transformaram na prova definitiva de censura governamental sob outro nome. Como informou o Washington Post, a Fox News dedicou 70% de seus segmentos jornalísticos à cobertura de Jankowicz ou do conselho na semana seguinte ao anúncio, com Sean Hannity descrevendo-a como “uma das maiores responsáveis pela produção e disseminação de desinformação em todo o país”. Beattie, o funcionário do governo Trump que mais tarde fecharia o R/FIMI, chamou-a de “nova ministra da verdade de Biden”, enquanto Benz afirmou que ela era uma “agente registrada da Coroa britânica”. Ela se tornou alvo de uma campanha de assédio em larga escala, além de receber várias ameaças de morte.

Jankowicz também foi citada em um processo contra agências e autoridades governamentais que alegava haver “conluio explícito com empresas de redes sociais para suprimir pessoas, pontos de vista e conteúdos considerados indesejáveis”. Benz apresentou um parecer jurídico em apoio ao caso.

A Suprema Corte rejeitou o caso em 2024, mas, àquela altura, Jankowicz já tinha deixado o cargo havia muito tempo. Ela renunciou apenas três semanas depois da criação da força-tarefa, citando “ataques pessoais cruéis e ameaças físicas”. O grupo nunca chegou a se reunir.

Em fevereiro de 2023, Margot Cleveland, colaboradora do veículo conservador The Federalist, deu às percepções da direita sobre esses acontecimentos o enquadramento hoje já familiar, em um artigo intitulado “Como a obsessão contra Trump deu origem ao complexo industrial da censura”.

“O governo Biden pode ter abandonado os planos de criar um ‘Conselho de Desinformação’, mas um ‘Complexo de Censura’ mais insidioso já existe e está crescendo em ritmo alarmante”, escreveu Cleveland. “Seu financiamento e sua colaboração envolvem o governo, o meio acadêmico, as gigantes da tecnologia, organizações sem fins lucrativos, políticos, redes sociais e a imprensa tradicional. Sob o pretexto de combater a chamada informação incorreta, desinformação e má informação, esses grupos procuram silenciar discursos que ameaçam a capacidade da extrema esquerda de controlar a conversa, e, assim, o país e o mundo.”

Segundo nossa análise de publicações em redes sociais, o artigo de Cleveland foi compartilhado por 168 contas, marcando a primeira vez que algo sobre o complexo industrial da censura foi compartilhado por tantas pessoas diferentes. Sua popularidade mostrou que as pessoas estavam prontas para aderir ao enquadramento do CIC, disse Cleveland em entrevista. “Sem dúvida, é um termo marcante”, afirma. “As pessoas entendem o que significa, considerando que o complexo industrial-militar […] existe desde a década de 1950.”

Apenas algumas semanas depois, a ideia avançou em direção ao reconhecimento pelo grande público.

Musk, então o novo proprietário do Twitter, havia fornecido documentos internos da empresa a dois jornalistas, Michael Shellenberger e Matt Taibbi, com o objetivo de expor como o Twitter e o governo Biden teriam supostamente conspirado para censurar vozes conservadoras.

O que eles encontraram foi amplamente considerado muito aquém de comprovar uma conspiração contra a direita, mas, em 9 de março de 2023, os dois compareceram ao Congresso para discutir os resultados de sua investigação dos “Twitter Files” em uma audiência convocada pelo deputado republicano Jim Jordan, de Ohio. Em um depoimento de 68 páginas, Shellenberger descreveu o que afirmava ser uma vasta rede de agências governamentais e prestadores de serviços que supostamente censurava americanos por meio de “listas negras de pessoas indesejáveis”, “pressionando, persuadindo e exigindo que as plataformas de redes sociais censurassem, reduzissem o alcance e até banissem as pessoas incluídas nessas listas negras”. Shellenberger compartilhou seu depoimento no Twitter, onde ele foi visto mais de 2,7 milhões de vezes, segundo nossa análise. Um vídeo do depoimento de Taibbi foi visto 4,3 milhões de vezes, enquanto uma publicação no Twitter que o compartilhava alcançou 40 milhões de visualizações. (Como comparação, em 2023, uma publicação média no X recebia apenas 1.200 visualizações, segundo a empresa de dados Metricool.)

Descobrimos que essas estavam entre as publicações mais virais até então sobre a “indústria da censura” ou o “complexo industrial da censura”. No total, identificamos quase 30 mil publicações no Twitter sobre essas ideias entre setembro de 2011, quando a expressão “indústria da censura” apareceu pela primeira vez na plataforma, e março de 2026. O pico mais evidente ocorreu em março de 2023, na época da audiência sobre os “Twitter Files”.

Em um e-mail, Taibbi afirmou que regularmente defendeu figuras censuradas tanto da esquerda quanto da direita e que não considera a censura “uma questão entre conservadores e liberais”. “Embora o comportamento que vimos no Twitter, digamos, em 2020 tenha sido enviesado contra conteúdos conservadores nos Estados Unidos, vimos essas técnicas serem aplicadas tanto à esquerda quanto à direita em todo o mundo”, disse ele. Shellenberger, Jordan, Beattie e Musk não responderam aos pedidos de comentário.

Embora essas publicações nas redes sociais tenham alcançado um público amplo, nossa análise mostra que as ideias relacionadas ao CIC foram impulsionadas principalmente por um pequeno grupo de indivíduos. Das 13.475 contas no Twitter/X que identificamos como responsáveis por publicar ou republicar conteúdo relacionado ao CIC nesse mesmo período, 71% fizeram isso apenas uma vez.

Mesmo entre os principais defensores da teoria da conspiração, porém, Benz se destaca pelo volume de conteúdo produzido. Nossa análise mostra que, até março de 2026, ele havia publicado no X sobre a “indústria da censura” ou o “complexo industrial da censura” mais de 440 vezes desde que criou uma conta em dezembro de 2022, após a compra da plataforma por Musk; esse número era muito superior ao de qualquer outra pessoa cujas contas analisamos no mesmo período, incluindo Taibbi, Shellenberger ou Beattie. Quando incluímos outras variações da palavra “censura”, esse total ultrapassou 2.200 publicações.

Em uma entrevista para um podcast em 2023, Shellenberger atribuiu a Benz o mérito de ter aberto seus olhos para a real dimensão em que vozes conservadoras estavam sendo silenciadas. “Basicamente, deixamos de nos preocupar com formas ruins de censura por parte do Twitter e de outras plataformas de redes sociais para passar a nos preocupar com a censura governamental”, disse Shellenberger.

“Era como se, metaforicamente, estivéssemos tocando partes de um elefante. Não entendíamos o que era o elefante [até] descobrirmos seu trabalho, Mike.”

Os amplificadores

Para entender o papel de Benz na elaboração e promoção da narrativa do CIC, a MIT Technology Review e a Type Investigations examinaram milhares de suas publicações no Twitter, declarações públicas, podcasts e relatórios desde 2015, incluindo materiais de contas que já foram excluídas, formando a coleção mais abrangente do trabalho de Benz reunida até hoje. Descobrimos que seu interesse pela censura remonta aos primeiros dias dessa disputa, pelo menos a 2016, quando ele era advogado corporativo e morava no Brooklyn.

Foi nessa época que, como Brandy Zadrozny, da NBC News, revelaria mais tarde, ele começou a publicar conteúdo na Internet sob o pseudônimo Frame Game. O “Frame Game Radio” publicou em diversas plataformas, incluindo YouTube, Twitter e Gab, combinando visões identitárias brancas e antissemitas, embora Benz se identifique como judeu, com críticas alinhadas à alt-right sobre a “indústria da diversidade” e a censura. (Em uma longa resposta publicada no X à reportagem da NBC News de 2023, Benz afirmou que o Frame Game era um “projeto de judeus para fazer com que pessoas que odiavam judeus deixassem de odiá-los”, para o qual ele teria “contribuído de maneira muito limitada”. Ele também declarou: “Quero deixar claro: tenho enorme orgulho disso.”)

O conteúdo do Frame Game falava de forma positiva sobre Mein Kampf, de Hitler, alertava para um “genocídio branco” e afirmava que “a censura é um fenômeno quase exclusivamente judaico”. Durante alguns meses, a conta promoveu uma campanha, até hoje não noticiada, para um “Fundo de Fertilidade para Mães Brancas”, que prometia doar 20% da receita do canal a uma mãe indicada pelos ouvintes.

“Censura” tornou-se um termo genérico para praticamente qualquer forma de moderação de conteúdo.

Esse tipo de conteúdo rendeu ao Frame Game elogios da publicação nacionalista branca Counter-Currents, que, em maio de 2018, descreveu a figura anônima como “uma estrela em ascensão” e um “ativista online pró-brancos e crítico dos judeus”, observando que a conta no Twitter era “seguida por todos, de Steve Sailer a David Duke”, referências, respectivamente, a um colunista do site nacionalista branco VDare e ao ex-Grande Mago da Ku Klux Klan.

Outra preocupação recorrente era a suposta repressão ao discurso conservador. Em vídeos com horas de duração, o Frame Game usava “censura” como um termo abrangente para praticamente qualquer forma de moderação de conteúdo, chegando a aplicá-lo a qualquer tipo de “crítica”. A conta ficou particularmente indignada com a remoção de Alex Jones das plataformas em 2018, que chamou de “Pearl Harbor da liberdade de expressão”.

A censura online era uma “questão fundamental”, afirmou o canal em 2018, por afetar a capacidade da direita de alcançar qualquer um de seus outros objetivos: “Você precisa resolver isso, caso contrário, não consegue defender efetivamente nenhuma outra causa.”

O Frame Game deixou de publicar naquele mesmo ano, quando Benz começou a trabalhar como redator de discursos no Departamento de Habitação e Desenvolvimento Urbano, antes de integrar a equipe de redatores de discursos de Stephen Miller na Casa Branca.

Depois, em novembro de 2020, Benz foi para o Departamento de Estado, onde atuou brevemente, nos últimos meses do primeiro governo Trump, como subsecretário adjunto para comunicações internacionais e política de informação. Ele afirmou que essa experiência de curta duração lhe deu conhecimento em primeira mão sobre como funciona a máquina de censura: “Tudo relacionado à Internet que tivesse conexão com a política externa dos Estados Unidos estava sob minha responsabilidade”, disse Benz a Shellenberger em um podcast em março de 2023. “Pude ver o núcleo interno de como o Grande Governo e as Big Techs se fundiram de maneira tão completa e relativamente fluida.”

Isso também ajudou a preparar a carreira de Benz após o governo Trump. Em abril de 2022, ele criou a Foundation for Freedom Online (FFO), que se descreve como uma “organização fiscalizadora da liberdade de expressão” dedicada a defender a “liberdade digital em todo o mundo”. Embora se autodenomine uma “fundação”, a FFO não é registrada como organização sem fins lucrativos e conta com apenas alguns colaboradores. Ainda assim, rapidamente passou a integrar uma rede mais ampla de novas organizações alinhadas a Trump e, aos olhos delas, até iniciativas inofensivas podiam servir como evidência das maquinações do complexo industrial da censura. A FFO publicou relatórios críticos afirmando que esforços para promover alfabetização midiática, campanhas de segurança de marca e jornalismo sem fins lucrativos, incluindo o trabalho da organização investigativa Bellingcat, eram todos formas ocultas de censura, além de classificar como suspeita qualquer pessoa ligada a uma agência governamental. (Um dos autores deste artigo trabalhou anteriormente com desenvolvimento internacional no Afeganistão, por meio de uma bolsa do Departamento de Estado e de uma subvenção da USAID, enquanto dois dos autores colaboraram anteriormente com a Bellingcat.)

Um dos alvos da FFO foi um jogo educativo relativamente desconhecido chamado Cat Park. Criado em 2022 com financiamento do GEC, do Departamento de Estado, o Cat Park foi desenvolvido para “aumentar a resistência à desinformação e promover a alfabetização midiática digital” entre jovens a partir de 15 anos, segundo sua descrição oficial.

No jogo, os participantes alimentam a oposição a um parque para gatos financiado pela prefeitura criando manchetes e memes carregados de emoção e manipulando imagens com IA. Então, na metade do jogo, descobrem que a campanha contra o parque foi idealizada por um bilionário que planejava comprar por um preço baixo o terreno reservado para a obra assim que a indignação levasse a cidade a desistir de construí-lo. A partir desse ponto, os jogadores precisam usar o que aprenderam sobre a criação de propaganda eficaz para combater a própria desinformação.

Até 2024, apenas cerca de 100 mil pessoas haviam jogado, segundo Martijn Gussekloo, cofundador da agência holandesa de design que ajudou a desenvolvê-lo, um número muito menor do que o registrado por jogos online semelhantes nos quais a agência havia trabalhado para chamar a atenção para o problema da desinformação. “Até onde sei”, afirma, “não havia nenhum objetivo político.”

Ainda assim, a FFO publicou um relatório, baseado em materiais obtidos pela America First Legal (AFL), organização sem fins lucrativos criada por Stephen Miller, alegando que o Cat Park fazia parte do esforço do Departamento de Estado para “treinar subliminarmente jovens a associar publicações em redes sociais que denunciam corrupção governamental a ‘notícias falsas’”. A interpretação sinistra foi repercutida por veículos de mídia conservadores como o Just the News, que citou Benz. Essa reportagem, por sua vez, foi repercutida pela RT News, da Rússia, que também citava Benz com frequência.

A ideia continuou relativamente obscura e restrita a um nicho, mas não precisava alcançar um público enorme para preparar o terreno para uma ação oficial do governo. Em 2023, republicanos do Comitê de Relações Exteriores da Câmara, citando relatórios da FFO, exigiram que o Departamento de Estado entregasse documentos sobre seus esforços de combate à desinformação, entre eles o Cat Park. Até o fim do ano seguinte, o Congresso votou pela retirada do financiamento do GEC, e veículos como a Fox News usaram o Cat Park para ilustrar o caráter supostamente nefasto desse trabalho. Era o ápice de uma teoria da conspiração que havia saído das margens da direita online, chegado a veículos mais tradicionais e de maior projeção e, depois, aos corredores do poder.

Embora essa dinâmica não seja exclusiva da narrativa do CIC, constatamos que ela se repetiu inúmeras vezes com diferentes alvos, desde os primeiros ataques ao Conselho de Governança da Desinformação até o posterior encerramento de outras organizações de pesquisa voltadas à desinformação, como o Stanford Internet Observatory e a Election Integrity Partnership, e, mais tarde, de órgãos governamentais como o R/FIMI.

Em cada caso, segundo nossa análise, teorias da conspiração relacionadas ao CIC nas redes sociais foram apoiadas por várias organizações conservadoras; entre as principais estavam a FFO e a AFL, que desempenharam papel crucial na obtenção de registros governamentais que, segundo elas, mostravam evidências de que conservadores haviam sido censurados. A FFO então usou esses documentos para elaborar relatórios extensos que supostamente ligavam os pontos e explicavam como funcionava a indústria da censura. A AFL também deu início a diversos processos contra pessoas e organizações supostamente envolvidas com o CIC.

Esses materiais foram então amplificados por uma série de veículos de mídia de direita, muitos deles financiados por fontes em comum.

Grande parte desse financiamento foi canalizada por meio da Informing America Foundation (IAF), uma organização voltada à mídia que concede subsídios e que John Solomon ajudou a criar depois de deixar seu cargo no The Hill, em 2019, após o escrutínio público de colunas sobre os Biden e a Ucrânia. A IAF financia uma rede de podcasts chamada Real America’s Voice, que inclui programas comandados por importantes aliados de Trump, como Steve Bannon, Jack Posobiec e o falecido Charlie Kirk, além do próprio Solomon. Também financia uma rede do que estudiosos da mídia chamam de sites de “lodo rosa”, criados para parecer veículos locais de notícias apartidários, mas que apresentam viés partidário. Benz aparecia regularmente nesses podcasts e veículos, incorporando ainda mais a narrativa do CIC ao ecossistema informacional da direita, ao mesmo tempo que ampliava sua própria visibilidade e suas fontes de receita no X Premium e em outras plataformas.

Ao mesmo tempo, a IAF apoiava indiretamente a FFO e o próprio Benz, doando milhões de dólares a organizações conservadoras que atuavam como as maiores financiadoras de seu trabalho. Em 2023 e 2024, os únicos anos em que ele aparece diretamente nos documentos financeiros de organizações sem fins lucrativos, Benz recebeu US$ 530 mil de uma única organização.

Em um e-mail, Solomon defendeu a precisão de suas reportagens para o The Hill e afirmou que, embora tenha ajudado a conceber a ideia da IAF, não faz parte da liderança oficial do grupo nem participa da concessão de subsídios. Ele também observou que foi um dos primeiros a adotar o enquadramento do “complexo industrial da censura”, tendo usado o termo já em 2021.

“Não existem teorias da conspiração sobre censura incentivada pelo governo federal”, disse Solomon. “Isso aconteceu.”

As narrativas sobre o CIC que circulavam na Internet e em podcasts de direita ajudaram repetidamente a impulsionar ações fora do ambiente online, tanto por meio de processos privados quanto de investigações do Congresso. O X, de Musk, foi especialmente litigioso, processando pelo menos três organizações que produziram relatórios sobre discursos de ódio na plataforma ou atuaram contra eles. (Esses processos já foram rejeitados.) Depois, quando os republicanos retomaram o controle da Câmara dos Representantes, em 2023, uma nova subcomissão sobre a “instrumentalização do governo federal”, presidida por Jordan, iniciou várias investigações sobre pessoas e organizações que Benz, Taibbi, Shellenberger, Musk e outros defensores da teoria do CIC haviam apontado como alvos.

“Receber uma intimação para entregar seus documentos é absolutamente avassalador”, afirma Clare Melford, diretora executiva do Global Disinformation Index (GDI), uma organização sem fins lucrativos sediada em Londres que avalia os níveis de desinformação em sites e que foi alvo de uma investigação do Congresso iniciada em abril de 2023. “Isso pode ser financeiramente devastador, e esse é o objetivo.”

Benz refletiu sobre o impacto da Internet de direita durante um simpósio realizado em abril de 2024 na Heritage Foundation, que, no ano anterior, havia publicado o Projeto 2025, o plano de políticas públicas para o segundo governo Trump. Embora tenha dado crédito a Jordan e a outros integrantes do Congresso pela luta contra o complexo industrial da censura, ele argumentou que os legisladores haviam abraçado a causa “porque todo mundo já está falando sobre isso”.

“A coisa mais importante é: fale sobre isso, fale sobre isso, fale sobre isso”, disse Benz. É um mantra que ele parece ter levado a sério: nossa análise constatou que ele mencionava variações da palavra “censura”, em média, uma vez a cada três minutos e meio em seus vídeos no YouTube.

“Não subestime”, disse Benz na Heritage Foundation, “o poder de uma pequena voz que, multiplicada por milhões, pode causar muitos danos a esse sistema.”

Os danos

Os efeitos dessa guerra contra a censura se tornaram ainda mais profundos quando o novo governo assumiu o poder no ano seguinte. No primeiro dia de seu segundo mandato, Trump assinou uma ordem executiva intitulada “Restaurando a Liberdade de Expressão e Acabando com a Censura Federal”, que acusava o governo Biden de ter “pisoteado” os direitos dos americanos à liberdade de expressão.

Isso lançou as bases para decisões do governo que encerraram milhões de dólares em apoio a pesquisas voltadas à desinformação e à informação incorreta e fecharam diversas agências governamentais, tudo em nome do combate à censura. Um dos exemplos de maior repercussão foi o desmantelamento da USAID, que resultou em cortes devastadores em programas destinados a combater a disseminação do HIV e da AIDS, melhorar a saúde materna e fornecer ajuda alimentar em todo o mundo. Integrantes do governo afirmaram em alto e bom som que a agência desperdiçava recursos federais e que seus valores não estavam alinhados aos interesses dos Estados Unidos, mas talvez seja menos conhecido o papel crucial que ideias falsas sobre censura desempenharam em seu fim.

A agência havia sido uma obsessão de longa data para Benz, que argumentava que ela era um instrumento de censura desde o primeiro relatório da FFO, em julho de 2022. Um esforço no Brasil para limitar a disseminação de desinformação em aplicativos de mensagens como WhatsApp e Telegram, alegou a FFO, era uma forma de censura financiada pela USAID e por outros. Mais tarde naquele ano, Benz também acusou a USAID de financiar o que chamou de um “Guia de Combate à Desinformação para Censura Digital”. Na realidade, tratava-se de um guia introdutório da USAID para seus funcionários no exterior sobre como reconhecer campanhas de desinformação nos países estrangeiros em que a agência atuava.

Nossa análise mostra que Benz e a FFO foram as vozes predominantes na promoção de teorias da conspiração envolvendo a USAID e a censura de 2022 até o fim de 2024, quando Benz falou sobre o assunto no podcast de Rogan. “A USAID é, na prática, uma espécie de ‘jogador-coringa’ para auxiliar o Pentágono na frente da segurança nacional, auxiliar o Departamento de Estado na frente dos interesses nacionais ou auxiliar a comunidade de inteligência na frente de operações de caráter clandestino”, alegou Benz.

Sua participação atraiu milhões de espectadores, entre eles Musk. O trilionário republicou no X o resumo elogioso da entrevista feito por um usuário. “Mike Benz acabou de revelar tudo”, escreveu o usuário, incluindo “como a ‘democracia’ foi redefinida para silenciar você”.

Essa foi a primeira vez que Musk, recém-instalado no DOGE, publicou especificamente sobre a USAID. Mas Benz e Musk já se conheciam. Os dois trocavam publicações e sequências de posts sobre censura e outras teorias da conspiração havia anos.

Apenas algumas semanas depois da participação de Benz no podcast de Rogan, Musk já usava diretamente a expressão “complexo industrial da censura”, e a USAID estava por um fio.

Em fevereiro de 2025, Andrew Natsios, republicano que havia comandado a USAID durante o governo do presidente George W. Bush, tentou defender a agência das teorias da conspiração de Benz e de outras acusações. Durante uma audiência do Comitê de Relações Exteriores da Câmara dos Representantes, a deputada republicana Anna Paulina Luna, da Flórida, perguntou a Natsios sobre um slide que Benz havia compartilhado nas redes sociais e que supostamente ilustrava como os militares poderiam trabalhar com a USAID e outras agências para incitar tumultos, “desestabilizar nações” e elaborar “campanhas de desinformação” estratégicas.

“O que Benz disse a vocês é absurdo”, declarou Natsios. Embora tenha tentado explicar repetidamente que o slide não havia sido produzido pela USAID e, portanto, não poderia representar as posições da agência, Luna não se convenceu. Depois da audiência, ela recorreu ao X para agradecer a Benz por expor o complexo industrial da censura. “A USAID não poderia ser mais parte do pântano de Washington”, escreveu. Benz respondeu com o emoji da bandeira dos Estados Unidos.

“Fiquei estarrecido com toda a audiência”, disse Natsios à MIT Technology Review e à Type Investigations, ainda demonstrando frustração. Para defender a agência, ele havia feito inúmeras aparições na mídia, incluindo entrevistas à Fox News e ao 60 Minutes, além de ter procurado o podcast de Rogan. Mas o estrago já estava feito; no fim de março, o governo notificou formalmente o Congresso de que a USAID seria encerrada.

“Eles agiram com tanta rapidez”, afirma Natsios, “que não conseguimos ter sucesso.”

A narrativa de um complexo industrial da censura também está reformulando as relações dos Estados Unidos com outros países, incluindo aliados declarados. Por exemplo, a mais recente estratégia de segurança nacional da Casa Branca, divulgada em novembro, argumenta que a Europa enfrenta a “perspectiva de apagamento civilizacional”, em parte por causa da “censura à liberdade de expressão e da repressão à oposição política”.

E a Lei de Serviços Digitais da União Europeia, de 2022, que estabeleceu salvaguardas para as plataformas online, tornou-se um dos principais pontos de tensão nas relações transatlânticas, com Benz chamando-a de “principal lei de censura online” da União Europeia.

A regulamentação da UE exige que empresas de redes sociais removam conteúdos que violem as leis nacionais dos países-membros, incluindo leis sobre discurso de ódio e desinformação. Mas, para Benz e seus aliados, a DSA não tinha como objetivo promover responsabilização, e sim criar uma arquitetura de censura que pudesse ser exportada. Como as plataformas globais de tecnologia normalmente padronizam suas políticas de moderação de conteúdo, “as empresas de tecnologia dos Estados Unidos seriam obrigadas a aplicar medidas semelhantes de censura também em seu próprio país”, escreveu Benz no veículo conservador Townhall, em maio de 2022.

Mais tarde, o vice-presidente JD Vance retomou esse tema em um discurso de grande repercussão em Munique, em fevereiro de 2025, alertando que a liberdade de expressão na Europa estava “em retrocesso”. Apenas uma semana depois, Trump emitiu ordens executivas indicando que consideraria impor tarifas em retaliação a “qualquer ato, política ou prática na União Europeia”, como a DSA, que buscasse “minar a liberdade de expressão ou fomentar a censura”. No verão passado, Rubio instruiu diplomatas a fazer lobby diretamente contra a medida.

Internamente, porém, pelo menos uma iniciativa para encontrar evidências de censura encontrou pouco. Na primavera passada, Vance encarregou uma equipe do Departamento de Estado de reunir exemplos de casos em que plataformas de redes sociais teriam censurado manifestações no continente. Um ex-funcionário que recebeu a solicitação nos disse que Vance não estava interessado “na prisão de ativistas de direitos humanos por se manifestarem, nem de jornalistas ou acadêmicos” em Belarus, Hungria, Sérvia ou Rússia, questões que o departamento já monitorava. Em vez disso, segundo o funcionário, Vance “queria se concentrar em um conjunto extremamente restrito de publicações relacionadas à ideologia de extrema direita, a temas ligados ao aborto” e até mesmo à cobertura de seu próprio discurso em Munique. Vance orientou os investigadores a se concentrarem em Alemanha, França, Irlanda e Reino Unido, todos aliados dos Estados Unidos nos quais o governo expressou recentemente apoio a partidos e políticos de extrema direita.

A equipe seguiu a orientação de Vance, mas, em vez de uma “vasta conspiração”, segundo o ex-funcionário, encontrou menos de dez casos de conteúdo removido do X, todos relacionados a investigações policiais em andamento sobre extremismo violento.

Um porta-voz do gabinete de Vance se recusou a comentar, mas apontou para declarações anteriores em que ele negava ter ordenado esse tipo de relatório. A Casa Branca não respondeu aos pedidos de comentário.

E o governo não recuou. Depois que a Comissão Europeia aplicou ao X uma multa de 120 milhões de euros em dezembro passado, o Departamento de Estado anunciou que cinco europeus que haviam defendido regras mais rígidas de moderação de conteúdo por meio da DSA e de outros mecanismos seriam proibidos de entrar nos Estados Unidos. Rubio chamou esses indivíduos, entre eles Melford, do GDI, de “agentes do complexo industrial da censura”. (Desde então, um juiz impediu o governo de aplicar essas proibições enquanto o processo judicial prossegue, afirmando que elas são “provavelmente discriminatórias com base em pontos de vista”)

A disputa pela verdade

A guerra contra a suposta censura continuou a se intensificar durante a primeira metade deste ano. Em fevereiro, o Departamento de Estado anunciou um novo portal na Internet, o freedom.gov, que permitirá que pessoas no exterior, especialmente europeias, vejam discursos de ódio, propaganda estrangeira e outros conteúdos online que haviam sido proibidos por seus próprios governos. No mesmo mês, Jordan e sua equipe no Comitê Judiciário da Câmara divulgaram um segundo relatório sobre censura europeia, citando outras organizações que, segundo eles, estavam envolvidas. E ex-funcionários do R/FIMI continuam preocupados com a possibilidade de que a divulgação de uma há muito prometida “iniciativa de transparência” de Beattie, que fechou o escritório, revele informações sensíveis sobre pessoas e organizações no exterior que se colocaram em risco para combater a propaganda da China e da Rússia.

Algumas das figuras centrais responsáveis pela narrativa do CIC fora do governo agora estão sendo recompensadas com cargos influentes dentro dele. “No momento, sou como um malabarista de polvos”, gabou-se Benz em abril de 2025, pouco depois de sua entrevista com Rubio sobre o fim do R/FIMI. As atividades às quais se referia, explicou de maneira vaga, incluíam seu trabalho na mídia, em questões de políticas públicas e em processos judiciais, além de sua atuação com o Congresso. E isso ainda foi antes de ele começar a trabalhar como funcionário especial do governo no que restou da USAID, agora abrigada no Departamento de Estado, onde, segundo relatos, vem investigando as irregularidades que há muito alega terem ocorrido.

Enquanto isso, em fevereiro, Beattie foi nomeado assessor sênior do Departamento de Estado para o Brasil. E, em maio, a Casa Branca nomeou John Solomon funcionário especial do governo, com foco em questões de “transparência”. (Solomon observou que o cargo não era remunerado.)

O Departamento de Estado não respondeu a perguntas mais amplas sobre a narrativa do CIC e seus efeitos sobre as políticas públicas, a orientação do vice-presidente para que funcionários do departamento encontrassem casos de censura na Europa Ocidental ou o andamento da iniciativa de transparência de Beattie. “Sob a liderança do Dr. Beattie […] o Departamento fez grandes avanços no combate a grupos de censura”, escreveu um funcionário do órgão em um e-mail.

Ao mesmo tempo, as campanhas de influência digital conduzidas por Estados, que organizações como o GEC foram criadas para combater, estão se tornando mais sofisticadas. Ao longo da guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã, o país produziu propaganda gerada por IA e, segundo muitos relatos, está vencendo a disputa de narrativas. Moscou vem trabalhando para inserir propaganda russa nos conjuntos de dados usados por empresas americanas para treinar chatbots de IA, aumentando a probabilidade de que chatbots populares repitam narrativas russas. E o governo chinês vem recrutando empresas nacionais de IA para conduzir campanhas de influência alinhadas ao Estado, segundo uma avaliação de uma agência de inteligência dos Estados Unidos; desde então, o governo Trump também reduziu drasticamente esse órgão.

No verão passado, um impostor equipado com IA, fingindo ser Rubio, entrou em contato com legisladores e diplomatas. “Achei curioso descobrir que […] em algum momento, Marco Rubio começou a se preocupar com deepfakes e, então, isso realmente aconteceu”, afirma um ex-funcionário do Departamento de Estado. “E as pessoas encarregadas de trabalhar nisso [no departamento] foram demitidas”, ou seja, haviam sido dispensadas meses antes, juntamente com o restante do R/FIMI.

Do ponto de vista da política externa, isso representa um “desarmamento unilateral” dos Estados Unidos, afirma James Rubin, ex-chefe do GEC, “deixando o espaço informacional aberto aos adversários dos Estados Unidos, especialmente China, Rússia e Irã”. O resultado é que todos ficam mais vulneráveis a agentes mal-intencionados na Internet, muitas vezes sem perceber o engano em curso.

Essas ameaças são agravadas pela forma como muitas empresas de tecnologia passaram a se alinhar ao governo Trump, uma postura que, segundo críticos, ameaça a segurança de seus bilhões de usuários. Em janeiro passado, a Meta encerrou a checagem de fatos no Facebook, com o CEO Mark Zuckerberg afirmando, em um anúncio em vídeo, que a empresa iria “trabalhar com o presidente Trump para reagir a governos ao redor do mundo” que estavam “perseguindo empresas americanas e pressionando por mais censura”. Meta, X e Google também pagaram, cada uma, dezenas de milhões de dólares para encerrar processos movidos por Trump por causa da decisão dessas empresas de remover suas contas nas redes sociais após 6 de janeiro. (O Google se recusou a comentar. Meta e X não responderam aos pedidos de comentário.)

Hoje, a narrativa do CIC é muito maior do que qualquer organização ou indivíduo isolado. E isso é intencional. Seus defensores construíram essa batalha de forma muito mais ampla, como uma defesa abrangente da liberdade de expressão. “Se tivéssemos permissão para falar livremente, milhões e milhões de pessoas ouviriam uma verdade à qual simplesmente não conseguiriam resistir”, disse Benz ainda na época do Frame Game. “Elas se juntariam a este movimento.”

É um movimento que, acima de tudo, parece estar atacando “a própria natureza da verdade”, afirma Michael Barkun, cientista político da Universidade de Syracuse que estuda teorias da conspiração há décadas. “As implicações para a política são realmente assustadoras, porque isso torna a conversa e o debate praticamente impossíveis. Como você pode conversar com pessoas se elas acreditam que tudo o que você diz se baseia em algum conjunto de falsidades?”

Benz e seus pares expressaram sentimentos semelhantes. Na disputa em torno da censura, os papéis se invertem constantemente: os acusadores se tornam acusados, as vítimas se tornam algozes, e assim por diante.

É por isso que é importante olhar para além das próprias narrativas políticas e considerar as ações, afirma David Kaye, professor de Direito da Universidade da Califórnia em Irvine e ex-relator especial da ONU para a liberdade de expressão. “O governo provavelmente percebe que […] os americanos, de modo geral, não se sentem censurados pela Europa ou pelo Brasil”, diz ele. Mas, ao concentrar o foco na Europa, no Brasil e na ideia mais ampla do CIC, espera “desviar a atenção” do fato de que “os americanos estão, sem dúvida, enfrentando a censura mais significativa dos últimos, sei lá, 100 anos”, acrescenta, embora “na verdade seja o governo Trump” o responsável.

A noção de um complexo industrial da censura vem se mostrando, repetidas vezes, um pretexto conveniente e poderoso para silenciar os críticos mais contundentes de quem está no poder. “A própria coisa da qual eles acusam as pessoas, censurar, é algo que agora eles mesmos estão perpetuando”, afirma Jankowicz.

É claro que esse talvez tenha sido o objetivo desde o início. No palco da Heritage Foundation, em 2024, Benz falou do CIC como se tivesse a mão sobre um “botão de Deus” que lhe conferia o poder de “controlar o discurso sobre todas as questões políticas”. Agora, os conservadores podem exercer esse poder por conta própria.

“A democracia diz respeito aos corações e às mentes das pessoas”, disse ele à plateia. “Se você simplesmente conseguir eliminar a capacidade de influenciar corações e mentes por meio da censura, você vence por inércia.”

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