No ano passado, Ruxandra Teslo, analista de políticas públicas com foco em ensaios clínicos, publicou uma ideia para potencializar sistemas de IA médica: usar dados de empresas de biotecnologia que faliram.
Ao participar de leilões em processos de falência, ela propôs, seria possível obter documentos regulatórios detalhados, estratégias de fabricação e dados de segurança, tipos de informação normalmente considerados segredos comerciais. Ela chamou esses documentos de “o arquivo perdido da biotecnologia” e afirmou que eles poderiam ser usados para ajudar a treinar IAs que atuariam como copilotos poderosos no processo de aprovação de medicamentos, que muitas vezes é pouco transparente.
Hoje, a Fundação OpenAI, a organização sem fins lucrativos controladora da OpenAI, anunciou que financiaria sua ideia como parte de uma nova iniciativa chamada Public Data for Health, que tem como objetivo ajudar a Inteligência Artificial a dar grandes saltos na medicina ao pagar pela criação de “conjuntos de dados científicos de alta qualidade”.
A ideia central é que a IA não será capaz de realizar avanços importantes na cura de doenças a menos que os pesquisadores consigam alimentar os modelos com muito mais informações do que possuem atualmente.
“Todos estão reconhecendo que os dados são o maior gargalo para aplicar com sucesso a IA à biologia”, afirma Morgan Levine, ex-vice-presidente de computação da Altos Labs, uma empresa de longevidade.
Em sua rodada inicial de concessão de recursos para dados, a Fundação OpenAI também anunciou que destinaria US$ 40 milhões a um programa para coletar dados sobre novas vacinas contra o câncer na Universidade da Carolina do Norte, em Chapel Hill, e apoiaria o OpenAdmet, um grupo que organiza competições nas quais pesquisadores tentam prever os efeitos de medicamentos.
A ideia de Teslo para um arquivo de biotecnologia recebeu US$ 500 mil e será desenvolvida pela 1Day Sooner, um grupo de defesa dos voluntários de ensaios clínicos que ela assessora.
“Esperamos que muitos dos avanços que ainda virão na prevenção e na cura de doenças surjam da combinação da inteligência de novos modelos com mais observações do mundo, em outras palavras, mais dados”, afirmou a Fundação OpenAI em um comunicado.
A OpenAI começou como uma organização sem fins lucrativos, mas seu líder, Sam Altman, reestruturou a empresa para formar uma corporação com fins lucrativos que desenvolve novos modelos, lança produtos e agora planeja uma oferta pública inicial de ações que poderia avaliá-la em US$ 1 trilhão.
Como a fundação detém uma participação acionária de 26% na OpenAI, ela está a caminho de se tornar a organização filantrópica mais rica do planeta, podendo deter até US$ 250 bilhões em valor de ações. Para comparação, a Fundação Gates e um fundo associado a ela possuíam cerca de US$ 180 bilhões no fim de 2025.
Usar bem esse tipo de recurso não será fácil. A fundação, sediada em São Francisco, ainda está contratando para muitas funções importantes e só começou a ampliar sua atuação de concessão de recursos neste ano. Sua maior doação individual até agora, de US$ 100 milhões, foi concedida em agosto à Common Health Coalition, uma organização que ajuda pacientes a obter acesso a medicamentos contra a hepatite C.
Os esforços filantrópicos da OpenAI acontecem mesmo enquanto surgiram temores apocalípticos sobre a possibilidade de uma IA fora de controle extinguir toda a vida humana, possivelmente por meio do lançamento de uma arma biológica letal.
Esses temores foram alimentados por integrantes de empresas de IA, alguns dos quais afirmam que a chance de extinção humana na próxima década é de 10% ou mais. Na semana passada, Altman e o fundador da xAI, Elon Musk, apoiaram um pedido feito pelo CEO da Anthropic, Dario Amodei, para “reduzir o ritmo com que aprimoramos as capacidades dos modelos de IA”, permitindo que a prevenção de riscos acompanhe esse avanço.
Jacob Trefethen, executivo da fundação, afirma que ela opera essencialmente de forma independente da OpenAI, mas compartilha uma missão oficial de garantir que a Inteligência Artificial “beneficie toda a humanidade”.
“Estamos começando a conceder recursos quando acreditamos que a melhor maneira de alcançar essa missão é fazer doações para organizações sem fins lucrativos externas, instituições de pesquisa e outros terceiros”, disse Trefethen em uma entrevista. Segundo ele, a fundação espera distribuir US$ 1 bilhão até o fim do ano.
A doação de US$ 500 mil para a 1Day Sooner ajudará o grupo a demonstrar que consegue obter os grandes conjuntos de dados de empresas falidas, afirma o presidente e cofundador da organização, Josh Morrison. Ele acredita que cópias não exclusivas dos conjuntos de dados dessas empresas poderiam ser adquiridas por apenas “algumas dezenas de milhares de dólares” cada.
A organização dele atualmente está de posse de três conjuntos de dados, dois deles doados pela Lumen Bioscience, uma empresa de biotecnologia que anteriormente usou a estratégia do Capítulo 11 para obter informações sobre os esforços de desenvolvimento de medicamentos de outra empresa.
Morrison afirma que outras duas tentativas de obter arquivos de empresas farmacêuticas neste ano não tiveram sucesso, depois que as ofertas da 1Day Sooner não foram aceitas.
Processos de falência podem se tornar o que alguns estão chamando de uma “nova corrida pela posse de dados” para treinamento de IA. No mês passado, o Google venceu uma disputa para assumir os dados corporativos da companhia aérea falida Spirit Airlines, incluindo 100 milhões de e-mails. Isso gerou objeções de comissários de bordo e outras pessoas que temiam que dados privados ou proprietários pudessem ser expostos.
Os arquivos de empresas farmacêuticas que a 1Day Sooner busca são conhecidos como documentos técnicos comuns. Eles normalmente contêm as trocas de informações entre empresas e órgãos reguladores, além de medições científicas e médicas detalhadas, fornecendo, na prática, tudo o que se sabe sobre um medicamento.
Segundo Teslo, que é escritora da Works In Progress e pesquisadora não residente do Institute for Progress, um centro de estudos com sede em Washington, DC, um acervo desses documentos poderia ajudar a transformar uma IA em uma especialista em regulamentação, algo que, em sua visão, poderia ser uma das principais formas pelas quais a IA ajudaria a acelerar a chegada de tratamentos ao mercado.
“As pessoas dizem: ‘Vamos inventar a IA, e a IA vai curar o câncer’, mas isso está muito distante da realidade complexa e do processo regulatório”, afirma ela. “Cerca de 70% do dinheiro e do tempo no desenvolvimento de medicamentos são gastos no desenvolvimento clínico, na organização dos ensaios e nos testes do medicamento, mas, apesar disso, o processo é basicamente uma caixa-preta, especialmente para pequenas empresas de biotecnologia que geram as inovações.”



