Os EUA gastaram bilhões em vigilância de fronteira. Por que não conseguem detectar e deter as pessoas antes que elas morram?
Governança

Os EUA gastaram bilhões em vigilância de fronteira. Por que não conseguem detectar e deter as pessoas antes que elas morram?

Torres de vigilância, cada vez mais equipadas com IA, prometiam respostas mais rápidas às travessias. Nossa investigação sobre mortes nas proximidades dessas torres constatou que elas não estão cumprindo essa promessa

Quando José Morales Bernal cruzou a fronteira e entrou nos Estados Unidos, em 8 de abril de 2024, um dia antes de completar 32 anos, isso deveria ter desencadeado uma sequência de alertas tecnológicos e respostas humanas.

Enquanto caminhava pelo deserto no sul do Novo México naquela manhã, ele estava dentro do alcance de três torres de vigilância. Recém-instaladas pela Alfândega e Proteção de Fronteiras dos Estados Unidos (CBP, na sigla em inglês), elas foram construídas pela empresa de tecnologia de defesa Anduril, equipadas com câmeras e Inteligência Artificial para detectar e rastrear pessoas automaticamente. As torres transmitem vídeo ao vivo para salas de controle próximas e podem enviar alertas aos smartphones fornecidos pelo governo aos agentes da região, levando o agente disponível mais próximo a responder.

Essas torres equipadas com IA deveriam proporcionar maior visibilidade ao longo dos 3.140 quilômetros da fronteira sul, liberando os agentes de fronteira da tarefa de passar horas olhando para monitores de vídeo. Elas foram instaladas especificamente naquele local para identificar pessoas cruzando a fronteira antes que chegassem à cidade próxima de Sunland Park.

Se o sistema tivesse funcionado como previsto, Morales deveria ter sido detido. Se precisasse de atendimento médico, os agentes eram treinados para prestá-lo.

Vista do local onde o corpo de José Morales Bernal foi encontrado, em direção a uma torre de vigilância da Alfândega e Proteção de Fronteiras fabricada pela Anduril, ao longo da fronteira sul dos Estados Unidos, em Sunland Park, Novo México.
Crédito das fotos: CENGIZ YAR, PARA A MITTR

Isso não aconteceu. Apesar das torres de vigilância próximas, foram funcionários do aterro sanitário local, e não a Patrulha de Fronteira, que avistaram Morales pela primeira vez naquela manhã. Às 13h, os trabalhadores o viram novamente, agora deitado na areia. Às 16h, perceberam que ele não havia se mexido e ligaram para a Patrulha de Fronteira. Os agentes chegaram 45 minutos depois. Ele estava morto. Quando um agente ligou então para o 911 (telefone de emergência, nos EUA), para informar sobre o corpo, disse que se tratava “provavelmente de um dos migrantes que estavam passando por ali”, aparentemente sem saber que Morales havia se deslocado nas proximidades dos sistemas de vigilância da própria agência mais cedo naquele dia.

Morales morreu a apenas 110 metros da torre de vigilância mais próxima. Outras duas torres vigiavam a área a leste e a oeste. Uma autópsia concluiu posteriormente que ele havia morrido de “exposição ambiental”.

As torres ao redor de Morales eram apenas o acréscimo mais recente ao “muro virtual” que o governo vem construindo há 25 anos, ao custo de bilhões de dólares, ao longo de toda a fronteira. Esse sistema também inclui gerações anteriores de torres com recursos mais básicos, além de dirigíveis, drones, sensores sísmicos e até robôs capazes de detectar túneis. Em conjunto, toda essa tecnologia fornece “vigilância persistente” e “consciência situacional” para ajudar a Patrulha de Fronteira a detectar pessoas que atravessam a fronteira de maneira rápida e precisa e, sobretudo, garantir que agentes sejam enviados para interceptá-las. A CBP também atribuiu a essa tecnologia o mérito de salvar vidas.

Mas uma investigação inédita da MIT Technology Review revela que mortes como a de Morales são surpreendentemente comuns. Cruzamos dados de quase 4 mil locais onde restos mortais humanos foram encontrados, extraídos de registros reunidos por organizações sem fins lucrativos como No More Deaths e Humane Borders, além de centenas de registros que obtivemos no Texas, com informações sobre quase 600 torres identificadas pela Electronic Frontier Foundation. Consideramos quando as torres foram instaladas e quando se estima que cada pessoa tenha morrido, combinando essas informações com reportagens de campo na fronteira. O resultado é o primeiro mapa abrangente e a primeira análise de mortes ocorridas perto das torres de vigilância da CBP.

Nossa investigação mostra que uma crise humanitária na fronteira se desenrolou diante das próprias câmeras do governo.

[/caption]José Morales Bernal morreu um dia antes de completar 32 anos.
FOTO CEDIDA POR MIREYA MORALES

Encontramos mais de 1.050 pessoas que morreram dentro do alcance de torres de vigilância de fronteira entre 2015 e o início de 2026. Essas mortes não são falhas de algumas poucas torres ou tecnologias. Encontramos mortes dentro do alcance divulgado de quase dois terços de todas as torres analisadas. Nossa análise topográfica, que avaliou em que medida o terreno poderia bloquear a visão de uma torre sobre um determinado local de morte e sobre sua área de vigilância de modo geral, constatou que algumas têm visibilidade de apenas 10% da área de cobertura anunciada. Ainda assim, também constatamos que a maioria das mortes não ocorreu em pontos cegos das torres. Essas mortes tampouco são resultado de sistemas antigos, pois nossa estimativa constatou que mais de 110 pessoas morreram, desde 2021, dentro do alcance de modernas torres autônomas da Anduril, entre os sistemas mais avançados implantados pela CBP.

O quadro geral revela falhas repetidas em uma das funções básicas de segurança do muro virtual, conforme descrita pela CBP em comunicados à imprensa: identificar e localizar de maneira eficaz migrantes que entram ilegalmente nos Estados Unidos.

No ano em que Morales morreu, outras 18 pessoas morreram naquele mesmo trecho de deserto, dentro do alcance das três torres da Anduril. Cinco estavam visíveis a partir da mesma torre de vigilância mais próxima do local onde seu corpo foi encontrado.

Um homem, depois de caminhar cerca de 1,6 quilômetro além da fronteira e dentro do alcance de duas torres de IA, arrastou o irmão de 30 anos para a sombra quando ele começou a ter dificuldade para respirar, segundo registros que obtivemos do médico-legista. Os dois só foram avistados pela Patrulha de Fronteira quando o homem fez sinais para um helicóptero pedindo ajuda. Quando os agentes chegaram, seu irmão já estava morto. Uma mulher de 24 anos morreu perto de outra torre da Anduril, em um local que, segundo nossa análise do terreno, deveria estar claramente visível para ela. Seu corpo permaneceu sem ser notado durante semanas. Estava em decomposição e coberto de bolhas causadas pelo calor do verão quando foi encontrado por agentes que patrulhavam a região.

Alguns quilômetros a oeste, a uma curta distância de carro de uma estação da Patrulha de Fronteira, outras quatro torres de IA faziam vigilância. Perto delas, outros dez corpos foram encontrados naquele ano, todos em locais onde pelo menos uma torre tinha visão desobstruída.

Em resposta a uma lista de perguntas, um porta-voz da Anduril afirmou que, depois que uma torre é entregue, passa a ser operada pela CBP, e direcionou perguntas sobre incidentes específicos à agência. A resposta observou que o fato de um incidente ocorrer nas proximidades não significa que a torre tenha deixado de fazer uma detecção e afirmou que os alcances reais de vigilância variam conforme o terreno, as obstruções físicas e os limites definidos pela CBP para determinar para onde a torre deve olhar (a CBP pode estabelecer limites virtuais para o campo de visão das torres por motivos de privacidade e outras razões). O porta-voz da Anduril também alegou que havia imprecisões em nossa reportagem, devido a esses limites e obstruções, mas não respondeu às perguntas posteriores sobre quais informações estariam incorretas.

A questão mais urgente em qualquer morte ocorrida perto do muro virtual é saber se as autoridades sabiam que alguém estava ali e não conseguiram alcançá-lo, ou se sequer sabiam que alguém estava atravessando a fronteira. Qualquer uma das duas situações representa uma falha do sistema. E as mortes que encontramos registram apenas as falhas que deixaram vestígios. Não sabemos quantas pessoas passam sem ser detectadas nem quantos corpos continuam sem ser encontrados.

Entrevistas com mais de 45 pessoas, entre atuais e ex-assessores da Casa Branca e nomeados presidenciais, agentes da Patrulha de Fronteira, médicos-legistas, xerifes, voluntários humanitários e funcionários de empresas de tecnologia, mostraram que os dois tipos de falha estão ocorrendo. A tecnologia deixa de detectar e os agentes deixam de responder. Ambos revelam os limites de simplesmente lançar tecnologia sobre um problema complexo.

As descobertas revelam problemas até então não noticiados no muro virtual, mesmo enquanto ele continua recebendo amplo apoio político e um forte aumento nos gastos federais. Defensores de uma política mais rígida de segurança de fronteira há muito veem o sistema como mais uma ferramenta para impedir que contrabandistas transportem drogas ou pessoas, enquanto outros o apresentam como uma alternativa mais barata a um muro físico. Em 2023, o governo estimou que seus planos para o uso das torres, que agora somam 803, custariam US$ 6,2 bilhões ao longo de sua vida útil. Com os níveis históricos de financiamento recebidos em 2025, a CBP planeja gastar US$ 1 bilhão em mais 1.497 torres até 2034.

Mas nossa reportagem mostra que a CBP fez pouco para avaliar como suas torres estão funcionando ou quantas pessoas morreram nas áreas que elas vigiam.

Autoridades que supervisionaram a segurança de fronteira ao longo das quatro últimas administrações presidenciais nos disseram que acreditavam que mortes próximas ao chamado muro virtual eram extremamente raras ou inexistentes. Nossa reportagem mostra que esse não é o caso. Nenhuma delas conseguiu apontar qualquer análise comparável que o próprio governo tivesse realizado. Ex-agentes e ex-autoridades também nos disseram que, quando o corpo de alguém é encontrado, a CBP não investiga formalmente se a vigilância deveria ter detectado essa pessoa ou, caso ela tenha sido detectada, por que os agentes não conseguiram alcançá-la antes de sua morte.

Em resposta a quase 30 perguntas sobre nossas descobertas, que abrangiam várias gerações de tecnologia, Hilton Beckham, comissário assistente de relações públicas da CBP, afirmou: “As torres de vigilância autônomas usam Inteligência Artificial para detectar e classificar pessoas, veículos e animais e alertar agentes da Patrulha de Fronteira sobre atividades em áreas monitoradas […] As ASTs complementam barreiras físicas e outras infraestruturas de segurança de fronteira ao melhorar a detecção e a consciência situacional entre os pontos oficiais de entrada. A CBP avalia a tecnologia com base em seu impacto sobre detecção, coordenação da resposta, segurança dos agentes e resultados da missão.”

“Tenho certeza de que as câmeras e outros recursos de vigilância fornecem […] informações úteis e aumentam a eficácia operacional em alguns lugares, sob determinadas condições e em certas circunstâncias”, afirma Geoff Boyce, professor assistente de geografia da University College Dublin que estudou tecnologias de vigilância usadas na fronteira sul dos Estados Unidos. “Também tenho absoluta certeza, porque esse tem sido o histórico, de que elas não estão proporcionando o nível de apoio operacional, informação ou eficácia que as empresas responsáveis por essas infraestruturas ou a Patrulha de Fronteira e o Departamento de Segurança Interna afirmam.”

Também procuramos diversos parlamentares dos dois partidos e apresentamos um resumo de nossas conclusões. Delia Ramirez, democrata que representa o 3º distrito de Illinois e integra o Comitê de Segurança Interna da Câmara, respondeu: “As tecnologias de vigilância equipadas com IA não estão nos deixando mais seguros. Ainda assim, o DHS continua gastando milhões de dólares dos contribuintes nessas tecnologias ineficazes e negligentes, sem qualquer compromisso com fiscalização ou transparência […] Está claro que precisamos encerrar o programa de torres de vigilância integradas da CBP e desmontar o DHS.”

Construindo o muro virtual

Desde os primeiros esforços para fiscalizar a fronteira com o México, o governo dos Estados Unidos enfrenta o mesmo desafio básico: como proteger de maneira eficaz quase 3.200 quilômetros de terreno remoto e acidentado? Cada vez mais, ele tem recorrido à tecnologia em busca de respostas.

Gerardo Galvan entrou para a Patrulha de Fronteira em 1995, quando o governo realizava uma expansão sem precedentes da fiscalização da fronteira. Em 1993, primeiro ano do presidente Clinton no cargo, a agência mobilizou um grande número de agentes para proteger as fronteiras urbanas do país, começando por El Paso, no Texas. Isso empurrou mais travessias para áreas rurais e desabitadas, que rapidamente se mostraram muito mais mortais devido ao terreno desértico acidentado, às temperaturas extremas, à escassez de água e às rotas longas e indiretas frequentemente usadas por contrabandistas.

Impedir essas travessias remotas representava um novo desafio de fiscalização para a agência, sobretudo diante da tecnologia limitada disponível na época. “Tínhamos rádios”, diz Galvan, que mais tarde se tornaria chefe de operações do setor de El Paso, e não os celulares ou sistemas de GPS usados pelos agentes atualmente. Eles dependiam de sensores subterrâneos remanescentes da Guerra do Vietnã para alertá-los sobre movimentações.

A maior implementação de tecnologia do início da carreira de Galvan começou por volta de 1998. Foi quando a Patrulha de Fronteira começou a instalar suas primeiras câmeras de vídeo que os agentes podiam movimentar e aproximar remotamente. Elas eram montadas em estruturas metálicas semelhantes a torres de telefonia celular, com 18 a 24 metros de altura, ou em edifícios de áreas urbanas.

“Pela primeira vez, alguém sentado em uma sala em algum lugar conseguia vigiar grandes extensões de território sem depender de enviar um agente até lá com binóculos”, diz Matthew Hudak, ex-subchefe da Patrulha de Fronteira que trabalhava como agente de linha de frente na época. “Foi uma mudança extremamente significativa e, em grande parte, um avanço enorme, enorme.”

Essa primeira versão do muro virtual foi significativa. Nos primeiros oito anos, 200 torres foram instaladas ao longo da fronteira sul, a um custo superior a US$ 429 milhões. Mas as falhas do sistema eram evidentes para qualquer pessoa que o utilizasse.

“Podia haver […] 30 telas em uma parede”, diz Mark Borkowski, que administrava contratos da CBP, incluindo o programa de torres de vigilância. Cada câmera podia ser capaz de enxergar de cinco a oito quilômetros em qualquer direção. Esperava-se que o agente mantivesse os olhos em todo aquele espaço, mais de 2.200 quilômetros quadrados.

Monitores na cabine de um veículo da Patrulha de Fronteira mostram uma parte da fronteira entre Estados Unidos e México em Sunland Park, Novo México, na quinta-feira, 6 de junho de 2019.
CEDAR ATTANASIO/AP PHOTO

“Bem, quais são as chances de, depois de 20 minutos, esses agentes da Patrulha de Fronteira perceberem uma explosão em uma dessas telas?”, pergunta Borkowski. “Praticamente zero.”

Quando essas câmeras começaram a ser instaladas, o plano era eventualmente conectá-las a um sistema que as direcionaria automaticamente para locais onde os sensores detectassem atividade, permitindo que os agentes soubessem onde olhar. Mas, em 2005, o inspetor-geral do DHS afirmou que isso ainda não havia se concretizado e que atividades ilegais poderiam “passar despercebidas” a menos que os agentes estivessem observando ativamente as câmeras. Mesmo assim, mais torres foram instaladas, formando o que hoje é conhecido como Remote Video Surveillance System (RVSS), Sistema Remoto de Vigilância por Vídeo. Em 2013, a gigante de defesa General Dynamics venceu um contrato de até US$ 103 milhões para reformular e expandir o RVSS ao longo da fronteira, tornando-se a principal contratada do sistema que continua em operação atualmente. O teto desse contrato acabou aumentando para US$ 216 milhões, e a empresa recebeu outra contratação, em 2023, de até US$ 135 milhões.

A General Dynamics instalaria mais câmeras, sensores melhores e torres adicionais. Mas o problema identificado quase 15 anos antes continuava sem solução. Era uma sobrecarga de informações. Um agente contou à MIT Technology Review sobre um incidente em San Diego no qual câmeras registraram um grupo de 30 pessoas cruzando a fronteira e entrando em uma van, tudo sem que o agente encarregado de monitorar essas câmeras percebesse. Agentes disseram que o muro virtual estava colocando diante de seus olhos uma porção maior da fronteira do que eles eram capazes de acompanhar ou à qual conseguiam responder.

A sala das câmeras também era o trabalho que ninguém queria fazer. Novos agentes da Patrulha de Fronteira, muitas vezes na faixa dos 20 anos, querem estar do lado de fora, em caminhonetes e quadriciclos, e não sentados em uma sala escura olhando para telas, embora a expansão do muro virtual exigisse cada vez mais que alguém fizesse exatamente isso. “Alguém que esteja machucado e não possa ir a campo, nós o mandamos para a sala das câmeras”, diz Rafael Reyes, que comandou a estação da Patrulha de Fronteira em Deming, Novo México, até 2024.

Reyes afirma que esse também era um trabalho que seus agentes frequentemente estavam ocupados demais para desempenhar adequadamente. A área de sua estação tinha cerca de 30 câmeras, e os agentes responsáveis por elas também precisavam monitorar alertas de sensores e comunicações por rádio, fazer consultas de registros e coordenar outros agentes. “Aí, se tiverem algum tempo, monitoram as câmeras”, diz.

Além disso, muitas câmeras não funcionavam. Na estação de Reyes, no Novo México, cinco das 30 câmeras estavam quebradas em um dia qualquer, segundo ele. Outras tinham funcionalidade limitada. Podiam ser capazes de olhar apenas em uma direção ou funcionar somente durante o dia. Jaime Fierro, ex-agente que trabalhou no setor de Laredo, no Texas, até 2025, afirmou que as torres quebradas estavam derrubando o moral dos agentes e que o assunto era levantado em todas as reuniões de equipe. “Para nós, era basicamente como ter um olho fechado na fronteira”, diz.

CENGIZ YAR PARA A MITTR

Eles não eram os únicos a perceber o problema. Em 2024, membros do Comitê de Segurança Interna da Câmara escreveram que mais de 66% das torres de primeira geração da Patrulha de Fronteira estavam inutilizáveis, apesar de orçamentos operacionais anuais de US$ 50 milhões a US$ 100 milhões. Em janeiro de 2026, 30% continuavam quebradas, segundo um funcionário do Congresso ouvido pela MIT Technology Review. Em 2020, estimava-se que o programa RVSS teria um custo total de US$ 3,7 bilhões.

Mesmo assim, a Patrulha de Fronteira atribuiu publicamente a essas câmeras a ajuda no salvamento de vidas. Desde pelo menos 2016, a agência publicou dezenas de comunicados à imprensa sobre casos em que agentes responderam a pessoas em perigo vistas pelas câmeras de vídeo remotas. Apesar dessas vitórias divulgadas publicamente, corpos começaram a se acumular, sem serem detectados, sob o olhar atento desses sistemas.

Perto de El Cenizo, no Texas, há uma extensão de aproximadamente 34 quilômetros quadrados de arbustos de mesquite e gramíneas que o gabinete do xerife do condado de Webb descreve como abrangendo trechos do Hachar Ranch e do Espejo Ranch. A área é cercada por sete sistemas RVSS. Ainda assim, tornou-se um foco de mortes. A MIT Technology Review constatou que 19 pessoas morreram ali, entre elas um homem que morreu a menos de 150 metros da estrada que margeia os ranchos e a cerca de 800 metros de duas escolas. Em cada um desses casos, os relatos que obtivemos por meio de pedidos de acesso a registros públicos descrevem agentes tomando conhecimento dessas pessoas somente após a descoberta dos corpos ou por meio de ligações para o 911 informando seu desaparecimento, e não em consequência da tecnologia de vigilância de fronteira instalada em todo o Hachar Ranch.

Em resposta a uma lista de perguntas sobre suas torres e esses incidentes específicos, a General Dynamics nos encaminhou à CBP. A CBP não respondeu a nenhuma de nossas perguntas sobre as torres RVSS.

Muitas mortes próximas às torres RVSS ocorreram no Texas, nos corredores fortemente vigiados entre o Rio Grande e as rodovias próximas, onde contrabandistas pagos costumam organizar o transporte das pessoas depois da travessia. Câmeras vigiam muitos dos locais conhecidos de travessia e frequentemente apontam para o outro lado do rio, no México, para avistar as pessoas antes mesmo que cheguem à água. Afogamentos são comuns. Encontramos vários casos em que pescadores locais fisgaram os corpos de pessoas que haviam morrido tentando atravessar.

Em um desses casos, uma família de três brasileiros tentou atravessar o Rio Grande perto de Del Rio, Texas, em 2022. O pai, Daniel Lenda, carregava no ombro sua filha de dois anos, Eloah, quando caiu na água. A mãe, Thais Natali Montenegro Lenda, de 23 anos, ergueu Eloah para fora da água enquanto via o marido desaparecer.

Ela colocou a menina, já sem responder, sobre uma pedra e foi buscar ajuda. Estava a apenas 30 metros de um sistema de câmeras e a cerca de 500 metros de outros dois, instalados justamente para permitir detenções mais rápidas em um ponto popular de travessia. Nossa análise topográfica mostra que as três câmeras tinham visão desobstruída do local onde a família atravessou e saiu da água. Ainda assim, Thais Natali não foi avistada até fazer sinais para um agente na ponte Del Rio-Acuña. O agente realizou reanimação cardiopulmonar na criança, que não sobreviveu. O corpo de Daniel foi encontrado dias depois.

O xerife do condado de Val Verde, Joe Frank Martínez, atendeu ao caso. Embora a Patrulha de Fronteira possa encontrar corpos, cabe às forças policiais locais investigar as mortes. Martínez cresceu na região com seus nove irmãos e é xerife desde 2009. Durante um trajeto com a MIT Technology Review por Del Rio em sua viatura, ele enumerou as mortes às quais seu departamento respondeu desde que assumiu o cargo.

Ele mantém em seu escritório um fichário de cerca de oito centímetros de espessura com esses casos. Mas o caso da criança ainda permanece especialmente vivo em sua memória. Martínez contou à MIT Technology Review que, quando chegou ao local, ouviu da Patrulha de Fronteira que o operador responsável por monitorar a câmera da torre havia visto o pai e a filha caírem no rio. Ele nunca recebeu uma resposta sobre por que os agentes não foram enviados antes. Martínez solicitou as gravações das câmeras de vigilância para auxiliar sua investigação sobre o que havia acontecido. A Patrulha de Fronteira nunca as forneceu. A General Dynamics não respondeu às nossas perguntas sobre esse incidente e, em vez disso, nos encaminhou à CBP. A agência também não respondeu às perguntas sobre o caso.

Um fichário de casos no gabinete do xerife do condado de Val Verde contém detalhes sobre a morte de Eloah Lenda, de dois anos.
JAMES O’DONNELL/MITTR

Determinar quantas pessoas morreram dentro do alcance do muro virtual é difícil, sobretudo no caso das torres RVSS. Existem diferentes modelos, alguns com alcance visual menor, de 1,6 a 4,8 quilômetros, e outros com alcance maior, de até 12 quilômetros. Ex-agentes e ex-autoridades nos disseram que a maioria das torres deveria enxergar pelo menos oito quilômetros, mas, como não existem registros públicos que confirmem o modelo de cada torre, usamos várias distâncias possíveis de visualização para calcular o número de mortes consideradas dentro do alcance.

Outra complicação é que muitos restos mortais nunca são encontrados. Entre aqueles que são, a MIT Technology Review só conseguiu analisar mortes registradas com coordenadas de GPS ou descrições suficientemente precisas do local. Muitos registros não têm esse nível de detalhe, inclusive quase um quinto dos mais de 1.500 casos que obtivemos em 14 condados do Texas. Também precisávamos determinar quando uma pessoa havia morrido, e não apenas quando seus restos mortais foram encontrados, para confirmar que havia uma torre no local no momento da morte. Quando fontes oficiais não forneciam uma estimativa, consultamos vários médicos-legistas para saber como fazer essa determinação a partir dos detalhes disponíveis. Além disso, imagens de satélite fornecem apenas indícios esporádicos sobre quando as torres foram erguidas, e não uma comprovação exata de quando começaram a funcionar. Por esses motivos, detalhados em nossa metodologia, procuramos ser conservadores em nossa análise.

Mesmo assim, o número estimado de mortes ocorridas perto de pelo menos uma dessas torres é assustador: entre 500 e 700, desde 2015. Mesmo considerando apenas torres em áreas rurais, onde é muito menos provável que edifícios obstruam a visão, ainda estimamos que mais de 300 pessoas tenham morrido em locais onde as câmeras tinham linha de visão, a maioria a menos de cinco quilômetros de uma torre. Das quase 300 torres RVSS incluídas em nossa análise, mais de 250 estavam dentro do alcance de um local onde alguém morreu. Mais de 150 pessoas morreram a menos de 800 metros de uma delas, muitas vezes em planícies abertas e vazias, perto o suficiente para enxergar as próprias câmeras instaladas no alto de torres que chegam a 60 metros de altura.

Os próximos observadores

Quando Borkowski supervisionava a implementação das torres de primeira geração na CBP, ficou cada vez mais convencido de que simplesmente instalar mais câmeras de vídeo remotas não resultaria em respostas mais rápidas. A sobrecarga de informações significava que o governo podia observar uma grande área da fronteira, mas não conseguia de fato enxergar, muito menos agir sobre, tudo o que acontecia dentro dela. O foco da agência passou então a ser resolver esse problema de excesso de informações.

E se, em vez de depender de alguém examinando 30 telas, as torres pudessem usar radar para detectar movimento e, em seguida, apontar a câmera automaticamente naquela direção?

Gary Wagner, da Elbit Systems of America, limpa a lente de um sistema de imagem térmica de longo alcance durante uma feira de segurança de fronteira em 2014.
MATT YORK/AP PHOTO

Em 2011, a Patrulha de Fronteira pediu à indústria uma nova geração de tecnologia capaz de fazer exatamente isso, concentrando-se inicialmente no Arizona, onde a fronteira apresentava maior movimento. O contrato acabou sendo concedido à empresa israelense de defesa Elbit, cujos sistemas de torres vigiam as fronteiras de Israel. Em 2015, a empresa começou a instalar versões desses sistemas, chamadas de integrated fixed towers, ou IFTs, torres fixas integradas, cada uma com alcance superior a oito quilômetros.

As IFTs ainda estavam sendo instaladas quando o presidente Trump assumiu pela primeira vez, em 2017. Elas não atraíam a mesma atenção que a promessa de campanha de Trump de construir um muro físico, mas ainda assim contavam com apoio. Ronald Vitiello, então vice-comissário da CBP no governo Trump, disse ao Congresso em 2018 que as torres IFT detectavam automaticamente pessoas usando radar e depois as rastreavam, acrescentando que esse tipo de tecnologia de vigilância era “fundamental para proteger áreas de fronteira onde o tempo até o desaparecimento é curto, onde pessoas que cruzam ilegalmente podem rapidamente escapar das forças de segurança, ‘desaparecendo’ dentro das comunidades fronteiriças”.

Foram construídas 55 IFTs no Arizona, no âmbito de um contrato inicial de US$ 145 milhões com a Elbit e de outros contratos posteriores. Em conjunto, as torres vigiam mais de 18 mil quilômetros quadrados de terreno, desde as regiões montanhosas fora de Nogales até as planícies da reserva da Nação Tohono O’odham. Em muitos aspectos, o Arizona é adequado a essas torres altas porque grande parte de sua paisagem é mais plana do que, por exemplo, o sul da Califórnia.

[/caption] Uma torre fixa integrada (IFT) em Coronado Peak, no condado de Cochise, Arizona.
CREATIVE COMMONS

Mas, mesmo ali, estar dentro do alcance anunciado de uma torre não significa necessariamente estar dentro de seu campo de visão. O terreno, a vegetação ou edifícios podem bloquear a linha de visão.

A MIT Technology Review realizou uma análise topográfica para estimar se cada torre tinha visão desobstruída ou obstruída do local onde os restos mortais de alguém foram encontrados. Estimamos a altura de cada torre e usamos mapas de elevação dos Estados Unidos para modelar o terreno entre ela e os restos mortais. A análise não leva em conta edifícios ou vegetação, embora todas as torres analisadas utilizem algum tipo de imagem térmica projetada para enxergar através de vegetação leve.

A maioria dos casos em que alguém morreu dentro do alcance de uma torre ocorreu em locais onde estimamos que a visão das câmeras não era bloqueada pelo terreno, conclusão que se manteve tanto em áreas rurais quanto urbanas. E mesmo quando alguém morreu em um ponto cego, isso não significa que não tenha passado pela linha de visão de uma torre. Além disso, a existência de tantos pontos cegos indica problemas na cobertura supostamente abrangente dessas torres.

Constatamos que quase 350 pessoas morreram dentro do alcance das torres da Elbit desde 2015. Quarenta pessoas morreram dentro do alcance de quatro ou mais IFTs, algumas delas próximas a até seis torres diferentes. Em maio de 2024, um homem de 19 anos morreu em um local onde três IFTs tinham visão desobstruída e, um ano depois, em maio de 2025, uma mulher de 38 anos morreu em um local onde duas IFTs tinham uma visão igualmente clara. A Elbit não respondeu a uma lista detalhada de perguntas sobre suas torres ou sobre as mortes que identificamos nas proximidades delas.

Houve uma morte dentro do alcance de 52 das 53 IFTs que analisamos, mas algumas se destacaram particularmente. Há uma torre localizada a algumas horas de Tucson, na reserva de Tohono O’odham, que estimamos ter visibilidade de mais de 80% da área ao redor. Ainda assim, 27 pessoas, com idades entre 19 e 64 anos, morreram em sua área de vigilância apenas desde 2021, além de várias outras cujos restos mortais ainda não foram identificados. Em 25 desses casos, estimamos que a torre tinha linha de visão desobstruída para o local onde a pessoa morreu.

A era da autonomia

Por volta de 2018, autoridades da Patrulha de Fronteira voltaram a discutir as limitações das torres. Os novos sistemas de radar eram melhores, mas só conseguiam detectar movimento, não identificar o que estava se movendo. Isso gerava alertas falsos causados por gado, plantas rolantes e outras atividades inofensivas. O sonho já antigo do muro virtual continuava sem se concretizar. Sob pressão do Congresso, que exigia saber o que US$ 33 bilhões em financiamento proposto para segurança de fronteira ao longo da década seguinte iriam produzir, a Patrulha de Fronteira voltou a esperar que uma nova geração de tecnologia pudesse resolver seus problemas.

Naquele ano, o chefe da CBP, Kevin McAleenan, criou uma unidade chamada Innovation Team. “Ele deu a eles algum capital inicial para buscar tecnologias inovadoras no estilo do Vale do Silício e realizar projetos-piloto”, diz Borkowski.

Uma das empresas escolhidas foi a Anduril, startup de tecnologia de defesa fundada por Palmer Luckey, criador da Oculus VR. A empresa ainda não tinha um produto, mas contava com financiamento de Peter Thiel, profissionais recrutados da gigante de tecnologia de segurança Palantir e o objetivo de levar a experimentação do Vale do Silício para a tecnologia de defesa e segurança nacional.

Uma torre de vigilância autônoma ao longo da fronteira entre Estados Unidos e México. Com bilhões em novos recursos, a CBP planeja instalar milhares de outras torres de vigilância nos próximos anos.
CENGIZ YAR PARA A MITTR

Com recursos do programa Small Business Innovation Research, o produto da Anduril começou a tomar forma: uma estrutura de cerca de dez metros de altura, alimentada por energia solar, com câmeras para enxergar e radar para detectar movimentos, tudo instalado no topo de um poste metálico modular, com painéis solares dispostos abaixo.

Mais importante era o componente invisível, um sistema de visão computacional que prometia classificar, rastrear e gerar alertas automaticamente sobre aquilo que entrasse em seu campo de visão. A torre padrão da Anduril não enxergava tão longe quanto os modelos da Elbit e da General Dynamics, cerca de 2,8 quilômetros em vez de mais de oito, mas, segundo a empresa, isso não era necessário. Ao identificar e rastrear pessoas automaticamente, as torres poderiam dar aos agentes tempo suficiente para responder. Já suas torres mais recentes, de alcance ampliado, têm cerca de 24 metros de altura e são anunciadas como capazes de detectar e rastrear “objetos de interesse” a uma distância de até 12 quilômetros.

Quando o presidente Trump deixou o cargo em 2021, a Anduril continuou encontrando apoio em seu sucessor. Joe Biden havia feito campanha prometendo interromper o projeto de expansão do muro físico, mas via razões políticas para manter os investimentos em tecnologia de torres sobre a mesa. “É menos visível, não chama atenção”, lembra um ex-assessor de Biden para imigração, acrescentando que, apesar de algumas preocupações com privacidade, as torres eram, em sua maioria, pouco controversas.

Quando a Patrulha de Fronteira implantou torres da Anduril na estação de Santa Teresa, no Novo México, em 2021, um comunicado à imprensa afirmou: “Devido à sua precisão na detecção, em muitos casos esse tipo de tecnologia pode e irá salvar vidas de migrantes.” Em um pedido de autorização apresentado em 2024 para torres na Califórnia, o governo foi ainda mais explícito: “Se qualquer pessoa dentro do campo de visão das torres aparentar estar em perigo, técnicos de emergência médica ou equipes de primeiros socorros serão enviados para ajudar.”

[/caption] CBP IMAGES

A Anduril fez afirmações semelhantes. O software incorporado às torres de vigilância, escreveu a empresa em um comunicado à imprensa de 2021, tira os agentes “dos centros de operações de comunicação e os coloca em campo, onde podem executar respostas de segurança e humanitárias”.

Não era a primeira vez que a CBP falava sobre o lado humanitário de suas atribuições. Em 1998, a agência criou a BORSTAR, uma unidade de busca e salvamento, e, até agosto de 2023, havia instalado cerca de 170 balizas de resgate ao longo da fronteira que pessoas tentando atravessar poderiam, em tese, usar para pedir ajuda. Mas elas não eram eficazes, diz Mario Agundez, supervisor aposentado da Patrulha de Fronteira no Arizona que trabalhou em diversas iniciativas de resgate. As pessoas as evitam ou “morrem ao lado delas, porque não havia como [a Patrulha de Fronteira] chegar até elas a tempo”. Elas tampouco funcionam sempre. Uma delas, pela qual a MIT Technology Review passou recentemente em uma noite de agosto, ao lado de uma estrada de terra na região selvagem de Otay Mountain, no sul da Califórnia, estava com sua chamativa luz azul alimentada por energia solar, que deveria ser visível a quilômetros por pessoas em perigo, apagada. Um porta-voz da CBP não comentou por que a luz estava desligada, mas afirmou: “As balizas movidas a energia solar são mantidas e monitoradas pela estação da Patrulha de Fronteira responsável pelo patrulhamento daquela área.”

A Anduril atravessou a fase de testes em apenas dois anos, antes que suas torres Sentry, à época as únicas torres de vigilância autônomas usadas pela CBP, se tornassem oficialmente um programa permanente do governo em 2020. Isso é como a velocidade da luz no mundo das compras governamentais, sobretudo porque se tratava do primeiro produto de hardware da Anduril. Até junho de 2021, a CBP já havia gasto mais de US$ 98 milhões. O contrato da Anduril para essas torres vale hoje até US$ 1,1 bilhão.

Gerardo Galvan comandava a estação da Patrulha de Fronteira de Santa Teresa, responsável por patrulhar a área do Novo México onde mais tarde o corpo de Morales seria encontrado, quando ela recebeu seu primeiro lote de torres de vigilância da Anduril, em 2021. Seus agentes estavam exaustos. O setor de El Paso, onde fica a estação, registrava aumento no número de encontros a cada mês desde abril de 2020. Galvan diz que os agentes ficaram surpresos, mas ansiosos para receber as torres de IA, e ele começou a planejar onde instalá-las. Os locais que considerava ficavam em pontos onde um tipo de paisagem cedia abruptamente lugar a outro.

A leste da estação está Cristo Rey, uma montanha que bloqueia a visão da cidade de El Paso. Partindo de Cristo Rey em direção ao norte fica a divisa estadual com o Texas, onde as margens do Rio Grande são ladeadas, dos dois lados, por pomares de nogueiras-pecã. A oeste desses pomares estão as cidades de Sunland Park e Santa Teresa. As últimas casas desses bairros encostam diretamente no deserto, que se estende para oeste por quase 160 quilômetros sem um único posto de combustível.

É nesse trecho, entre a fronteira Estados Unidos-México ao sul e a Highway 9 ao norte, que os agentes de sua estação buscavam deter migrantes. E, quando Galvan estava planejando a localização das torres, havia muitas travessias. Santa Teresa estava se tornando a estação mais movimentada do setor de El Paso, que tem cerca de 325 mil quilômetros quadrados, à medida que o aumento da fiscalização no Texas empurrava as pessoas para oeste. Ao longo dessa nova rota, mais pessoas estavam morrendo do que nos anos anteriores. Vestígios daquele período continuam visíveis anos depois. A MIT Technology Review visitou a região com o grupo humanitário Battalion Search and Rescue e encontrou mandíbulas embranquecidas pelo sol ao lado de mochilas e roupas esgarçadas.

O objetivo de Galvan era usar as novas torres como solução temporária nos locais onde havia pouca outra infraestrutura de fronteira. Isso incluía uma área perto do sopé do Monte Cristo Rey, onde havia uma abertura na cerca da fronteira e onde pessoas tentavam cruzar com frequência. Galvan analisou dados de detenções anteriores com o objetivo de ajudar os agentes a identificar pessoas antes que elas chegassem a áreas mais residenciais. A Patrulha de Fronteira fechou acordos com proprietários privados, que em geral não se importavam em ter as discretas torres da Anduril em suas terras e recebiam compensação por meio de contratos de arrendamento.

Quando as torres foram instaladas inicialmente perto da estação de Santa Teresa, em 2021, engenheiros da Anduril foram até o local para ajustar os algoritmos que deveriam classificar de maneira autônoma se aquilo que havia sido detectado era um veículo ou uma possível pessoa atravessando a fronteira, entre outras coisas. Um ex-engenheiro da Anduril, que falou sob condição de anonimato para discutir seu antigo empregador, afirma que esses algoritmos eram o principal foco do programa das torres. Como a Anduril não fabricava as câmeras nem os sistemas de radar, os algoritmos representavam sua principal proposta de valor para a Patrulha de Fronteira.

Galvan afirma que as torres sinalizavam pessoas atravessando antes que os agentes as vissem. Mas ele também percebeu problemas desde o início. Agentes podiam deter um grande grupo perto de uma das torres, por exemplo, e verificar as imagens para saber se alguém havia escapado, apenas para descobrir que o incidente sequer havia sido registrado. As torres da Anduril fazem varreduras constantes, permanecendo paradas apenas sobre um objeto de interesse. Nesses casos, segundo Galvan, elas direcionavam a câmera para outro lugar e deixavam de registrar justamente as pessoas que deveriam rastrear automaticamente.

Reyes afirma que os erros dos algoritmos eram pouco frequentes em sua estação, mas problemáticos. Um grupo de pessoas às vezes era classificado como gado, por exemplo, e os agentes não recebiam um alerta. O problema piorava quanto mais longe os grupos estavam da câmera.

A Anduril promoveu a capacidade de sua tecnologia de reduzir falsos positivos, como casos em que animais selvagens são confundidos com pessoas. Mas a empresa disse pouco sobre esses falsos negativos, ou seja, pessoas que os sistemas deixam de detectar.

Jaime Fierro, o ex-agente do setor de Laredo, no Texas, descreve um incidente que o chocou. Agentes perseguiram um carro que acreditavam transportar migrantes que tinham acabado de cruzar a fronteira. O carro deu meia-volta, dirigiu-se até as margens do Rio Grande, a menos de 30 metros de uma torre da Anduril, e caiu diretamente no rio. Vários ocupantes saíram e nadaram até o México enquanto o carro flutuava na água. De volta à estação, Fierro correu para ver o que a câmera havia registrado. Mas ela não havia detectado o incidente. Não havia gravação. “Aquilo foi um problema enorme, enorme”, diz Fierro. Ele se lembra de a Anduril ter ido ao local investigar e de o problema ter sido encaminhado até a direção em Washington. Mas Fierro nunca recebeu uma explicação sobre por que o acidente não havia sido detectado. Um porta-voz da Anduril não respondeu a uma pergunta sobre o incidente, mas afirmou que o alcance das torres sobre as quais perguntamos era limitado por obstruções físicas e pelos limites estabelecidos pela CBP.

Vários agentes estimam que, inicialmente, as torres deixavam passar de 10% a 15% daquilo que, em teoria, deveriam detectar. “Para nós, 10% a 15% em um sistema no qual gastamos milhões e que deveria funcionar era algo alarmante”, diz Fierro.

Philip Sullivan também trabalhou como agente no setor de Laredo. Quando o programa da Anduril começou, diz ele, se voluntariou para participar e chegou a ir a um local de testes da empresa para treinamento. Quando novas torres eram instaladas, trabalhava diretamente com a companhia para melhorar os algoritmos. Ele gostava do trabalho. Mas descreve um problema recorrente que não conseguiram resolver.

Contrabandistas colocavam até uma dúzia de pessoas em uma balsa de borracha, cobriam-nas com uma lona e atravessavam o Rio Grande usando motores submersíveis para impulsioná-la. A lona enganava o algoritmo, que detectava o movimento, mas atribuía aquilo apenas a um “objeto não identificado”. Isso significava que não havia alerta sonoro, justamente o recurso do qual os agentes dependiam porque o sistema da Anduril deveria fazer a vigilância por eles.

Os contrabandistas repetiram a tática dezenas de vezes. Outros cobriam grupos com redes ou cobertores para que permanecessem sem ser detectados enquanto caminhavam por entre a vegetação. Somente depois, ao avistar o grupo mais para o interior e perceber pistas sobre o local da travessia, Sullivan revia as imagens e encontrava as passagens que haviam sido ignoradas. Ele trabalhou com a Anduril, enviando vídeos dessas travessias aos engenheiros para que retreinassem os algoritmos da empresa. Mas a situação ainda não havia melhorado quando ele foi promovido para uma função em nível setorial, em algum momento de 2022, afirma.

“O objetivo de todo o sistema deles”, diz Sullivan, era a ideia de que “as câmeras ficam se movimentando, identificando, rastreando, gravando e sinalizando automaticamente”. Ter câmeras capazes de se movimentar por conta própria fazia maravilhas, afirma. Mas o algoritmo tinha seus limites. “Você olha para a tela e vê a mancha e a balsa atravessando. Bem, você sabe que aquilo são pessoas. Mas fazer uma IA identificar isso é um desafio.”

Quando as torres começaram a ser implantadas na estação de Santa Teresa, em 2021 e 2022, problemas semelhantes criaram um ciclo vicioso, segundo Galvan. Um agente via a torre deixar de detectar algo significativo e passava a desconfiar do algoritmo. Quando chegava a vez desse agente de operar as torres e administrar os alertas, ele podia simplesmente ignorar a IA e usar a câmera manualmente. Isso levava a mais alertas perdidos e a mais desconfiança.

Apesar dessas limitações, a paisagem relativamente plana do setor de El Paso significava que as câmeras do sistema tinham cerca de 80% a 90% de visibilidade, segundo nossa análise topográfica. Era um desempenho melhor do que em áreas mais acidentadas ou montanhosas, como a Otay Mountain Wilderness, a leste de San Diego, onde estimamos que as torres da Anduril conseguiam enxergar apenas de 15% a 25% de sua área prometida de cobertura.

Uma torre de vigilância autônoma ao longo da fronteira sul dos Estados Unidos, em Sunland Park, Novo México.
CENGIZ YAR PARA A MITTR

Foi justamente nessa região selvagem que alguns dos primeiros corpos começaram a aparecer perto das torres da Anduril. Durante uma única semana de agosto de 2021, duas mulheres na faixa dos 20 anos, da mesma cidade no México, morreram a quilômetros de distância uma da outra. Seus corpos foram encontrados perto de três torres diferentes, observadas pela primeira vez em imagens de satélite entre março e julho daquele ano.

Uma delas, Sarahi Hernández Alfonso, de 26 anos, começou sua jornada para atravessar a fronteira dos Estados Unidos em 5 de agosto, e investigadores médicos registraram que ela teria desmaiado no dia seguinte perto da Otay Mountain Wilderness e sido deixada para trás. Passaram-se mais quatro dias até que o governo mexicano informasse seu desaparecimento à Patrulha de Fronteira, em 10 de agosto, fornecendo um conjunto de coordenadas. Os agentes foram até o local e encontraram seu corpo em decomposição. Ela havia morrido a 2,1 quilômetros de duas torres diferentes da Anduril, uma das quais, segundo nossa análise, tinha linha de visão desobstruída.

Apenas um dia antes, Karina López Antonio, de 25 anos, havia sido encontrada morta perto de uma terceira torre da Anduril. Ela havia atravessado na noite anterior com uma prima e um sobrinho. Na manhã seguinte, sentiu-se mal, e o sobrinho saiu à procura de um agente da Patrulha de Fronteira para pedir ajuda. Quando os agentes voltaram, ela estava morta.

Em outubro seguinte, no Novo México, onde as novas torres da Anduril haviam sido implantadas, agentes patrulhavam a região em quadriciclos quando encontraram pegadas. Seguiram-nas até encontrarem o corpo de César Perea Itzincab, de 31 anos. A presença de larvas e o grau de decomposição indicavam que ele havia morrido pelo menos uma semana antes, e os médicos-legistas presentes acreditavam que ele havia se arrastado até o local onde seus restos mortais foram encontrados. Estava a 2,4 quilômetros de uma torre autônoma, dentro do alcance anunciado pela Anduril, e deveria estar visível para a câmera, segundo nossa análise topográfica.

Não temos como saber o que essas câmeras viram enquanto essas pessoas morriam. As imagens e os dados das torres da Anduril são sobrescritos a cada 30 dias, e um ex-funcionário da corregedoria da CBP nos disse que as informações não seriam preservadas por mais tempo, a menos que fizessem parte de uma investigação ativa, que só é aberta quando alguém morre sob custódia. A CBP não respondeu a perguntas sobre incidentes específicos como esse, e o Departamento de Polícia de Sunland Park encerra casos desse tipo quando determina que nenhum crime foi cometido.

A falta de documentação representa uma oportunidade perdida, afirma Amerika Garcia Grewal, codiretora da Frontera Federation, organização que busca ajudar no resgate de migrantes em perigo ou encontrar e identificar seus restos mortais. “As torres de vigilância ao longo da fronteira poderiam ser incrivelmente úteis”, disse ela. Em princípio, por exemplo, poderiam ser usadas para responsabilizar agentes da Patrulha de Fronteira por ações que tenham realizado, ou deixado de realizar, para localizar alguém em perigo. “O que a ferramenta acaba [fazendo] depende da pessoa que a segura”, afirma, acrescentando: “Não confio nas pessoas que as estão usando.”

“Se eu pudesse obter essas imagens”, diz ela, “nós as analisaríamos e, com sorte, conseguiríamos algumas respostas” para os familiares e “provas documentadas do que aconteceu” nos últimos momentos de seus entes queridos.

Quando questionados sobre mortes próximas às torres da Anduril, os agentes frequentemente apontam falhas da tecnologia. Galvan, por exemplo, afirma que as torres não acompanham adequadamente como os grupos se deslocam. Um grupo grande de 20 pessoas pode se dividir em grupos menores, sobretudo se os agentes estiverem perseguindo-o, e a torre não continua acompanhando todos. Se alguém deixa de ser identificado, diz ele, “essa pessoa fica para trás no mato, fora de vista”. Depois, pode desmaiar, o que pode ser uma sentença de morte no deserto.

E embora a Patrulha de Fronteira afirme que as torres conseguem “transferir” o monitoramento de pessoas de uma torre para outra, agentes em campo dizem que as pessoas muitas vezes se perdem durante essas transferências. Além disso, segundo Jason Owens, chefe da Patrulha de Fronteira entre junho de 2023 e março de 2025, os algoritmos continuam imperfeitos. “Nunca chegamos realmente ao ponto de ‘configurar e esquecer’”, diz.

Os agentes também afirmam que simplesmente estavam sobrecarregados demais para responder de maneira eficaz. Por volta de 2022 e 2023, a fronteira registrou níveis historicamente altos de migração. O Título 42, política iniciada no governo Trump e mantida por Biden até maio de 2023, citava uma emergência de saúde pública como justificativa para expulsar migrantes antes que eles pudessem solicitar asilo. Mas as expulsões rápidas traziam menos consequências do que as que normalmente poderiam se seguir a uma detenção, e muitas pessoas simplesmente tentavam cruzar novamente.

Enquanto isso, os pedidos de asilo vinham crescendo havia anos, ao mesmo tempo que mudanças na política migratória dos Estados Unidos e nos países de origem dos migrantes faziam com que mais pessoas precisassem passar por um processamento demorado, em vez de serem rapidamente devolvidas ao outro lado da fronteira ou ao país de origem. Segundo os agentes, isso os mantinha cada vez mais ocupados com pessoas já detidas e deixava menos agentes disponíveis para responder aos alertas de vigilância.

Em outras palavras, da perspectiva dos agentes, a eficácia das torres da Anduril era limitada pelo mesmo problema que sempre causara dificuldades. Simplesmente não havia agentes suficientes.

Palmer Luckey, fundador da Anduril, observa equipamentos na área de testes de sua empresa perto de Camp Pendleton, no sul da Califórnia, em 3 de fevereiro de 2021.
PHILIP CHEUNG/THE NEW YORK TIMES VIA REDUX

Mas a sobrecarga dos agentes não consegue explicar todas as mortes identificadas por nossa investigação. Em 2024, a fronteira começou a ficar tranquila novamente. Em julho daquele ano, o número de encontros da Patrulha de Fronteira em todo o país havia despencado em relação aos picos de dezembro de 2022. No setor de El Paso, onde estavam localizadas as torres da Anduril no Novo México, os encontros haviam caído para quase um décimo do pico. Os agentes estavam menos ocupados do que em anos. Supostamente, a tecnologia também estava melhorando.

Galvan já havia saído para assumir uma promoção nessa época, mas afirma que os agentes passaram a confiar mais nas torres e ajudavam a treinar o algoritmo dando uma avaliação positiva ou negativa quando o sistema identificava algo correta ou incorretamente. Havia também um novo programa para smartphones. Todos os agentes da estação receberam um dispositivo Android com um mapa mostrando onde os demais agentes estavam, e o aparelho enviava alertas da estação sobre aquilo que uma torre da Anduril detectava.

Apesar de tudo isso, as mortes próximas às torres continuaram. Houve Morales, em abril, cujo corpo só chegou ao conhecimento da Patrulha de Fronteira por meio dos funcionários do aterro, embora tivesse permanecido por horas à vista de uma torre da Anduril.

Outros foram encontrados por acaso.

O que existe hoje na fronteira e o que vem a seguir

O muro virtual de hoje inclui mais de 800 torres. Ele está prestes a ficar muito maior.

O projeto de lei de reconciliação orçamentária de 2025 destinou mais de US$ 64 bilhões à Alfândega e Proteção de Fronteiras. Desse total, US$ 1 bilhão financiará 1.497 novas torres e melhorias nas já existentes. Todas elas agora são obrigadas a ter recursos de IA.

A expansão ocorre depois que o DHS encerrou seu principal escritório responsável pela supervisão de grandes aquisições, enquanto o programa das torres está sem um plano essencial de orçamento e desempenho desde 2022.

*A Anduril liderou a categoria de torres autônomas, mas outras empresas, como a General Dynamics, agora também estão competindo.

**Contagem das torres mapeadas pela Electronic Frontier Foundation para as quais conseguimos estabelecer um alcance de vigilância. O número é inferior ao inventário completo do governo, que incluía 803 torres em junho de 2026.

Em 20 de junho, agentes da Patrulha de Fronteira estavam, por engano, rastreando um grupo de pessoas que acreditavam ser migrantes, mas que na verdade eram funcionários do mesmo aterro sanitário. Esses funcionários disseram aos agentes que haviam encontrado um corpo, que se revelou ser os restos parcialmente mumificados de um homem na faixa dos 40 anos que morreu dentro do alcance de duas torres da Anduril.

Três dias depois, em 23 de junho, outro caso. O corpo de um guatemalteco de 21 anos foi encontrado por agentes durante uma patrulha, a 2,1 quilômetros de uma torre, em uma área de deserto aberta e desobstruída. Dois dias depois, mais um. Um agente procurava uma pessoa desaparecida quando encontrou os restos mortais de um homem de 56 anos, a apenas uma distância equivalente ao comprimento de um campo de futebol do corpo anterior, com uma visão igualmente clara e desobstruída para uma torre.

Então, se Santa Teresa havia ficado mais tranquila e se tornado uma espécie de vitrine para os mais recentes esforços tecnológicos da Patrulha de Fronteira, o que estava acontecendo?

“Os agentes analisam as informações e determinam a resposta apropriada. A tecnologia não toma decisões de aplicação da lei”, afirmou Beckham, comissário assistente da CBP. Ao mesmo tempo, agentes descreveram situações em que poderiam não priorizar uma resposta aos alertas.

Às vezes, “manter-se atrás” era uma estratégia. Os agentes podiam observar um grupo para ver qual rota seguiria ou podiam não responder a um grupo pequeno caso suspeitassem que aquelas pessoas haviam sido enviadas por contrabandistas como distração para um grupo maior vindo logo atrás. Em outros casos, podiam considerar que o local onde um grupo de migrantes havia sido avistado inicialmente não era adequado para uma detenção e preferir esperar para interceptá-lo em outro lugar.

Saber a localização de alguém nem sempre levava a uma ação imediata. Voluntários descrevem fornecer à Patrulha de Fronteira as coordenadas de alguém que estava perdido, mas vivo, e depois esperar, “às vezes [por] uma semana”, para que os agentes chegassem ao local, diz Garcia Grewal, de Eagle Pass, Texas. Ela se lembra de ouvir: “Ah, fulano foi até lá e encontrou restos mortais.” “Bem, não eram restos mortais quando ligamos para vocês. A pessoa estava viva.”

Perto da fronteira sul dos Estados Unidos, em Sunland Park, Novo México.
CENGIZ YAR PARA A MITTR

Mireya Morales, irmã mais nova de José Morales Bernal, que morreu perto do aterro um dia antes de seu aniversário, em abril de 2024, não sabia que o irmão havia morrido perto de várias torres de vigilância nem que o governo dizia que essas torres poderiam salvar vidas. “Bem, isso é bom”, disse ela sobre essa promessa, “mas, neste caso, não ajudou meu irmão. E não há como saber exatamente como as coisas aconteceram.”

“A Patrulha de Fronteira deveria tê-lo encontrado rapidamente”, diz ela, “e poderia ter feito alguma coisa.” Se isso tivesse acontecido, essa viagem aos Estados Unidos, sua quarta, provavelmente teria terminado com sua detenção, custódia e deportação para o México. Mas ele teria visto as mensagens de aniversário que a irmã enviou no dia seguinte. Pelo menos teria voltado para casa para comemorar a festa de 15 anos de sua filha mais velha, realizada no início deste ano.

Histórias como essa são o motivo pelo qual Iván Chaar López, professor assistente de estudos americanos da Universidade do Texas em Austin, onde lidera o Border Tech Lab, afirma que “preferiria falar sobre danos” em vez de “sobre a falha de um algoritmo”. Ele acrescenta: “Um sistema pode falhar, mas são os seres humanos que sofrem.”

O que acontece a seguir

Em última análise, qualquer tentativa de entender onde as coisas estão dando errado é prejudicada por uma relutância institucional em medir o problema.

Uma auditoria completa desse muro virtual só pode vir da Patrulha de Fronteira. Em alguns aspectos, a agência está cada vez mais equipada para realizar essa tarefa. Agentes nos disseram que sempre que detêm alguém, o local é registrado com coordenadas de GPS, assim como são registrados os casos em que a Patrulha de Fronteira vê indícios de que alguém cruzou, mas não consegue encontrar a pessoa. A agência também dispõe de dados precisos sobre quando cada torre de vigilância foi instalada, quais alertas foram emitidos e como foram resolvidos. Ter essas informações é a única forma de medir se as torres mais recentes realmente estão deixando menos pessoas passar do que as gerações anteriores.

Mas pesquisadores e órgãos externos de fiscalização afirmam que esse oceano de dados não se converteu em um sistema confiável para medir a eficácia do muro virtual. A CBP, por exemplo, registra as pessoas que não consegue deter por meio de uma contagem de “gotaways”, uma estimativa de quantas vezes os agentes encontram sinais de alguém que escapou da detenção, como pegadas, aparições em câmeras e relatos de outras pessoas que foram detidas. É uma métrica imperfeita. E isso abre espaço para interpretação.

“Os objetivos da fiscalização de fronteira sempre foram um alvo móvel”, afirma Jeremy Slack, pesquisador de migração e questões fronteiriças da Universidade do Texas em El Paso. “Eles são sempre estruturados de modo que o resultado seja positivo de qualquer maneira.” Se as detenções aumentam, por exemplo, a CBP afirma que isso significa que os agentes se tornaram mais eficazes em capturar pessoas. Se diminuem, significa que a fronteira está tranquila porque as pessoas estão com medo demais para atravessar.

Isso sem mencionar as ideias conflitantes dentro da própria agência sobre o que o muro virtual deveria alcançar. Borkowski afirma que seus superiores perguntavam de quantos agentes a menos poderiam precisar se construíssem mais torres. Mas supervisores que recebiam novas torres nos disseram que muitas vezes pediam mais agentes, e não menos, porque agora havia mais atividades às quais responder que antes passavam despercebidas.

E, se o objetivo era fazer com que a própria visão das torres desestimulasse as pessoas a tentar atravessar, um estudo externo da RAND, de 2020, foi inconclusivo. Constatou que a implantação das IFTs resultou em níveis mais baixos de detenções nas proximidades, mas afirmou que isso não significava necessariamente que as torres estivessem desestimulando as travessias. Uma pesquisa de Boyce e seus colegas constatou que torres de vigilância anteriores no sul do Arizona levaram as pessoas a buscar terrenos mais difíceis, fora do campo de visão. Isso leva a uma pergunta: as mortes próximas ao muro virtual constituem falhas de vigilância inaceitáveis ou estão dentro do nível de eficácia que o governo considera aceitável? A resposta da CBP não abordou nossas perguntas sobre como a agência explica essas mortes.

Diante desse cenário, o Government Accountability Office (GAO) e o Escritório do Inspetor-Geral do DHS tentaram se concentrar em uma questão mais restrita: o muro virtual está aumentando a probabilidade de detenções?

A resposta continua incompleta desde 2014. Foi naquele ano que o GAO sugeriu pela primeira vez que, sempre que agentes registrassem suas atividades no banco de dados da Patrulha de Fronteira, deveriam incluir informações sobre se alguma tecnologia havia ajudado ou não na detenção. Isso poderia ao menos oferecer ao Congresso algum indicativo de que a tecnologia estava funcionando. A Patrulha de Fronteira começou a coletar essas informações, mas anos de melhorias graduais foram seguidos por repetidas conclusões de que os dados resultantes não eram confiáveis ou eram insuficientes para determinar o desempenho da tecnologia. A realidade, segundo várias pessoas da Patrulha de Fronteira ouvidas pela MIT Technology Review, é que os agentes veem isso como uma tarefa burocrática exigida por pessoas que não entendem as realidades da fronteira.

É como “cuspir contra o vento, para ser sincero”, disse à MIT Technology Review, em reservado, um ex-alto funcionário do DHS durante o governo Biden. “Se temos 10 mil pessoas por dia atravessando entre os pontos oficiais de entrada, você acha que um agente está preocupado em dizer como diabos deteve essas pessoas?” Várias outras autoridades afirmaram que o registro da contribuição das tecnologias havia melhorado, mas não de maneira consistente o suficiente para ser de grande utilidade analítica.

E não existe procedimento, em nível local ou nacional, para examinar mortes individuais próximas às torres ou analisá-las coletivamente em busca de falhas de vigilância. “Nunca pensamos em mapear [as mortes de migrantes] para ver se as torres estavam deixando coisas passar. ou se os agentes estavam deixando pessoas passar”, afirmou um ex-funcionário da CBP que avaliava como as equipes lidavam com mortes sob custódia.

“Ninguém jamais levantou essa questão”, disse a ex-autoridade, acrescentando que fazer isso poderia revelar lacunas importantes na abordagem da agência. “Se eu ainda trabalhasse para a CBP e você levantasse isso, provavelmente mandaria algumas pessoas investigar.”

Em resposta às perguntas da MIT Technology Review, a CBP afirmou que as torres de vigilância autônomas complementam barreiras físicas ao melhorar a detecção e a consciência situacional. A declaração não respondeu às perguntas sobre suas outras tecnologias nem às críticas mais amplas sobre como a agência avalia o muro virtual.

Border Patrol Surveillance Tower 567, along the southern U.S. border in Sunland Park, New Mexico.
Uma torre de vigilância autônoma ao longo da fronteira sul dos Estados Unidos, em Sunland Park, Novo México.
CENGIZ YAR PARA A MITTR

Essa falta de mensuração não reduziu o entusiasmo por mais financiamento tecnológico. O projeto de gastos do governo aprovado em julho de 2025 destinou US$ 2,7 bilhões somente para tecnologia de segurança de fronteira, e a CBP rapidamente sinalizou à indústria que o dinheiro logo começaria a fluir. “Temos pela frente um investimento histórico em infraestrutura e tecnologia”, disse um diretor da CBP a empresas de tecnologia durante um webinar do setor naquele mês. Em uma entrevista de dezembro de 2025, quando era diretor de segurança interna e imigração do America First Policy Institute, Cooper Smith descreveu os investimentos em tecnologia como uma forma de “fortificar” a fronteira contra um futuro presidente que pudesse ser, segundo sua avaliação, mais fraco na questão da fronteira do que Trump. Segundo a LegiStorm, organização de pesquisa especializada em funcionários políticos, Smith agora ocupa uma função voltada a políticas públicas na CBP. O número de agentes da Patrulha de Fronteira também aumentou, chegando a quase 21.500 em junho de 2026, o maior total da história da agência.

Na região de Big Bend, no Texas, as torres de vigilância estão se tornando tema da política local. Autoridades e moradores de diferentes orientações partidárias, inclusive o xerife do condado de Terrell, estão pedindo torres da Anduril no lugar de um controverso novo projeto de barreira de fronteira que foi recentemente suspenso.

A CBP anunciou a intenção de gastar US$ 1 bilhão em quase 1.500 torres adicionais até 2034. A lei agora exige que todas sejam equipadas com IA. Em dezembro de 2025, Palmer Luckey, da Anduril, afirmou que as torres continuavam sendo o produto mais vendido da empresa, oferecendo uma “consciência situacional basicamente perfeita sobre o que está acontecendo na área”. As torres da Anduril foram vendidas no exterior, para fiscalizar as fronteiras do Reino Unido, proteger bases do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos no Japão e em outros locais e atuar na defesa contra drones em uma base da Força Aérea Australiana.

Mas, no caso da CBP, a Anduril deixará de ser a única no mercado. A General Dynamics já lançou suas próprias torres equipadas com IA e recebeu da CBP, em junho, uma encomenda que pode chegar a US$ 115 milhões. A Electronic Frontier Foundation, que acompanha as torres de vigilância desde 2022, afirma que algumas já foram vistas na fronteira.

Desta vez, a agência gastará esse dinheiro com ainda menos supervisão do que tinha alguns anos atrás. Em outubro de 2025, o Departamento de Segurança Interna, que supervisiona a CBP, dissolveu seu escritório em nível departamental responsável por fiscalizar grandes programas de gastos.

Uma torre de vigilância autônoma ao longo da fronteira sul dos Estados Unidos, em Sunland Park, Novo México.
CENGIZ YAR PARA A MITTR

A maioria dos registros de restos mortais humanos reunidos pela MIT Technology Review estava atualizada apenas até o outono de 2025 ou, em alguns poucos casos, até o início de 2026. Mesmo essas datas vêm com uma ressalva. Muitos restos mortais nunca são encontrados, e outros só são descobertos meses após a morte da pessoa. Os relatórios podem então levar meses para ser divulgados por meio de pedidos de acesso a registros públicos. Isso torna praticamente impossível acompanhar, em algo próximo do tempo real, quantas pessoas morreram perto de torres de vigilância.

Ainda assim, a fronteira hoje está significativamente mais tranquila. Os números mais recentes do DHS mostram apenas 128.009 “encontros de fiscalização” entre janeiro e agosto de 2026, em comparação com mais de 2,4 milhões no mesmo período de 2024. “Encontros” contabilizam cada interação da Patrulha de Fronteira, e não pessoas individuais.

Mesmo com a redução das taxas de travessia da fronteira e com o DHS acelerando seus planos de aquisição de torres, pessoas continuam morrendo dentro do alcance das torres de vigilância.

Em 14 de setembro de 2025, uma mexicana de 30 anos chamada Graciela Gómez Hernández morreu a pouco mais de 320 metros do muro físico que separa o sul da Califórnia de Tijuana e a menos de 1,6 quilômetro de uma torre RVSS. No início daquela tarde, ela havia dito à família que não conseguia mais caminhar, e suas mensagens de voz cessaram abruptamente.

Seus restos esqueletizados foram recuperados quase três semanas depois, em 4 de outubro. Alguns ossos estavam ausentes, e havia “aparente atividade animal […] nas costelas”, segundo o relatório do médico-legista.

Sara Stroud, organizadora do Borderlands Relief Collective, grupo humanitário voluntário que deixa água e suprimentos em uma região selvagem frequentada por pessoas que atravessam a fronteira, foi ao local da morte alguns dias depois para colocar uma cruz em sua memória. Um helicóptero da Patrulha de Fronteira apareceu quase imediatamente e começou a voar em círculos baixos sobre os voluntários.

Entre o helicóptero e a torre RVSS visível ao fundo, “fiquei impressionada com a maneira como estávamos sendo vigiados o tempo todo”, diz Stroud, acrescentando que isso era especialmente marcante em contraste com as respostas frequentemente lentas, ou inexistentes, da agência a pessoas que haviam morrido diante das câmeras.

“Vocês estão me dizendo que não viram ou que viram?”, pergunta. “Porque, se viram, isso é horrível. E, se eles não conseguem ver, então como explicam isso?”

Reportagem adicional de Lillian Perlmutter.

Último vídeo

Nossos tópicos