Lembra como era a estante da sua casa nos anos 1990? Havia livros, discos, CDs, fitas de vídeo, álbuns de fotografias, talvez até uma enciclopédia. Tudo ocupava espaço, juntava poeira e precisava ser carregado em caixas a cada mudança.
Agora, olhe para a sua estante atual. Ela provavelmente está mais vazia. Boa parte do que costumávamos colocar ali continua existindo, mas em outro lugar. Os discos estão no Spotify, os filmes, na Netflix, as fotografias, no Google Fotos, os livros, no Kindle e as fitas de videogame viraram arquivos da nuvem do PlayStation.
Curiosamente, essa estante vazia não é sinal de escassez. Nunca tivemos tanto à nossa disposição. Podemos ouvir milhões de músicas, assistir a milhares de filmes, jogar centenas de jogos e guardar dezenas de milhares de fotografias sem possuir fisicamente nenhuma dessas coisas.
Para a Geração Z (nascidos entre 1997 e 2012), que está chegando aos 30 anos, essa talvez seja simplesmente a maneira natural de consumir. Eles chegaram à vida adulta num mundo em que não é preciso possuir mais nada. Estão vivendo plenamente a cultura do aluguel.
Em 2000, o economista estadunidense Jeremy Rifkin percebeu que algo estava mudando. Ele publicou “A Era do Acesso”, livro no qual descrevia a passagem de uma economia da propriedade para outra baseada no acesso temporário a bens, serviços e experiências. Para Rifkin, assinaturas, aluguéis, licenças e mensalidades criaram relações contínuas entre empresas e consumidores. Em vez da empresa vender uma coisa uma única vez, seria possível cobrar indefinidamente pelo direito de utilizá-la.
No Brasil, a mais recente pesquisa do Opinion Box revelou que 72% dos entrevistados possuem apenas assinaturas digitais. E 87% já reconhecem seguro de casa, de carro e plano de saúde como parte dessa lógica da mensalidade.
O brasileiro mantém, em média, cerca de quatro assinaturas ativas ao mesmo tempo. Trinta por cento dos pesquisados afirmam que já pagam entre R$101 e R$200/mês por serviços de streaming. Entre esses, 35% afirmam que aumentaram seus gastos desde o ano passado.
Nem tudo precisa ter assinatura. O Uber permite comprar mobilidade sem comprar um carro. O Airbnb oferece alguns dias de relaxamento sem que você tenha uma casa na praia. Uma academia fornece exercícios sem que você precise ter os equipamentos.
Em 2016, a deputada dinamarquesa Ida Auken levou ao Fórum Econômico Mundial essa ideia ao limite. Ela pediu que a plateia de sua palestra imaginasse cidades em 2030 onde casa, carro e diversos bens teriam se transformado em serviços. Ninguém mais seria dono de nada. Passaríamos a alugar tudo em massa. Para surpresa da deputada, a plateia optou por abrir mão de seus bens.
Possuir custa dinheiro, exige manutenção e nos prende às coisas. O acesso é mais imediato. Seduz porque é descomplicado. Oferece variedade, mobilidade e um custo inicial menor. No passado, quem tinha cem discos de vinil possuía cem discos. Hoje, quem assina um streaming de música carrega no bolso uma coleção infinita que ninguém poderia colecionar durante toda uma vida. Impossível.
Os primeiros integrantes da Geração Z estão chegando à casa dos 30. Esse é, justamente, o período em que seus pais começaram a pensar em formar patrimônio. Mas os jovens de hoje preferem viagens, restaurantes e experiências em vez de juntar dinheiro para comprar um imóvel em parcelas mensais pelos próximos 20 anos.
Podemos estar presenciando a formação de uma geração capaz de consumir uma quantidade extraordinária de bens, serviços e experiências sem que boa parte desse consumo deixe qualquer valor patrimonial para a velhice deles. Os jovens podem ter uma vida materialmente mais rica do que a de seus pais e, ainda assim, chegar ao futuro tendo acumulado proporcionalmente menos.
A “sociedade do acesso” não acabou com a propriedade. Os apartamentos alugados continuam tendo donos. As casas do Airbnb também. Os carros, servidores, músicas, filmes e softwares pertencem a alguém. Se uma parcela crescente da população passa a pagar pelo uso em vez de acumular ativos, a propriedade não desaparece. Ela pode apenas estar mudando de mãos e se concentrando em outras.
Talvez seja isso que nossas estantes vazias estejam tentando nos dizer. Nossos filhos chegaram à vida adulta com uma estante nas nuvens, infinitamente maior do que qualquer uma que nós poderíamos ter comprado na nossa juventude. Mas o que haverá dentro da casa deles quando chegar a velhice?
Como nasceu esta coluna:
Um dia desses, acordei, fiz o café e pedi à minha Alexa que tocasse uma música. Nada. Silêncio completo. Fui olhar o roteador. Estavam piscando luzes vermelhas no lugar das azuis. Durante todo o dia, descobri que já estava vivendo a “sociedade do acesso” dentro de casa. Não tinha música no Spotify, série na Netflix nem nada para ler no site dos jornais. Sem Internet, peguei meu laptop e fui a uma cafeteria próxima. A falta de acesso nem me deixou fazer o home office daquele dia. Tive que abandonar minha própria casa.


