Quando a administradora de empresas Marília Ramos Ribeiro, em 2018, começou um tratamento de reprodução assistida, congelar óvulos e embriões não fazia parte dos seus planos. “Da minha parte, estava tudo bem. Mas depois de alguns exames, meu marido recebeu o diagnóstico de baixa quantidade e baixa motilidade dos espermatozoides”, conta Marília, que tinha 36 na época. O casal, que já estava junto havia oito anos, iniciou então em um processo que se estenderia por mais oito.
A princípio, a estratégia parecia direta: Marília faria as captações de óvulos enquanto o marido tentaria melhorar a qualidade do sêmen com vitaminas e mudanças no estilo de vida. A tecnologia, porém, não eliminou a imprevisibilidade do processo. “Em uma das primeiras tentativas, 20 óvulos foram fertilizados, só que nenhum chegou a formar um embrião infelizmente”, recorda-se. Nos anos seguintes, Marília precisou passar por novos ciclos de estimulação, coleta e congelamento, enquanto o número de óvulos que conseguia recuperar diminuía com a idade. “Era como estar em uma TPM constante: inchada, ansiosa, cansada. E ainda tendo que trabalhar normalmente”, completa.
Mais percalços surgiram pelo caminho. Marília descobriu que tinha sinusite e o marido, apneia. Ambos passaram por cirurgias e, na sequência, ela também precisou investigar uma alteração no colo do útero, o que acrescentou mais etapas ao tratamento. “Para encurtar a história, no final de 2023, fiz a última coleta. Foram 12 óvulos. Por cautela, meu médico sugeriu tentarmos mais uma, mas recusei. Não aguentava mais. Conseguimos fertilizar oito embriões e, desses, só dois eram viáveis, de acordo com a biópsia”, diz. Em junho de 2024, finalmente, um deles foi transferido para o útero de Marília. A gravidez veio na primeira tentativa, para surpresa do casal, e Beatriz nasceu em março de 2025.
As mulheres estão buscando o congelamento de óvulos mais cedo
Casos como o de Marília, que contou com o apoio de técnicas de congelamento de óvulos e embriões para formar uma família, estão cada vez mais comuns no Brasil. Dados recentes do Sistema Nacional de Produção de Embriões (SisEmbrio), mantido pela Anvisa, mostram que, entre 2020 e 2025, houve um aumento de aproximadamente 136% no congelamento das células reprodutivas femininas e de 66% no de embriões. Esse salto vem acompanhado de uma mudança no perfil das pessoas que buscam esses procedimentos.
“Até uns cinco anos atrás, geralmente as mulheres interessadas em congelar óvulos estavam na faixa dos 35 anos, fase em que já existe uma dificuldade reprodutiva naturalmente. Hoje, essa demanda está começando a surgir aos 30 anos”, afirma o médico e pesquisador Eduardo Motta, professor do Departamento de Ginecologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Cresceu também a busca do serviço por pessoas trans, de acordo com o urologista Daniel Zylbersztejn, especialista em reprodução assistida do Fleury Fertilidade. “Isso porque tanto a terapia hormonal feminizante quanto a masculinizante podem afetar a fertilidade”, explica Zylbersztejn.
Além disso, o especialista afirma que atendeu até mesmo casais sem problemas de fertilidade. “Recentemente, um casal que já tem um filho e está se preparando para mudar de país me procurou para congelar embriões. Como só pretendem ter o próximo bebê daqui alguns anos, não querem correr o risco de não conseguir engravidar, uma vez que a mãe está com 37 anos”, conta Zylbersztejn. Na reprodução assistida, o fenômeno de preservar gametas e embriões sem razões médicas é chamado de “congelamento social”. Nessas situações, como lembra o especialista, o adiamento da maternidade ou paternidade está relacionado a fatores sociais, como estudos, carreira, ausência de parceria ou outros projetos de vida.
Novas tecnologias refinam a preservação e a seleção de óvulos e embriões
Diante deste cenário, a tecnologia se tornou uma aliada cada vez mais importante da reprodução assistida. Hoje, de acordo com a Sociedade Brasileira de Reprodução Humana (SBRH), tanto óvulos quanto embriões são preservados principalmente pela vitrificação, uma técnica de congelamento ultrarrápido que substituiu, na prática, os métodos de congelamento lento. Funciona assim: antes de serem submetidos a temperaturas muito baixas, as células são expostas por um curto período a soluções com crioprotetores, que ajudam a retirar parte da água de seu interior. Em seguida, elas são resfriadas em uma velocidade extremamente alta e armazenadas em nitrogênio líquido, a cerca de −196 °C. A rapidez do processo impede que a água forme cristais de gelo dentro das células, amenizando o risco de danos à sua estrutura.
A evolução das técnicas também ajudou a impulsionar o congelamento de embriões. Segundo o professor Eduardo Motta, da Unifesp, hoje se sabe que, em determinadas situações, pode ser mais vantajoso separar as etapas do tratamento: primeiro, estimular os ovários e formar os embriões; depois, em outro ciclo, transferi-los para o útero. “Como as altas doses de hormônios utilizadas na estimulação ovariana podem afetar temporariamente o ambiente uterino, é mais proveitoso num mês formar o embrião e, no mês seguinte, transferi-lo”, explica. O intervalo ainda pode ser aproveitado para realizar uma biópsia embrionária, tal qual o teste genético pré-implantacional para aneuploidias (PGT-A) — como aconteceu no caso de Marília, do início da reportagem.
Outra tecnologia empregada nos laboratórios de reprodução assistida é o time-lapse, sistema de incubação equipado com câmeras que registra imagens dos embriões ao longo de seu desenvolvimento. Assim, os embriologistas acompanham continuamente características como a velocidade de divisão celular e a morfologia, informações que ajudam na seleção dos embriões que serão transferidos. “Quanto mais rápidas as divisões celulares, por exemplo, melhor a qualidade do embrião, pois isso significa que a dinâmica das células também é superior”, explica Eduardo Motta, da Unifesp.
Paralelamente, a inteligência artificial (IA) também vem sendo incorporada à reprodução assistida como uma ferramenta para ajudar a identificar óvulos e embriões com maior potencial reprodutivo a partir de características que podem escapar à avaliação humana. Um exemplo é o Violet, software de IA da Future Fertility, que analisa imagens de óvulos e gera indicadores associados ao seu potencial de desenvolvimento.
Para a ginecologista e obstetra Inês Katerina Damasceno Cavallo Cruzeiro, presidente da SBRH, os avanços da genética ampliam outra frente da avaliação de óvulos e embriões, por meio do já consagrado PGT-A. O exame que avalia os cromossomos dos embriões antes da transferência para o útero, a fim de identificar condições genéticas, assim como alterações cromossômicas associadas a menores chances de implantação, existe desde os anos 1990. “Mas, enquanto os primeiros testes analisavam um número limitado de cromossomos (de 5 a 9 pares), atualmente, o PGT-A faz a triagem de todos os 24 cromossomos humanos, com maior precisão”, destaca Inês.
Motta cita o caso recente de uma paciente com histórico familiar de distrofia muscular, que teve um filho saudável após a seleção de embriões não afetados pela alteração genética. “De certa maneira, eliminamos a doença em uma geração”, comemora. O aconselhamento genético, nome dado ao processo em que a medicina ajuda a esclarecer os riscos de um indivíduo desenvolver ou transmitir uma doença genética, não é exatamente uma novidade. “Com a velocidade em que a tecnologia está avançando, no entanto, daqui alguns anos, exames como o PGT-A possivelmente serão usados para descobrir também afecções poligênicas, como uma predisposição ao colesterol alto. Não para fazer uma seleção, e sim para que uma pessoa tenha mais chance de prevenir certas doenças”, afirma.
Microbiota amplia a investigação sobre as causas da infertilidade
O que, afinal, determina a chance de gravidez após o congelamento de um óvulo ou de um embrião? As novas técnicas e tecnologias certamente expandiram as possibilidades da reprodução assistida, mas há um fator que continua decisivo: a qualidade dos gametas. E nesse ponto, os homens têm uma grande vantagem. Enquanto as mulheres nascem com um número fixo de óvulos, eles produzem os espermatozoides ao longo da vida. “Antigamente, era só a mulher que recebia a culpa, digamos assim. De uns dez anos para cá, tem-se falado mais da importância da saúde do homem para a gestação”, diz a presidente da SBRH, Inês Cruzeiro. “O espermatozoide ejaculado hoje levou três meses para ser produzido. Toda produção é, portanto, uma janela de oportunidades para fazer interferências positivas no sentido de melhorar sua qualidade, desde uma cirurgia para tratar a varicocele a mudanças de hábitos”, acrescenta o urologista Daniel Zylbersztejn, do Fleury Fertilidade.
Um estudo publicado em agosto deste ano na revista The Lancet Obstetrics, Gynaecology, & Women’s Health, por exemplo, encontrou uma associação entre o perfil da microbiota do sêmen dos homens e do intestino das mulheres e o sucesso das gestações em casais com infertilidade ou perda gestacional recorrente. O principal achado foi a identificação de um tipo de disbiose seminal (ou seja, desequilíbrio bacteriano no sêmen), o qual foi chamado de seminal V‑dysbiosis. Esse padrão estava presente em cerca de 24% dos homens do grupo de casais com infertilidade e em 41% dos homens do grupo de casais com perda gestacional recorrente.
Entre os casais que foram submetidos a técnicas de fertilização in vitro (FIV) ou de injeção intracitoplasmática de espermatozoides (ICSI), a taxa de nascidos vivos foi de 57% quando o paciente apresentava esse tipo de disbiose seminal, contra 85% nos casais sem esse padrão – uma diferença de 28 pontos percentuais. O mesmo perfil também esteve associado a um maior risco de aborto espontâneo. Além disso, alterações no microbioma intestinal feminino mostraram associação semelhante com mais abortos e menos nascidos vivos, enquanto o microbioma vaginal não teve relação consistente com os desfechos.
Os autores ressaltam que o estudo mostra associação, não causalidade: ainda não se sabe se as bactérias do sêmen e do intestino causam diretamente os abortos ou se são apenas marcadores de outros processos. Reforçam, no entanto, a necessidade de olhar para o casal como um todo na investigação de infertilidade e perda gestacional.
Entre a excelência médica e o acesso
Atualmente, segundo a Rede Latino-Americana de Reprodução Assistida, o Brasil é líder em reprodução assistida na região, concentrando 40% de todos os centros. Como ressalta o professor e pesquisador Eduardo Motta, da Unifesp, o maior obstáculo por aqui não está, portanto, na ciência, e sim no acesso.
Apesar de o país agregar profissionais capacitados e dispor de técnicas modernas, os tratamentos são restritos a uma parcela pequena da população por causa do alto custo — no SUS, entre as situações contempladas está a preservação da fertilidade de pacientes que passarão por tratamentos contra o câncer capazes de afetar a capacidade reprodutiva. “Num momento em que a natalidade está baixa no país, o Brasil precisa começar a se preocupar hoje com a reposição populacional daqui a 10 ou 15 anos. No meu entendimento, deveria existir uma política pública que expandisse o acesso à reprodução assistida”, afirma.
Os últimos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) justificam a preocupação do especialista, uma vez que o país atingiu sua menor taxa de fecundidade já computada, ou seja, 1,6 filho por mulher. A presidente da SBRH destaca outra variável nessa equação: a conscientização dos médicos em geral. “Historicamente, o planejamento reprodutivo esteve muito associado à contracepção. A pílula anticoncepcional, de fato, representou uma revolução, especialmente na vida das mulheres. Hoje, porém, os profissionais de saúde precisam ampliar essa orientação e incluir também o planejamento da maternidade e da paternidade, para que quem deseja ter filhos possa ser informado sobre todas as possibilidades e, assim, se preparar a tempo”, conclui Inês.


