Série Eleições: você sabe quais fontes sua IA consulta?
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Série Eleições: você sabe quais fontes sua IA consulta?

Pesquisas, apostas preditivas, redes sociais e alucinações podem impactar o voto do eleitor

Com a chegada dos buscadores, como o Google, as coleções de enciclopédias ficaram empoeiradas nas estantes. Agora, as ferramentas de Inteligência Artificial passam a ocupar esse lugar de responder a dúvidas. Entre perguntas sobre receitas culinárias e dicas sobre investimento financeiro, usuários também recorrem a essas plataformas para se informar sobre as eleições. Com isso, surgem questionamentos sobre a qualidade e como essas respostas são elaboradas.

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O Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS Rio) desenvolveu a pesquisa “Boca de IA” para entender como as ferramentas de Inteligência Artificial estão atuando neste ano eleitoral. Uma das preocupações é a integridade da informação, que é a garantia de que os conteúdos são precisos e confiáveis. A quarta rodada da pesquisa coletou, entre 2 e 6 de julho, respostas produzidas pelas ferramentas ChatGPT, Gemini, Meta AI, DeepSeek, Grok, Perplexity e Claude.

“Para a gente garantir que haja de fato um equilíbrio, e que as informações que sejam divulgadas sobre eleições sejam democraticamente relevantes, o uso de fontes oficiais é primordial nesse processo”, explica Gabriella da Costa, pesquisadora sênior do ITS Rio. Ela aponta que esse uso se dá em um espectro bem abrangente, com maior e menor qualidade, desde pesquisas de opinião a posts de redes sociais.

Apenas 39% dessas respostas direcionam para fontes institucionais, como o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), os Tribunais Regionais Eleitorais e partidos políticos. As fontes informacionais, que são as reportagens de veículos de imprensa, pesquisas eleitorais, páginas informativas, conteúdos enciclopédicos e publicações em plataformas digitais, representam a principal base das respostas, aparecendo em 95%. ChatGPT, Grok, Perplexity, e Claude apresentaram esse tipo de fonte em 100% das respostas analisadas.

A nova rodada da pesquisa acontece cinco meses após a publicação da resolução 23.755/2026 do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que dá orientações para as campanhas e proíbe que sistemas de IA ranqueiem, recomendem, sugiram ou priorizem candidatos, campanhas, partidos políticos, federações ou coligações mesmo quando solicitado pelo usuário. Ainda assim, 90% das respostas analisadas ranquearam candidatos.

Uma das hipóteses do estudo é que sites do judiciário e dos partidos não estejam preparados para a coleta de informações. Outra é que essas ferramentas não estejam configuradas para acessar esses sites quando usuários questionam as ferramentas sobre informações eleitorais. A MIT Technology Review Brasil procurou o TSE durante um mês, por e-mail e telefone, mas não houve respostas sobre como funciona a disponibilidade de informações para coleta feita por Inteligência Artificial.

Entre a primeira e a quarta rodada da pesquisa, houve melhora e aumento no uso de fontes oficiais, indo de 12% para 39%. Mas há variação conforme o tipo de pergunta e outros problemas. Na terceira rodada, por exemplo, o DeepSeek respondeu a uma pergunta com fontes de língua inglesa, o que pode reduzir a contextualização da resposta. A pesquisa também percebeu o uso de plataformas de apostas preditivas como a Polymarket, além de colaborativas, como Wikipedia, e publicações no Instagram que citam candidatos, o que pode representar uma ampliação do repertório informacional, mas há dúvidas sobre a verificabilidade dos dados.

“Essa coexistência de diferentes naturezas editoriais, com relação às fontes informacionais, reforça a importância de a gente compreender como esses modelos selecionam, ponderam, priorizam, integram esses conteúdos e o porquê. Mesmo assim, com essa variedade, eles ainda privilegiam essas fontes informacionais em detrimento das fontes oficiais”, avalia Gabriella da Costa.

A pesquisa “AI Visibility Index 2026”, da empresa Semrush, divulgada em junho, aponta as principais fontes usadas pelos chatbots para elaborar as respostas. O ChatGPT, por exemplo, é a principal plataforma para busca com IA. Em primeiro lugar entre suas fontes, está a Wikipedia, com 21,8 milhões de citações, em segundo o fórum Reddit, com 21,6 milhões, em seguida o Facebook, com 10,6 milhões, e o YouTube, com 8,9 milhões de citações. O conjunto de fontes do Gemini é o mais reduzido entre as grandes plataformas. Em primeiro vem a Wikipedia, com 4,9 milhões de citações, em segundo o YouTube, com 4 milhões, por fim o Reddit com 2,7 milhões de citações.

Além da questão da priorização do uso de fontes, as respostas aparecem em diferentes padrões a depender da plataforma que está sendo usada. Algumas usam links em cada trecho, outras aparecem enquanto lista no final. Nem todas citam as fontes e onde foram utilizadas. “Se eu quero verificar aquele dado, se tiver mais transparência, isso vai me ajudar a encontrar mais conhecimento sobre esse assunto. E tem a importância também de a gente ter uma variabilidade de fontes. As plataformas não se ancorarem somente em um tipo de fonte, um tipo de modelo informacional”.

Novas estratégias de marketing e alucinações

Assim como a ascensão do SEO (Search Engine Optimization, ou, em português, Otimização para Mecanismos de Busca), novas estratégias de marketing surgem para que os conteúdos sejam encontrados pelas plataformas de IA. O SEO é um conjunto de técnicas usadas para melhorar o posicionamento e a relevância de um site entre as páginas de resultados orgânicos de buscadores, como o Google.

Depois dele, a criação de conteúdo passou a ser orientada para agradar aos algoritmos das redes sociais a fim de aumentar o engajamento e a entrega a mais pessoas. A mesma lógica de criação de relevância e reputação agora opera visando ferramentas como o ChatGPT.

“As plataformas de Inteligência Artificial vão raspar esses dados que são públicos. Seja da imprensa, de fontes oficiais, ou partidos. Então, se você conseguir construir uma estratégia que fale sobre o seu candidato, sobre as suas pautas, seu programa, de uma forma que as plataformas consigam capturar, isso, de alguma forma, vai modular as respostas”, avalia a pesquisadora.

Foram identificados casos de alucinação (quando a IA erra ou inventa informações) em 16% das respostas. O erro mais comum foi a atribuição incorreta de partidos, ainda que o prazo de filiação partidária tenha se encerrado em abril. A maior ocorrência atual acontece no Gemini, com 50%. A pesquisadora acredita que é importante que as plataformas estejam conectadas ao TSE para conseguir buscar informações atualizadas. Além disso, o ritmo de atualização na maioria delas não fica claro. E o usuário não tem a percepção de que aquelas informações são ou não as mais recentes.

Ainda assim, existem boas práticas. O Grok afirma em sua página que faz busca em tempo real pelas últimas notícias e tendências, e o Claude apresentou um comportamento inédito na terceira rodada ao incorporar recomendações de agência de checagem de fatos e orientar o usuário a adotar práticas de verificação.

O que dizem as plataformas

Todas as empresas citadas no estudo “Boca de IA” foram procuradas pela MIT Technology Review Brasil para responder a diversas perguntas sobre o uso de fontes nas respostas de seus chatbots. Anthropic, proprietária do Claude, xAI, dona do Grok, e DeepSeek não responderam. A Perplexity informou apenas que a plataforma “foi criada para fornecer às pessoas respostas com citações e links de diversas fontes, para que possam acessar diretamente as reportagens originais e chegar às próprias conclusões.”

Em nota, a OpenAI respondeu que “segue aprimorando a qualidade das informações eleitorais disponíveis no ChatGPT, incluindo o acesso a fontes da web e links que permitem aos usuários verificar as informações diretamente e se aprofundarem no assunto”.

O Google, empresa do Gemini, informou que seus modelos de linguagem fundacionais “são treinados principalmente em dados publicamente disponíveis e rastreáveis da Internet, extraídos de fontes como postagens de blogs e fóruns de discussão pública. Também oferecemos aos editores controle sobre como seus sites são usados com o Google-Extended”. E ainda indicou um post de dezembro de 2025 em seu blog sobre novos recursos e parcerias. Nele, menciona que está aumentando o número de links integrados e atualizando o design deles para torná-los mais úteis.

A Meta enviou o link de uma página institucional sobre suas medidas para as eleições 2026. Entre elas, informa que existe um Centro de Operações para Eleições desde 2018, e que aplica regras que proíbem conteúdo com interferência eleitoral, violência política e informações imprecisas. Mas o conteúdo da página não esclarece as principais questões apresentadas nesta reportagem.

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