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Uma pesquisa de mercado feita pela Menlo Ventures (empresa de capital de risco norte-americana que investe nas áreas de tecnologia, inteligência artificial e saúde) aponta que o setor da saúde está implementando IA a uma taxa 2,2 vezes maior do que a da economia em geral. O relatório State of AI in Healthcare 2025 detalha ainda que essa aceleração ocorreu em apenas dois anos. O panorama é que 22% das organizações de saúde adotaram ferramentas de IA específicas para o setor, um aumento de sete vezes em relação a 2024 e de dez vezes em relação a 2023.
Mas apostar em soluções inteligentes no ambiente de saúde requer planejamento estratégico se o objetivo é que a ferramenta tenha longevidade e traga resultados concretos para pacientes, médicos e o setor como um todo, alerta Gustavo Pinto, diretor nacional de SADT (Serviço de Apoio Diagnóstico e Terapêutico) e diretor-geral do Hospital Santa Paula (SP), da Rede Américas, segunda maior rede privada de hospitais do Brasil, com atuação em sete estados e no Distrito Federal.
“A gente precisa de uma saúde com melhor desfecho, melhor experiência e mais sustentabilidade do que temos hoje. A inteligência artificial, se bem empregada, pode contribuir para isso. Mas, para fugir do hype da inovação de prateleira, é preciso ter indicadores bem estabelecidos do que queremos e do que ela pode entregar.”
Hoje, a Rede Américas tem políticas bem definidas para uma tecnologia sair do piloto e ganhar escala, apoiadas em quatro critérios: evidência científica que sustente o uso, ganho real para o paciente, rentabilidade ou redução de custo e enquadramento no orçamento. E todos esses benefícios são vistos nos processos e na governança de hospitais que fazem parte da rotina de saúde dos brasileiros, como Nove de Julho e Samaritano Higienópolis (SP), São Lucas Copacabana e Pró-Cardíaco (RJ) e Hospital Brasília (DF).
No que tange à governança, todas as aplicações de IA mantêm validação médica obrigatória, alinhada à Resolução nº 2.454/2026 do Conselho Federal de Medicina (CFM), que normatiza o uso da IA na medicina e determina que a decisão clínica final seja sempre do médico, cabendo à tecnologia o papel de apoio. E, na rede, todos os pacientes que passam por alguma etapa de cuidado mediada por IA são informados sobre isso. O manejo dos dados, por sua vez, segue a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD).
“Com esses critérios, a rede construiu uma jornada integrada, em que a IA não fica isolada no diagnóstico, mas conecta o fim da consulta ao agendamento e ao início do tratamento, o que proporciona melhor experiência, mais agilidade na detecção de situações clínicas e, consequentemente, eficiência e economia para o sistema”, reforça Gustavo Pinto.
Apoio na consulta médica
Uma das primeiras frentes do uso de inteligência ocorre na consulta. Ao fim do atendimento, uma IA generativa identifica a indicação de exame ou procedimento e aciona a central de enfermeiros navegadores. E a equipe que entra em contato com o paciente para marcar exames e consultas e acompanhá-lo nas etapas seguintes. O processo acelera o início da jornada de cuidado, observa a diretora de Governança Assistencial, Experiência do Paciente e Educação Corporativa da Rede Américas, Elizabete Mitsue.
“Uma equipe faz contato com o paciente para começar a acompanhá-lo e direcioná-lo ao tratamento. Um time de enfermeiros navega esse paciente e o segue por toda a jornada. E, em oncologia, vemos que o processo gera uma conexão muito grande. O paciente oncológico é o que mais tem gratidão em relação ao serviço, porque antecipamos seu diagnóstico”, relata. Ela complementa ainda que essa percepção é validada pelos resultados de NPS [Net Promoter Score – métrica de satisfação e lealdade do cliente].
O ganho também é do sistema de saúde. O paciente oncológico percorre praticamente todos os serviços do hospital, de exames a internações, e por isso é um dos mais onerosos. Quando o diagnóstico é precoce, esse custo é otimizado, e com ele o risco de recidiva e de novas internações.
“É preciso lembrar que não é a IA que salva: ela é uma ferramenta, que potencializa o trabalho de profissionais especializados”, alerta Gustavo. O diretor de SADT destaca ainda a necessidade de letramento e capacitação das equipes e dos profissionais de saúde que terão as ferramentas a seu dispor. Usar uma inovação em toda sua potencialidade significa também compreender a tecnologia e integrá-la ao fluxo de trabalho da melhor maneira.
Um anfitrião digital no leito
Na internação, a inteligência artificial entrou por outro caminho. Em vez de apertar a campainha e esperar, o paciente pede água, ajuste no ar-condicionado, limpeza do banheiro ou a visita da nutricionista por meio de um aplicativo no próprio celular, usando os ícones da tela ou por comando de voz. Um modelo transcreve e interpreta o pedido, com regras de segurança que separam o que é solicitação para áreas de apoio do que é queixa clínica, e o encaminha direto à área responsável, considerando os parâmetros e fluxos definidos por cada hospital. O paciente acompanha o status até o atendimento. Chamado de Anfitrião Digital, o projeto está implantado em 12 hospitais da rede e deve alcançar 25 unidades até fevereiro de 2027.
Os números da operação ajudam a dimensionar o que sai da conta da enfermagem. Em três anos de projeto, foram mais de 2 milhões de comunicações entre pacientes e equipes, e 85% das solicitações não assistenciais passaram a ser resolvidas sem intermediação da enfermagem. Em uma única unidade de 281 leitos, foram 350.339 pedidos registrados em pouco menos de dois anos, dos quais 87% seguiram direto para copa, limpeza, manutenção, nutrição ou hospitalidade. Pedir água, recolher a bandeja e solicitar limpeza do quarto estão entre os itens mais frequentes.
“Cada ida ao leito para resolver uma demanda que pode ser realizada por outra área é tempo de cuidado da enfermagem que só ela pode fazer pelo paciente”, diz Elizabete Mitsue. “Quando a solicitação vai direto para a área certa, a enfermagem fica com mais tempo dedicado a assistência, qualificando o cuidado e aumentando o vínculo e percepção de experiência do paciente”.
Equipamentos embarcados de IA
Outra frente de aplicação da IA na Rede Américas está no maquinário. Grande parte dos equipamentos para ressonância magnética, eletrocardiogramas e tomografias conta com softwares desenvolvidos e treinados para triar achados mais complexos, acelerando o diagnóstico.
No caso de eletrocardiogramas, por exemplo, a IA tria exames normais e alterados para priorizar a produção de laudos. “Na maioria das vezes, o eletrocardiograma é feito no pronto-atendimento para descartar um possível infarto agudo do miocárdio. Ao diagnosticar mais rápido, esse paciente também começa o tratamento mais cedo. Nós conseguimos reduzir o tempo médio desses laudos para menos de três minutos e isso melhorou em 30% nosso indicador de qualidade e segurança”, conta Gustavo Pinto. A estimativa é que, nos últimos dois anos, essa prática já tenha beneficiado mais de 180 mil pacientes.
Detecção precoce no pronto-atendimento
Um dos usos mais recentemente implementados, segundo o executivo, é nas tomografias e radiografias de tórax realizadas na emergência, com o intuito de detectar lesões pulmonares que possam sugerir uma neoplasia.
“Quando o paciente vai ao pronto-socorro com um quadro pulmonar, o médico emergencista dirige sua atenção para o quadro agudo atual e não no rastreamento de pequenas lesões nodulares”, observa Gustavo.
Essa solução começou a ser implementada neste ano. Por enquanto apenas em três grandes hospitais de São Paulo, onde se avaliam em média 8 mil radiografias e 1.800 tomografias por mês. Nos seis primeiros meses foi possível identificar mais de 50 lesões que foram para investigação mais detalhada e cinco pacientes tiveram o diagnóstico precoce de câncer de pulmão, sendo imediatamente direcionados para tratamento.
“A literatura médica informa que a sobrevida média de um paciente diagnosticado no estágio 4 de câncer de pulmão é baixa: 9% em cinco anos. No estágio inicial, chega a 65%. Ou seja, identificar um nódulo pulmonar em fase precoce é uma chance significativa de salvar a vida do paciente”, contextualiza o executivo, que também é médico radiologista.
O valor da IA na saúde não está apenas na capacidade de automatizar processos ou identificar padrões, mas em sua integração estratégica à jornada de cuidado. O momento atual do setor ultrapassou dúvidas sobre “se” e “quando” incorporar tecnologia e passou para um cenário em que o “como” é que ditará o sucesso e até mesmo a permanência e competitividade no mercado.
“Se você hoje não está usando IA nem fazendo o letramento dos seus colaboradores e do seu corpo clínico, você já ficou para trás. A evolução é muito rápida e é fundamental que a tecnologia faça parte da rotina”, defende Gustavo.
Quando apoiada por evidências, governança, capacitação profissional e indicadores que permitam medir seus resultados, a tecnologia deixa de ser uma promessa de inovação e passa a produzir impactos concretos: antecipa diagnósticos, melhora a experiência do paciente e contribui para a sustentabilidade do sistema.




