Franciso Santos, no sudeste do Piauí, é um município com 8.237 habitantes, segundo o Censo de 2022. Os principais nomes dos seus cidadãos são José e Maria, e o sobrenome mais comum é Silva. Por lá, não existe jornal, rádio ou emissora de televisão local profissional, ou mesmo comunitária. É o que se define como deserto de notícias, segundo o projeto Atlas da Notícia, do Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo (Projor). Isso significa que, para saber o que está acontecendo, os Josés e Marias da Silva dependem do boca-boca ou de ferramentas digitais como aplicativos de mensagens e redes sociais.
Quando não havia internet, a dependência era ainda maior de espaços como associações, sindicatos, igrejas e das cartas para se comunicar. Em período de eleições, santinhos (aqueles folhetos com informações de candidatos), carros de som e comícios eram as principais ferramentas de divulgação das campanhas. Ambos ainda resistem enquanto estratégia de comunicação. No entanto, essas ações não preenchem a lacuna da falta de jornalismo que acompanha e fiscaliza governos e as propostas de candidatos.
“Essa nova modalidade de comunicação está em todo lugar agora. WhatsApp, Instagram, Facebook, não tem mais fronteira”, conta Milanez, 62 anos, agricultor e radialista comunitário. Ele é natural de Francis Santos e divide sua rotina entre o município no interior e a capital Teresina, onde é coordenador da Verona FM. Em locais assim, o que a população tem acesso pela televisão é muitas vezes uma programação da capital ou mesmo de outros estados, através da transmissão via satélite.
“A notícia local não corre, ela não anda, ela não circula. Então, a rádio comunitária permite você divulgar aquilo que acontece ali perto de você, nas comunidades, no seu próprio município, no entorno. Ou é a rádio comunitária ou então é alguma rede social, outra coisa não funciona”, avalia.
No caso de Francisco Santos, que não tem sequer uma rádio comunitária, a situação é ainda mais complexa. E este cenário não é por falta de tentativa. Há cerca de cinco anos, Milanez conta que uma rádio comunitária fechou após funcionar por quatro anos sem outorga, que é a autorização concedida através de seleção pública do Ministério das Comunicações através de chamadas de editais do Plano Nacional de Outorga. Ela é regida pela Lei nº 9.612/1998 e o Decreto 10.405/2020.
Antes da internet, para fazer uma informação circular, muitas vezes era necessário enviar uma carta para alguma rádio de um município vizinho. Por exemplo, a Picos FM, que carrega o nome da cidade da qual Francisco Santos se tornou independente em 1960. O informe viajava cerca de 53 quilômetros por estrada. Atualmente, o próprio site e redes sociais da prefeitura de Francisco Santos servem como veículo de comunicação para propagar principalmente serviços e agendas públicas.
Quase metade dos municípios são desertos de notícias
O Atlas da Notícia de 2025 apontou que existem 2.504 municípios brasileiros que são desertos de notícias, o que representa 45% do total. O Nordeste lidera o ranking com 890, seguido do Sudeste com 830 e do Sul com 457 municípios. O Piauí está em quinto entre os estados brasileiros e o primeiro da sua região, sendo 163 municípios nesta condição.
Sérgio Lüdtke, um dos coordenadores da pesquisa e presidente do Projor, explica que os veículos nativos digitais estão contribuindo para a redução dos desertos de notícias. No entanto, estão acontecendo muitos fechamentos. De 942 veículos de imprensa, fechado em 2023, o número aumentou para 1460, em 2025. Diferente de rádios e jornais que demandam mais estrutura para começar, um projeto digital pode “surgir de um rompante”.
“É muito fácil você abrir um veículo, um site de notícias, principalmente se você já é um jornalista com alguma influência, se você já tem um capital social em redes, por exemplo. E o que a gente percebeu bastante foi que houve muito fechamento de veículos, então há uma volatilidade no online”, comenta.
Nas eleições, os cargos mais locais, como prefeito, vereador e até deputado estadual pode sofrer mais impacto. Lüdtke aponta três problemas: não existir fiscalização do poder local, haver um veículo, mas ele não ser independente e sim atrelado a algum grupo político, e, na falta de um veículo, as pessoas dependerem exclusivamente do que é compartilhado com elas, principalmente por aplicativos de mensagens e redes sociais.
Além disso, existem sites que simulam veículos jornalísticos, mas operam como “cavalos de tróia”. Esses sites surgem por um período antes das eleições e desaparecem depois do pleito. E essa estratégia, que já existe, está sendo facilitada com a inteligência artificial. “Então você cria o site com o nome de Diário de Cidade X. Copia veículos locais que estão produzindo algum tipo de conteúdo, e insere ali um conteúdo de interesse de um determinado candidato”, explica.
Por fim, apesar do site dos governos terem seu papel de prestação de contas e divulgação de serviços, eles não podem ser confundidos com jornalismo. “Ele se apresenta como uma notícia, mas é uma notícia que está completamente vinculada aos interesses de quem detém o poder naquele momento. Então, essa é uma outra característica que a gente vê muito forte no Brasil, porque as prefeituras têm recursos para criar um bom site, para ter uma equipe que pode se dedicar a produzir esse tipo de conteúdo”. Fora isso, existem restrições durante as eleições, o chamado defeso eleitoral, que limita o tipo de informação que pode ser divulgado no período com o objetivo de “evitar que a estrutura estatal seja utilizada em benefício de determinadas candidaturas”, segundo o Tribunal Superior Eleitoral.
Rádios comunitárias resistem
Segundo a Associação Brasileira de Rádios Comunitárias, a Abraço Brasil, existem cerca de 5 mil rádios comunitárias no Brasil. A entidade completou 30 anos em 2026 e tem como objetivo a democratização da comunicação. Uma das rádios associadas é a Serra FM, no município de São Francisco de Assis do Piauí, no sudeste Piauiense. Com 5.572 pessoas, a localidade também é considerada deserto de notícias. Por lá, os Josés e Marias são de Sousa, em sua maioria.
Severino Tomaz de Carvalho, de 50 anos, coordena o trabalho voluntariamente da Serra FM e lembra que tudo começou em 1999, apenas quatro anos depois da emancipação do município de Picos. Em 2002, ele se juntou à turma inicial e três anos depois veio a chamada para o edital de outorga, que foi concedida para a rádio em 2007.
Desde então, ele passou a dividir sua rotina de produtor rural e mecânico com os estúdios que, no início, eram abastecidos por fitas e CDs. Nessa época, o público interagia através de cartas e a programação até hoje mistura entretenimento, religião e informes dos sindicatos locais. Com a chegada da internet e as redes sociais, a rádio passou a usar a tecnologia para expandir seu alcance. Foi uma das primeiras do estado a criar uma transmissão online. O radialista não enxerga um impacto negativo.
“Hoje, o WhatsApp é a interação mais forte que a gente tem com os ouvintes. Eles participam ao vivo, mandam mensagem de voz, de texto. As pessoas se sentem como um locutor na programação da rádio”. O principal público já passou dos 30, mas os jovens acompanham pelas redes sociais.
Até dez anos atrás, a Serra FM enviava repórteres voluntários para as seções do município a fim de acompanhar os boletins de urna. Atualmente, evita a cobertura com receio de infringir regras eleitorais, “que mudam a cada ano”. Mas os boletins são afixados em local visível por orientação do próprio Tribunal Superior Eleitoral e disponibilizados para consulta no Repositório de Dados do órgão. “Era uma audiência surpreendente, todo mundo ficava sabendo o resultado através da rádio”, lembra. No entanto, ainda é através da rádio que são vinculados os programas eleitorais dos candidatos.
Os santinhos e carros de som ainda circulam para divulgar as campanhas, mas ele acredita que a internet ocupa cada vez mais espaço, o que também abre caminho para informações duvidosas. Nesse contexto, ele defende que o rádio ainda tem vantagem. “Acredito nesse potencial muito grande que o rádio tem, ele é um meio de comunicação seguro porque a gente não vai fazer nada sem verificar se realmente aquele é certo ou não. Diferente da das plataformas digitais que qualquer pessoa que tem acesso pode publicar o que bem entender”.

