Os grandes modelos de linguagem (large Language Models, ou LLMs) estão prestes a chegar à Lua. Um computador capaz de executar softwares de inteligência artificial é uma das cargas úteis a bordo do rover lunar FLIP (FLEX Lunar Innovation Platform, ou Plataforma de Inovação Lunar FLEX, em português), da Astrolab, cujo envio está previsto para ocorrer já em novembro de 2026.
Com 480 quilos, é o primeiro de uma série de veículos que a NASA, incluindo outros futuros que transportarão astronautas do programa Artemis pela superfície da Lua. Equipado com rodas deformáveis desenvolvidas para o terreno acidentado e projetado para sobreviver a pelo menos 150 horas da gélida noite lunar, o FLIP levará 20 cargas úteis científicas, incluindo um mapeador 3D por lidar e um sensor para medir as concentrações do isótopo hélio-3 no regolito lunar.
O rover também levará um computador de alto desempenho fabricado pela HPE, que será o primeiro a executar LLMs na superfície da Lua. Esse tipo de software poderá, no futuro, ajudar a viabilizar maior autonomia e a tomada de decisões inteligentes em tempo real no espaço, eliminando os atrasos e as limitações de largura de banda que frequentemente prejudicam as comunicações de longa distância entre o controle da missão na Terra e robôs em outras partes do Sistema Solar.
“O atraso na comunicação, por exemplo, em Marte, pode chegar a 20 minutos”, disse Mark Fernandez, cientista-chefe e pesquisador principal da HPE, durante uma coletiva de imprensa de apresentação do projeto. “Na Lua, ele é menor, mas, ainda assim, você está olhando para dados desatualizados. Na verdade, os soviéticos perderam dois rovers no passado por causa de erros dos operadores provocados pelo atraso na comunicação.”
Durante a missão do FLIP, modelos especializados, desenvolvidos sob medida, executarão uma série de experimentos para comprovar que a tecnologia pode operar de forma confiável no ambiente extremo da Lua. Eles analisarão dados das câmeras de bordo e do mapeador lidar para auxiliar na navegação segura pelo terreno lunar e extrair informações relevantes dos dados coletados, reduzindo a quantidade de informações que o rover precisa transmitir de volta à Terra.
O rover chinês Chang’e-6, que pousou no lado oculto da Lua em 2024, usou algoritmos básicos de IA e redes neurais para navegação autônoma. Da mesma forma, os rovers Curiosity e Perseverance, da NASA, se deslocam por Marte de forma semiautônoma por trajetos pré-programados há anos, mas os computadores preparados para o ambiente espacial dos quais esses veículos dependem são notavelmente pouco potentes, comparáveis a laptops do fim dos anos 1990. Já o computador de borda HPE Spaceborne-4 do FLIP é composto por uma CPU de alto desempenho de 64 bits combinada a uma GPU capaz de executar um grande número de tarefas computacionais em paralelo, assim como os computadores de borda avançados na Terra.
A HPE já enviou três computadores Spaceborne à Estação Espacial Internacional para testar a tecnologia no ambiente mais ameno e controlado da órbita terrestre baixa. Os computadores Spaceborne-2 e Spaceborne-3, lançados em 2021 e 2024, respectivamente, executaram o Llama 3.2, da Meta, a bordo da Estação Espacial Internacional (International Station Space, ou ISS) como parte da iniciativa “Space Llama”, em 2025, ajudando os astronautas a agilizar tarefas de pesquisa e acelerar a tomada de decisões da tripulação.
“Como seres humanos, temos nossas limitações físicas, especialmente em ambientes como o espaço”, disse Francisco Cordova, diretor de operações do Laboratório Nacional da Estação Espacial Internacional, durante a coletiva de imprensa. “À medida que avançamos cada vez mais pelo espaço, acredito que dependeremos mais da IA para a exploração espacial, para tomar decisões mais inteligentes e melhores, mas, sobretudo, para trabalhar naqueles ambientes em que os seres humanos simplesmente não conseguem.”
Em vez de passar anos pelo processo padrão de criação de hardware especializado e resistente às condições do espaço, a HPE usou um software que monitora o sistema e detecta falhas causadas por partículas cósmicas carregadas. Quando há picos de radiação, o software pode reduzir a potência e a velocidade do computador para diminuir o risco aos componentes eletrônicos, garantindo que o sistema permaneça confiável por longos períodos.
“No espaço, não temos redundância, não temos técnicos de manutenção, não temos peças de reposição”, disse Fernandez, “por isso, dedicamos muito tempo e muitos ciclos de CPU a verificar tudo e garantir que esteja funcionando corretamente.”
Contrariando as expectativas iniciais, cada um dos computadores funcionou com sucesso por mais de dois anos na ISS. Na Lua, porém, a HPE assumiu um desafio de um nível inteiramente novo. “A estação é um ambiente extremo, mas relativamente controlado em comparação com o que encontraremos na Lua”, disse Cordova.
Dentro da estação espacial, os computadores Spaceborne operam em relativo conforto. Enquanto as temperaturas a bordo da ISS ficam em torno de 20 °C, o FLIP pousará perto do polo sul lunar, onde as temperaturas podem variar entre escaldantes 80 °C nas áreas iluminadas pelo Sol e gélidos -200 °C nas regiões sombreadas, nas quais o FLIP buscará a presença de gelo de água. A radiação cósmica que atinge a superfície da Lua é quase três vezes mais intensa do que no interior da estação espacial, que conta com blindagem e também se beneficia da proteção do campo magnético da Terra.
Ainda assim, o computador Spaceborne-4 do FLIP permanece notavelmente simples. Ele conta com a mesma arquitetura protegida por software e usa os radiadores do rover para dissipar o excesso de calor. “Nossa expectativa é que o computador dure por toda a missão”, disse Scott Wiest, diretor de tecnologia da HPE, referindo-se aos dez dias que o rover deverá passar na Lua.
Roser Almenar, pesquisadora de IA e direito espacial da Universidade de Valência, na Espanha, disse que os LLMs têm “um enorme potencial, em particular para futuras missões a Marte e além, nas quais os atrasos na comunicação tornarão cada vez mais difícil contar com assistência imediata da Terra”. Mas ela ressalta que a tecnologia ainda está em seus estágios iniciais. “Esses sistemas podem produzir informações imprecisas ou enganosas”, afirma, “e, no espaço, até mesmo um erro aparentemente pequeno pode ter consequências graves.”

