O café é uma das bebidas mais populares do mundo, ao lado da água e do chá, e uma das que mais despertam o interesse da ciência. Consumido diariamente por milhões de pessoas, não é de hoje que vem sendo investigado por seus possíveis efeitos sobre a saúde. Estudos recentes têm associado o consumo de café a um menor risco de doenças, de cirrose a demência, mostrando que seus efeitos podem ir muito além do despertar pela manhã.
No Brasil, tamanho interesse dos cientistas é ainda mais relevante. Presente em 98% dos lares brasileiros, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), o café está profundamente ligado à história, à economia e à identidade cultural do país. “Mais do que um hábito de consumo, representa acolhimento, convivência e conexão entre as pessoas”, afirma Celírio Inácio da Silva, diretor da Abic. Essa intimidade, como ressalta Inácio, aparece até na linguagem: por aqui, a primeira refeição do dia leva o nome da própria bebida.
Mas o que a ciência já sabe sobre a ação dessa paixão nacional no organismo? Embora os resultados de pesquisas recentes sejam promissores, os benefícios dependem de fatores como a quantidade consumida, o modo de preparo e as características individuais dos grãos, como explicam os especialistas consultados pelo MIT Technology Review Brasil ao longo da reportagem.
Os efeitos protetores do café no fígado
Uma das frentes mais promissoras dessa investigação está no fígado. Um estudo publicado este ano na revista Clinical Gastroenterology and Hepatology, que acompanhou 354.957 participantes por uma média de 13 anos, encontrou associações entre o consumo de café e menores riscos de cirrose, carcinoma hepatocelular — um dos principais tipos de câncer de fígado — e mortalidade relacionada a doenças hepáticas. As associações foram observadas inclusive entre pessoas que consumiam quantidades moderadas da bebida, embora os resultados mais favoráveis tenham aparecido entre aquelas que tomavam cinco ou mais xícaras por dia.
Os mecanismos por trás dessa relação ainda estão sendo investigados, mas as evidências apontam para um possível papel de compostos do café que vão além da cafeína. “O fato de que os benefícios foram observados também em quem consumia a versão descafeinada reforça essa hipótese”, afirma a gastroenterologista Patrícia Marinho Oliveira, do Fleury Medicina e Saúde. De acordo com a especialista, há indícios de que certas substâncias da bebida provocariam modificações celulares no fígado, que reduziriam a progressão da fibrose hepática. Essa condição, vale explicar, é caracterizada por um acúmulo de tecido cicatricial no fígado, uma resposta a lesões persistentes que pode evoluir para a cirrose.
Leite e açúcar podem mudar a ação antioxidante do café
A forma de preparar o café também influencia seu potencial antioxidante, segundo um estudo conduzido por pesquisadoras da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP), com apoio da Fapesp, em 2025. O trabalho, que analisou oito preparações de café filtrado, constatou que a bebida consumida pura apresentou a maior capacidade antioxidante. Já a adição de açúcar provocou uma redução discreta desse potencial, enquanto o consumo com leite teve um efeito ainda menor.
A explicação pode estar nas reações químicas. “As proteínas do leite possivelmente interagem com os compostos fenólicos do café, modificando sua disponibilidade”, resume Elizabeth Torres, professora do Departamento de Nutrição da FSP-USP, que coordenou a pesquisa. “Entretanto, a redução observada em algumas análises não permite afirmar que esse seja o único mecanismo envolvido, nem que o leite anule os benefícios do café no organismo”, completa.
Cabe esclarecer que os antioxidantes são substâncias capazes de neutralizar ou limitar a ação de moléculas reativas, como os radicais livres, que, em excesso, favorecem o chamado estresse oxidativo e danificam as células. “O café contém compostos fenólicos, como os ácidos clorogênicos, que contribuem para essa atividade”, explica Elizabeth. Desta vez, a bebida com cafeína saiu na frente em comparação à descafeinada e apresentou maior concentração de compostos antioxidantes. Além disso, observou-se ainda que fatores como grau de torra, espécie do grão, solo de cultivo e método de filtragem também interferiram no resultado. O que mostra que certos efeitos do café sobre a saúde dependem não apenas da bebida em si, mas também dos ingredientes adicionados, do modo de preparo e da qualidade.
E o que define um café de qualidade, afinal?
A qualidade do café começa muito antes de chegar à xícara. De acordo com Celírio Inácio da Silva, da Abic, depende de uma combinação de fatores que vai do cultivo à preparação da bebida. O cuidado com o solo, a escolha das variedades, as condições climáticas, a colheita e o processamento dos grãos influenciam as características do resultado final. Na indústria, a torra tem papel central no desenvolvimento dos aromas e sabores, enquanto a moagem, a embalagem e a conservação ajudam a preservar essas propriedades do café até o momento do consumo.
Mas qualidade não se resume à experiência sensorial. “É, também, segurança do alimento, pureza e respeito aos padrões de identidade e qualidade estabelecidos para o produto”, afirma Inácio. O Brasil, por sua vez, se destaca nesse mercado não apenas pelo volume produzido, mas também pela diversidade de seus cafés. “Maior produtor e exportador mundial e segundo maior mercado consumidor, contamos com diferentes regiões produtoras, tecnologia e uma indústria de torrefação estruturada, capaz de atender a perfis variados de consumidores”, resume.
O consumidor brasileiro, aliás, parece estar mais atento tanto ao preço quanto à qualidade do café. Uma pesquisa da Abic, divulgada em 2025, mostrou que a parcela de pessoas que reduziram o consumo da bebida passou de 9%, em 2019, para 24%, em 2025. Ao mesmo tempo, cresceu 4% a motivação de degustar e saborear o café. Para Celírio Inácio da Silva, diretor da entidade, os dados refletem dois movimentos: o impacto da alta do preço do produto, o que também é motivado pela crise climática, e o interesse crescente em explorar aromas e experiências. “Hoje, especialmente, entre os consumidores mais jovens, percebemos uma curiosidade crescente pelo universo do café”, diz. “As cafeterias, as redes sociais e a maior diversidade de produtos disponíveis nas gôndolas dos supermercados têm contribuído significativamente para essa transformação”, completa.
Café & cérebro: uma relação antiga
Por muito tempo, entretanto, o café foi criticado por efeitos indesejados no cérebro, como insônia. E inúmeras pesquisas mostraram que essas preocupações tinham fundamento, de fato. “Em média, a cafeína leva quatro horas para ser metabolizada pelo fígado. Em algumas pessoas, demora mais e em outras, menos, a depender da presença do gene CYP1A2, que produz a enzima responsável pela sua degradação”, explica a neurologista Carolina Braga Moura, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.
A relação entre o café e a saúde do cérebro ganhou novos sabores, digamos assim, em um estudo publicado recentemente na revista JAMA. Ao analisar dados de aproximadamente 131 mil pessoas por até 43 anos, os cientistas identificaram que o consumo de café com cafeína estava associado a um risco menor de demência. Entre os participantes que bebiam cerca de duas a três xícaras por dia, a associação foi mais pronunciada.
O grupo com maior consumo também apresentou menos queixas de declínio cognitivo, como dificuldades de memória e raciocínio. Já o café descafeinado não mostrou associação significativa com a redução do risco, o que levanta a hipótese de que a cafeína também tenha um papel importante aqui.
Isso acontece, possivelmente, por conta da adenosina, substância produzida naturalmente pelo organismo que atua como uma espécie de sinalizador de cansaço no cérebro. “A cafeína bloqueia os receptores de adenosina e, como já foi demonstrado em modelos animais, esse efeito tem sido associado à redução da produção de beta-amiloide, proteína envolvida no desenvolvimento do Alzheimer. Além disso, o café contém polifenóis, compostos com ação antioxidante que podem favorecer o fluxo sanguíneo cerebral”, esclarece a neurologista Carolina Braga Moura, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz. A especialista destaca ainda os impactos já conhecidos do café sobre a atenção e o foco.
Apesar das novas descobertas da ciência, a antiga recomendação do consumo moderado da bebida prevalece. “Doses elevadas de cafeína podem provocar taquicardia, aumento da pressão arterial, ansiedade e irritabilidade, além de desencadear crises de enxaqueca em pessoas predispostas”, lembra a neurologista.
De acordo com Carolina, algo em torno de 300 mg de cafeína por dia seria uma boa referência para pessoas sadias, respeitando-se a tolerância individual. Isso equivale a 3 xícaras de café coado (de 150 a 200 ml) ou a 5 xícaras de café expresso (30 ml). Por fim, como destaca a professora Elizabeth Torres, do Departamento de Nutrição da FSP-USP, entretanto, nenhum alimento sozinho oferece proteção contra doenças. “Os benefícios devem ser considerados dentro de um padrão alimentar equilibrado e de um estilo de vida saudável”, conclui.
Entre a tradição de passar um café para reunir a família e os amigos e as descobertas que chegam dos laboratórios, a bebida segue revelando novas facetas. As pesquisas apontam associações promissoras e, embora ainda restem muitas questões a investigar, a ciência já oferece bons motivos para olhar para a sua xícara com mais curiosidade.


