Faz muito tempo que consultar saldo, fazer transferências ou contratar investimentos são operações que deixaram de acontecer no espaço físico de uma agência bancária. Desde que os serviços bancários pelo celular chegaram ao país, no início dos anos 2000, os brasileiros foram se adaptando a transformar a “ida ao banco” a simples toques na tela. Aliás, os celulares são o principal canal de operações financeiras no Brasil, com 78% das mais de 240 bilhões de transações realizadas no ano de 2025, de acordo com uma pesquisa da Febraban, a Federação Brasileira de Bancos (Pesquisa de Tecnologia Bancária 2026).
Com a Inteligência Artificial, também teve início uma mudança na maneira como os clientes interagem com esses aplicativos. Em vez de navegar por menus, será cada vez mais comum conversar com assistentes virtuais e delegar tarefas. Mas, à medida que essas ferramentas ganham autonomia, surge uma questão: como garantir a segurança dos dados e do dinheiro dos usuários?
Recentemente, por exemplo, o Banco do Brasil, instituição financeira de economia mista controlada pelo governo federal, anunciou uma atualização do aplicativo, que incluiria a adoção de recursos de IA para personalizar a experiência dos clientes e facilitar a gestão financeira por meio de solicitações em linguagem natural. Ao mesmo tempo que os bancos desenvolvem novas funcionalidades, golpistas também utilizam a tecnologia para explorar vulnerabilidades.
O desafio da autonomia
Para Cristine Hoepers, gerente-geral do Centro de Estudos, Resposta e Tratamento de Incidentes de Segurança no Brasil (CERT.br), os riscos dependem de como cada sistema é implementado. Uma questão importante é saber onde as informações compartilhadas com os assistentes são processadas. Os modelos podem funcionar dentro da infraestrutura do próprio banco ou utilizar serviços de terceiros. Dependendo das condições de uso, dados acessados por esses sistemas poderiam ser utilizados no treinamento de modelos ou ficar expostos indevidamente.
“A recomendação é que leiam com atenção os termos de licença. Se não existirem, tentar contatar a empresa para entender se o agente foi implementado com um modelo local, com um modelo em nuvem, mas dentro da infraestrutura do banco ou usando um modelo de terceiros”, explica Cristine.
Outro cuidado envolve os limites impostos aos agentes de IA, sistemas que podem executar ações com diferentes graus de autonomia. “De forma geral, a recomendação do CERT.br é que sempre se limite aquilo que os agentes podem decidir sozinhos”, afirma a especialista. Para ela, o ideal é que transações financeiras, exclusão de informações e outras ações sensíveis dependam de autorização explícita do cliente.
Fabro Steibel, diretor-executivo do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS Rio), defende a introdução gradual desses sistemas, inicialmente em ambientes controlados, como uma sandbox, e com restrições sobre as tarefas que podem executar. O pesquisador também chama atenção para a necessidade de mecanismos específicos de autenticação dos agentes e cita o exemplo da Estônia, que está desenvolvendo uma espécie de ‘CPF de agentes’, um identificador digital específico, que permitirá vincular um agente de IA à pessoa que o autorizou.
“Estamos tratando todo agente como um desconhecido, mas tem agentes que são conhecidos e autorizados. Então, quanto mais for utilizada uma arquitetura de autenticação, como a que a gente já pratica com a identidade digital, mais seguro será para todos”, afirma Fabro.
Quando a IA também está do lado dos criminosos
A Inteligência Artificial não beneficia apenas quem desenvolve serviços bancários digitais. Segundo Cristine, a tecnologia já é utilizada para produzir sites fraudulentos mais semelhantes aos originais, documentos falsificados e áudios que imitam vozes de familiares ou colegas de trabalho. Essas ferramentas ampliam a capacidade de realizar os chamados ataques de engenharia social, nos quais criminosos tentam manipular as vítimas para obter informações ou induzi-las a realizar operações. O CERT.br desenvolveu um material educativo, uma cartilha de segurança para a Internet dividida em fascículos e um deles é dedicado aos bancos.
Golpes não são exclusivos do universo digital, mas se tornam cada vez mais rápidos com a Inteligência Artificial. É uma assimetria entre ataque e defesa que sempre existiu, segundo Cristine: “enquanto os atacantes precisam achar uma única brecha para entrada e podem errar quantas vezes forem necessárias, os defensores precisam acertar 100% do tempo”.
Essa assimetria também é o que dá a sensação de estarmos sempre vulneráveis e cercados por ocorrências, mas Fabro Steibel reforça que o Brasil tem um dos sistemas bancários mais bem desenhados e protegidos que existem, embora quem aplica golpes também tenha conhecimento da tecnologia.
“O que a IA faz é diminuir o custo de você fazer um ataque. Então, não é tanto que os ataques são mais efetivos, mas acho que o principal é reduzir o custo. Se antes eu tinha uma base de um milhão de usuários que eu comprei no mercado paralelo e quero usar, eu consigo, com a IA, identificar quais são aqueles que têm mais probabilidade de cair”, alerta o diretor-executivo do ITS Rio.
Ou seja, ela também acelera esse processo. Ataques que anteriormente exigiam dias ou semanas de trabalho especializado podem ser executados em minutos ou horas. Steibel, porém, considera precipitado concluir que a vantagem permanecerá com os criminosos, porque a IA pode contribuir para sistemas mais resistentes. “É uma questão de arquitetura. A defesa não está na porta. A defesa está na arquitetura”, afirma.
Na avaliação do pesquisador, a tecnologia permite desenvolver estruturas de proteção mais resilientes, desde que acompanhadas de investimentos. A Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária 2026 aponta que os bancos brasileiros preveem destinar R$ 50,4 bilhões à tecnologia neste ano. A cibersegurança aparece como prioridade para 100% das instituições pesquisadas, embora o levantamento não divulgue um valor consolidado destinado especificamente à área.
Segurança além da prevenção
O debate também mobiliza autoridades financeiras internacionais. Uma reportagem da Reuters, publicada em outubro de 2026, apontou o aumento da atenção de reguladores aos riscos associados à IA no sistema bancário, incluindo a autonomia dos agentes, a supervisão humana e a capacidade de recuperação diante de incidentes.
Para Cristine Hoepers, as instituições financeiras já têm um investimento robusto em segurança, mas precisam considerar que os sistemas podem ter sido comprometidos mesmo sem alertas das próprias ferramentas de segurança. Isso exige investigar possíveis invasões antes de simplesmente corrigir vulnerabilidades conhecidas. Outra estratégia seria o chamado threat hunting.
“Esta é uma atividade que necessita de analistas especializados, que acompanham as evoluções das ameaças, identificam quais poderiam ter comprometido a rede e, então, começam a procurar por evidências de comprometimento ou de que possuem vulnerabilidades que possam ser exploradas. Isso é feito de forma contínua, mesmo que nenhuma ferramenta ou processo tenha identificado possível ataque”, detalha a gerente-geral do CERT.br.
Para os clientes, cuidados básicos continuam necessários, a chamada “higiene cibernética”: manter controle sobre senhas, acompanhar movimentações financeiras e ativar notificações. Já para os bancos, o desafio não é somente desenvolver ferramentas capazes de compreender e executar solicitações. É garantir que a inteligência dos aplicativos avance sem retirar dos clientes o controle sobre seus dados e seu dinheiro.
