Órgãos jovens podem não ser uma fonte de juventude para os receptores
Biotech and Health

Órgãos jovens podem não ser uma fonte de juventude para os receptores

Novos estudos jogaram um “balde de água fria” na ideia de rejuvenescimento

Por volta desta época, no ano passado, eu participava de uma conferência sobre envelhecimento, em Manchester, e ouvia uma palestra sobre o envelhecimento de moscas quando meu celular começou a receber notificações. Veículos de imprensa noticiavam que um microfone aberto havia captado os líderes da Rússia e da China discutindo a possibilidade de viver para sempre.

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“Com os avanços da biotecnologia, órgãos humanos podem ser transplantados continuamente, e as pessoas podem viver cada vez mais jovens e até alcançar a imortalidade”, teria dito o presidente russo, Vladimir Putin, ao presidente chinês, Xi Jinping.

Ele parece ter se referido à teoria da “substituição” da longevidade, que tem o respaldo de diversos experimentos nos quais camundongos jovens foram fisicamente unidos a camundongos velhos. Algo no sangue jovem rejuvenesceu os camundongos velhos. Talvez órgãos jovens também pudessem rejuvenescer líderes mundiais na casa dos 70 anos.

Infelizmente, para Putin, novas pesquisas jogam um pouco de água fria nessa ideia. Estudos sobre corações transplantados, tanto em camundongos quanto em seres humanos, sugerem que os novos corações logo assumem a idade biológica do receptor, independentemente de quão jovens eram inicialmente. A descoberta pode ser importante para os transplantes, mas também evidencia o quanto o envelhecimento e o rejuvenescimento são complexos.

Jesse Poganik, do Brigham and Women’s Hospital, em Boston, é um dos muitos cientistas que tentam entender exatamente o que há no organismo dos camundongos jovens que rejuvenesce os mais velhos. Muitas pesquisas têm se concentrado em procurar os segredos da juventude no sangue jovem, mas e se o segredo estiver, na verdade, nos órgãos jovens?

Para descobrir, ele e os colegas realizaram uma série de transplantes de coração em camundongos. Em seres humanos, os transplantes cardíacos normalmente envolvem a remoção de um coração danificado ou lesionado e a substituição pelo coração de um doador que, em geral, é muito mais jovem que o receptor. Ao analisar os registros hospitalares, Poganik constatou que a maioria dos receptores tinha cerca de 20 anos a mais do que seus doadores.

Os transplantes nos camundongos foram diferentes: os animais receberam um segundo coração, implantado no pescoço, um procedimento um pouco mais simples e que permite aos cientistas comparar os novos corações com os que já estavam no organismo. Em alguns casos, camundongos adultos jovens receberam o coração de um doador de meia-idade. Em outros, camundongos de meia-idade receberam corações jovens.

A equipe utilizou três “relógios do envelhecimento”, ferramentas moleculares usadas para estimar a idade biológica de tecidos e de organismos inteiros, para avaliar se os corações adicionais afetavam os camundongos de alguma forma. Esses relógios foram eficientes na previsão da idade cronológica dos camundongos que não receberam novos corações.

Poganik afirma que esperava observar um efeito recíproco e que, por exemplo, corações jovens pudessem beneficiar animais mais velhos. Em trabalhos anteriores realizados por outros integrantes de sua equipe, camundongos jovens que receberam corações velhos apresentaram um acúmulo de células senescentes em outros órgãos. Elas são células que param de se dividir, mas permanecem no corpo, e acredita-se que contribuam para o processo de envelhecimento, o que sugere que receber um órgão velho poderia envelhecer prematuramente um animal.

Mas não foi isso que ele descobriu. Quando ele e os colegas analisaram os corações transplantados entre quatro e seis meses após a cirurgia, constataram que os órgãos pareciam ter assumido a idade biológica dos receptores. Corações jovens ficaram mais velhos e corações velhos ficaram mais jovens. “O ambiente em que o órgão transplantado se encontra realmente determina como ele parece se comportar biologicamente”, afirma. Os resultados foram publicados online no bioRxiv (um arquivo online gratuito para a área das ciências da vida) na semana passada.

A equipe também analisou o sangue e outros órgãos de cada camundongo, incluindo o coração original, e ficou surpresa ao constatar que eles pareciam não ter sido afetados pela presença do novo coração, independentemente da idade do doador.

A descoberta foi comprovada por dados de transplantes cardíacos em seres humanos. Pessoas que recebem um coração de um doador normalmente precisam passar por uma série de biópsias após a cirurgia. Os minúsculos fragmentos de tecido cardíaco coletados de pessoas que receberam transplantes de coração no Brigham and Women’s Hospital vêm sendo armazenados há décadas. Quando Poganik e seus colegas avaliaram a idade biológica dessas amostras com os relógios do envelhecimento, encontraram um padrão semelhante: independentemente da idade do doador, um novo coração rapidamente assume a idade biológica da pessoa que o recebeu.

Não está claro por que isso acontece, mas João Pedro de Magalhães, que estuda o envelhecimento na Universidade de Birmingham, no Reino Unido, e não participou do estudo, acredita que isso possa ter alguma relação com o sistema imunológico do receptor. Talvez as células imunológicas que circulam no sangue possam afetar os marcadores de envelhecimento no novo órgão, diz ele.

Talvez os possíveis efeitos rejuvenescedores de um coração jovem acabem sendo diluídos por todos os outros componentes envelhecidos de um corpo mais velho, sugere Poganik. Ou talvez um único órgão simplesmente não seja suficiente para que se observe algum efeito.

Poganik espera que sua descoberta incentive os cirurgiões a considerar o uso de corações de doadores mais velhos, muitos dos quais são descartados sob a suposição de que não funcionarão tão bem. Máquinas usadas para preservar órgãos antes do transplante já estão mudando esse cenário, e Poganik participou de outro estudo que mostrou que esses dispositivos parecem rejuvenescer, até certo ponto, fígados de doadores.

Mas o estudo também destaca o quanto o envelhecimento é complexo. Se os órgãos parecem estar envelhecendo segundo uma medida, mas não segundo outra, como podemos obter um panorama completo da idade biológica de um órgão, ou de uma pessoa?

Essa complexidade significa que é pouco provável que os cientistas descubram uma forma verdadeira de reverter completamente o envelhecimento, diz Poganik. “Isso significaria que todos os aspectos do envelhecimento teriam de voltar no tempo”, afirma. Reverter danos ao DNA, danos estruturais e todas as outras formas de degradação que fazem parte do processo de envelhecimento, em todas as nossas diferentes células e tecidos, representa um desafio enorme.

“Há aspectos da idade biológica que provavelmente são reversíveis e há aspectos que provavelmente não são”, diz ele. Desculpe, Putin.

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