Dormir mal deixou de ser um problema individual para se tornar uma questão de saúde pública. No Brasil, cerca de um em cada cinco adultos dorme menos de seis horas por noite, enquanto quase um terço relata sintomas de insônia, de acordo com dados do último Vigitel (Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico) divulgados este ano pelo Ministério da Saúde.
“O número de insones é o dobro do que a prevalência global, que gira em torno de 16%”, alerta o psiquiatra Almir Ribeiro Tavares Júnior, presidente da Associação Brasileira de Medicina do Sono (ABMS). Um estudo recente do Instituto do Sono chama atenção ainda para outra alteração comum, a apneia obstrutiva do sono, condição clínica na qual obstruções repetitivas da garganta ocorrem durante o sono, gerando apneias (pausas respiratórias com duração mínima de 10 segundos) e/ou hipopneias recorrentes (quase apneias). Segundo a pesquisa, o problema atinge 37% dos paulistanos. “O que reforça que não só estamos dormindo pouco, como também sem qualidade”, diz a otorrinolaringologista Sandra Doria, pesquisadora do Instituto do Sono.
Qualidade do sono x tomada de decisões
Quais os motivos por trás dos números? O excesso de telas é o primeiro item a ser lembrado geralmente. De fato, a luz emitida por celulares, tablets e computadores reduz a produção de melatonina, o hormônio que ajuda o corpo a entender que é hora de dormir. Mas a resposta para essa questão, assim como a solução, é mais complexa. “Além da luz, existem outros estímulos ambientais que ajudam a regular o nosso relógio biológico. O principal deles é o nosso comportamento alimentar. Pessoas com horários regulares para comer tendem a ter um ciclo de sono e vigília muito mais estável”, afirma o médico John Fontenele Araújo, professor da Universidade Federal do Delta do Parnaíba (UFDPar), e da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), onde coordena o Laboratório de Neurobiologia e Ritmicidade Biológica.
“Para ilustrar a força disso, em nossas pesquisas avaliamos indivíduos cegos em regiões de baixa latitude, como em Natal (RN). Como eles não possuem a percepção visual da variação de luz entre o dia e a noite, demonstramos que eles conseguem ajustar e manter o seu ritmo de sono e vigília de forma saudável por meio de uma rotina alimentar regular”, acrescenta.
Já a psicóloga Tamiris Resende, doutora em saúde pública pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), ressalta ainda a pressão pela produtividade, que gera rotinas cada vez mais irregulares – um cenário que cobra seu preço. Em sua tese de doutorado, concluída em 2025, ela mostrou que tanto a curta duração do sono (menos de seis horas) quanto a longa duração (mais de oito horas) estão associadas a pior desempenho cognitivo em adultos. Para chegar a essa conclusão, Resende avaliou dados do ELSA Brasil (Estudo Longitudinal da Saúde dos Adultos), que acompanha cerca de 15 mil pessoas de 6 diferentes estados brasileiros. “Dormir mal, portanto, não significa só cansaço no dia seguinte. Pode causar também, a curto e longo prazo, prejuízos em funções importantes, como memória, atenção e tomada de decisões. O que vai ter influência direta no trabalho, nos estudos e, por consequência, na qualidade de vida das pessoas”, diz.
A explicação, possivelmente, está no sistema glinfático, uma via de depuração no cérebro em que o líquido cefalorraquidiano (LCR) circula pelos espaços perivasculares, com o objetivo de promover a remoção de resíduos metabólicos do tecido cerebral. “Sem essa faxina, que só funciona a pleno vapor quando dormimos, as toxinas se acumulam e prejudicam a comunicação entre os neurônios”, explica. Um estudo do MIT, publicado na Nature Neuroscience, no ano passado, reforça a tese. Conforme a pesquisa, o cérebro tende a ficar “nebuloso” após uma noite mal dormida devido a descargas do LCR que fluem para fora do cérebro, fenômeno que deveria ter acontecido durante o sono.
Novos tratamentos para insônia e apneia
Entre os novos tratamentos disponíveis para a insônia, o distúrbio do sono mais comum, está o lemborexante. Aprovado pela Anvisa no segundo semestre do ano passado, a medicação atua de forma diferente dos remédios tradicionalmente utilizados para dormir, como o hemitartarato de zolpidem. Enquanto este aumenta a ação do GABA, um neurotransmissor que reduz a atividade cerebral, gerando um efeito sedativo, o lemborexante bloqueia a ação da orexina, substância responsável por manter o estado de vigília. Uma das vantagens deste mecanismo, segundo os especialistas, seria o menor potencial de dependência.
Outra novidade é o uso da tirzepatida, princípio ativo de uma caneta emagrecedora, para o tratamento da apneia obstrutiva do sono. “Como a obesidade é um fator de risco para a doença, uma perda de peso significativa geralmente impacta o resultado final. Por isso, esse medicamento tem sido usado como coadjuvante em muitos casos”, afirma a otorrinolaringologista Sandra Doria, do Instituto do Sono. O psiquiatra Almir Ribeiro Tavares Júnior, presidente da ABMS destaca também a recente aprovação do fesolinetanto pela Anvisa, remédio não hormonal indicado para o tratamento de ondas de calor e suor noturno associados à menopausa, fatores que afetam diretamente a qualidade do sono da mulher nessa fase.
Já o canabidiol (conhecido pela sigla CBD), que inicialmente ganhou os holofotes por seu potencial no combate à insônia, até o momento carece de comprovação científica robusta, na visão de Sandra Doria. Uma pesquisa publicada no Journal of Clinical Sleep Medicine, da Academia Americana de Medicina do Sono, em 2024, por exemplo, concluiu que o efeito de uma dose de CBD à noite (150 mg) foi parecido com o de um placebo para a maioria dos sintomas de insônia.
A especialista, porém, lembra que o tratamento dos distúrbios do sono vai além dos medicamentos. “De modo geral, as medicações não resolvem o problema a longo prazo. A combinação com outras abordagens é fundamental, desde a psicoterapia até mudanças na rotina”, afirma Doria. Nem sempre é o que acontece. De acordo com uma pesquisa recente do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, os remédios para dormir são o tratamento mais comum, tanto prescritos quanto por automedicação: 60% dos participantes relataram fazer uso de algum tipo de medicação com essa finalidade, como os hipnóticos (44%), os benzodiazepínicos (37,9%) e os remédios de venda livre (antialérgicos e relaxantes musculares, 39%).
Como a tecnologia pode ajudar a melhorar o sono
Embora a tecnologia seja considerada vilã da qualidade do sono, tanto por afetar a produção de melatonina quanto por manter as pessoas acordadas por mais tempo, o uso de smartwatches, pulseiras fitness e anéis inteligentes para monitorar o sono é bem-visto pelos especialistas.
“Embora esses dispositivos ainda não tenham uma precisão clínica para diagnosticar doenças do sono, a estimativa geral que eles oferecem é muito boa e útil. Eu costumo recomendar o uso para que a pessoa monitore tendências a longo prazo. O ideal é olhar o padrão da semana inteira, de modo a avaliar se os horários estão regulares ou se a rotina está muito desorganizada, e não focar de forma obsessiva em uma única noite ruim”, diz o médico John Fontenele Araújo, da UFDPar.
A professora Priscila Oliveira, de 39 anos, passou a monitorar o sono em meados de 2023, quando ganhou um smartwatch. “Depois que aprendi a analisar os dados de saúde, que inclusive me ajudaram a identificar os sinais de covid uma vez por conta dos batimentos cardíacos e da saturação, não deixei mais de usar. Há cerca de oito meses, quando comecei a correr, troquei o aparelho por um modelo com mais recursos”, conta. “Não acho que influenciou a qualidade do meu sono, mas me ajudou a me policiar em alguns aspectos, como a dormir mais cedo”, acrescenta.
Outra vantagem dos chamados vestíveis não é individual, mas coletiva, segundo o presidente da ABMS: o volume de dados coletados. “Essas informações estão começando a ser amalgamadas e digeridas pela ciência”, diz Tavares Júnior. O UK Biobank, por exemplo, um dos maiores bancos de dados de saúde do mundo, convidou 60 mil de seus participantes a usar um acelerômetro de pulso (sensor de movimento usado em smartwatches) por sete dias a fim de medir a qualidade do sono deles.
Publicado na revista Sleep, um dos achados da pesquisa foi a associação de horários fixos para dormir e acordar à redução de até 48% no risco de mortalidade por todas as causas. Para os pesquisadores, a constatação reforça que o sono deve ser tratado como uma questão de saúde pública. E, embora a ciência continue desenvolvendo novos tratamentos e ampliando o conhecimento sobre o tema com a ajuda de dispositivos vestíveis, uma certeza já se consolidou: dormir não é perda de tempo.

