Eles estão comprando pedaços do futuro
Tecnologia & Sociedade

Eles estão comprando pedaços do futuro

Gigantes da tecnologia revelam suas próximas apostas pelas compras e aquisições que estão fazendo nos dias de hoje

O futuro raramente chega fazendo barulho. Às vezes ele aparece escondido numa pequena empresa em Tel Aviv, com poucos funcionários, quase desconhecida do público e com uma tecnologia difícil de explicar. Até que alguém resolve pagar quase US$ 2 bilhões por ela.

Foi o que a Apple fez no início deste ano ao comprar a Q.ai.

A startup israelense desenvolveu uma tecnologia capaz de combinar imagens, aprendizado de máquina e áudio para detectar movimentos muito leves do rosto e da pele. Entre as possibilidades está reconhecer uma fala sussurrada e até interpretar o que alguém tenta comunicar sem produzir som. É quase prever o que uma pessoa poderia dizer antes mesmo de ela abrir a boca.

Pode parecer muito pouco para despertar tanto interesse. Mas experimente imaginar AirPods ou óculos capazes de receber um comando sem que você precise pegar o telefone, tocar numa tela ou conversar em voz alta com uma assistente digital. Seria o futuro das interfaces e a morte do teclado e do mouse.

Por enquanto, não sabemos o que a Apple fará com a Q.ai. Talvez nem a Apple saiba exatamente. E esse é justamente o ponto deste texto. As grandes empresas de tecnologia não compram apenas produtos, faturamento ou concorrentes. Algumas vezes compram possibilidades. Pequenos pedaços de um futuro que ainda não sabem exatamente para que irá servir.

Há uma pista particularmente boa escondida na história da Q.ai. Em 2013, a Apple já havia comprado outra startup israelense chamada PrimeSense. Só que, desta vez, a tecnologia não ficou esquecida no fundo de uma gaveta. A tecnologia desenvolvida por meia dúzia de pessoas usando sensores tridimensionais ajudou a criar o caminho que levou ao reconhecimento facial dos iPhones.

Follow the money!

Estamos acostumados a procurar o futuro da tecnologia nos grandes eventos e convenções das big techs. Esperamos pela apresentação do próximo iPhone, acompanhamos conferências do Google, assistimos aos anúncios da Meta como quem acompanha as cerimônias do Grammy ou do Oscar. Mas talvez algumas das melhores pistas estejam longe dos tapetes vermelhos e dos palcos. É só seguir o dinheiro.

A NVIDIA é um exemplo dos mais interessantes. A explosão da demanda por computação transformou a fabricante de chips em uma empresa vital para o mundo. De uma hora para outra, a empresa passou a ser citada por nós como uma das grandes marcas do setor.

Enquanto escrevo esta coluna, a empresa negocia a compra da Hugging Face por US$ 12,9 bilhões. A transação está sendo feita em sigilo e, provavelmente, parece ser uma estratégia defensiva feita para proteger as IAs de código aberto. Para nós, essa pode parecer uma informação irrelevante. Para os desenvolvedores, é uma pista do que está vindo por aí. Essas novas IAs serão as grandes concorrentes que vão enfrentar OpenAI, Anthropic e Google.

A Hugging Face se transformou em um dos principais lugares para encontrar, compartilhar e experimentar modelos, bases de dados e ferramentas de inteligência artificial. Se a NVIDIA já representa poder de processamento com seus chips, comprar essa startup significa dar um salto em direção aos desenvolvedores e, por consequência, chegar ao mercado consumidor. A intenção é vir, cada vez mais, para perto de você e de mim.

Muitas empresas enriqueceram construindo promessas de futuro. Algumas vão dar errado. Outras provavelmente desaparecerão sem que a gente nem fique sabendo. Mas algumas podem se transformar em coisas tão comuns que esqueceremos que um dia pareceram estranhas.

Por isso, quando tentamos imaginar como será a tecnologia daqui a dez anos, talvez estejamos olhando demais para os produtos que as gigantes apresentam e pouco para as pequenas empresas que elas compram. Depois de estudar o mundo da tecnologia, a gente entende que o futuro não se mostra por inteiro. Alguém vai comprando pequenos pedaços até que ele seja formado.

Como nasceu esta coluna:

Estamos às vésperas de mais uma convenção da Apple. Seria mais um evento como qualquer outro. Mas não é. A empresa vai anunciar o seu novo CEO, John Ternus e, provavelmente, lançar o iPhone dobrável. Mas para escrever essa coluna sobre futuro, tive que olhar para o passado. Eu me lembrei de Steve Jobs. Ele gostava de antecipar as necessidades do consumidor e criar soluções antes de todos. Uma de suas mais famosas frases falava sobre a construção de futuro. Há quase 30 anos, Jobs disse: “As pessoas não sabem o que querem até que mostremos a elas.”

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