Bill Gates quer preservar o trabalho humano. Mas qual trabalho?
Inteligência artificial

Bill Gates quer preservar o trabalho humano. Mas qual trabalho?

Em um longo artigo sobre o futuro da inteligência artificial, o cofundador da Microsoft, Bill Gates, propôs uma ideia que chamou de Human Reserved (algo como “Reserva Humana”). Seria uma espécie de reserva de trabalho: mesmo que determinadas funções pudessem ser desempenhadas por máquinas, decidiríamos preservá-las para as pessoas. Gates compara o conceito às reservas naturais. Podemos construir prédios e estradas numa floresta, mas escolhemos não fazer isso porque entendemos que existe ali algo que vale a pena preservar. Por que não aplicar a mesma lógica a determinadas atividades humanas?

A inspiração é pessoal. Gates conta que, nos últimos anos de vida de seu pai, que morreu em 2020 depois de sofrer de Alzheimer, cuidadores conseguiam compreender suas necessidades mesmo quando ele já não conseguia expressá-las claramente. Para Gates, havia naquele cuidado algo insubstituivelmente humano. Uma máquina talvez pudesse tecnicamente executar parte daquele trabalho, mas ainda assim deveríamos escolher preservar a presença de uma pessoa.

É difícil discordar. Mas nesse ponto vale refletir: por que começamos a discutir com tanta intensidade uma reserva para o trabalho humano justamente agora? Existe um discurso recorrente de que “dessa vez é diferente”. Será mesmo?” Durante boa parte da história da tecnologia, máquinas substituíram seres humanos em atividades físicas. A mecanização da agricultura reduziu drasticamente a necessidade de pessoas no campo. Depois, as máquinas ocuparam fábricas, os robôs entraram nas linhas de montagem, os sistemas digitais eliminaram funções operacionais e por aí vai. Chamamos isso de produtividade.

É claro que houve conflitos, desemprego, movimentos sindicais e enormes custos sociais. Mas, olhando o movimento histórico de maneira mais ampla, não criamos santuários permanentes para aquelas ocupações sob o argumento de que havia algo essencialmente humano em plantar ou operar uma máquina. Aceitamos (ainda que muitas vezes a contragosto) que a tecnologia avançaria.

Acontece que agora ela chegou ao escritório. A inteligência artificial não está apenas disputando o trabalho dos nossos braços. Está entrando no território que, durante muito tempo, acreditávamos ser uma espécie de reserva natural da humanidade: escrever, programar, analisar, diagnosticar, ensinar, aconselhar, criar… Eu me incluo nessa história. Trabalho com comunicação, uma atividade predominantemente cognitiva. Talvez exista aí uma assimetria que valha a pena examinar. Quando uma máquina substituía força física, enxergávamos com mais facilidade um ganho de eficiência. Quando ela começa a substituir capacidades intelectuais, criativas ou relacionais, passamos a discutir com mais intensidade os limites morais da automação.

O próprio Gates pergunta, sem ter resposta pronta: quem decidiria quais trabalhos mereceriam ser preservados? Por quais motivos? Eu adiciono às perguntas dele: por que cuidar de alguém seria parte da nossa essência, mas plantar alimentos não? Por que dar uma notícia médica deveria permanecer conosco, enquanto fabricar o objeto que usamos diariamente pode ser completamente automatizado? Por que escrever um texto seria mais digno de proteção do que operar uma colheitadeira? Talvez não seja.

Talvez estejamos apenas olhando de maneira diferente para a automação porque, pela primeira vez, ela chegou a um feudo que até recentemente parecia relativamente protegido: o “nosso” (meu, do Gates, e talvez de você que nos lê). Isso não invalida a proposta dele. Há, inclusive, uma parte importante com a qual concordo: precisamos de um plano, mesmo sabendo que qualquer projeto desta escala beiraria a utopia e precisaria de ajustes constantes.

Esse cenário nos leva também a um debate sobre o próprio sistema capitalista e sobre a relação entre trabalho, renda, consumo e produção. É uma discussão que precisará envolver governos, empresas e sociedade. Provavelmente será necessário repensar impostos, redes de proteção social, jornadas de trabalho e formas de distribuir os ganhos de produtividade gerados pela inteligência artificial. Mesmo assim, tudo isso resolveria apenas uma parte do problema. Porque quando falamos sobre o futuro do trabalho, quase sempre começamos pelo dinheiro. Quem receberá salário? Quem pagará impostos? Quem consumirá? Como sustentar pessoas cujas ocupações desaparecerem?

Mas façamos um exercício ainda mais radical. Imagine que conseguíssemos resolver o problema do dinheiro. Máquinas produziriam riqueza suficiente para garantir casa, alimentação, saúde, educação e conforto para mais de oito bilhões de pessoas. Ninguém precisaria trabalhar para sobreviver. O que faríamos? Seríamos felizes?
Para muita gente, o trabalho nunca foi apenas salário. Ele organiza nosso tempo, cria relações e constrói identidade. Quando alguém pergunta “o que você faz?”, quase sempre respondemos com a nossa profissão, cargo ou nome da empresa. De alguma maneira, transformamos o trabalho em parte do que somos. Talvez seja isso que Bill Gates esteja realmente tentando preservar quando fala em “Human Reserved”.

O ponto que me incomoda na proposta de Gates não é a ideia de preservar algo para os seres humanos. É decidir antecipadamente que esse “algo” deve ser necessariamente uma determinada lista de profissões (ou tarefas). Porque as profissões mudam, as tecnologias mudam e aquilo que consideramos importante, ou essencialmente humano, também muda.
Minha humilde sugestão, na resposta global proposta por Gates, é que, em vez de decidir quais trabalhos precisaríamos salvar das máquinas, deveríamos tentar compreender o que existe no trabalho que precisamos salvar para nós mesmos. Utopia por utopia, que ela seja a mais ambiciosa possível.

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