Em junho de 2024, uma pequena empresa chamada Zanskar comprou uma usina de energia geotérmica no Novo México, nos Estados Unidos, que estava se deteriorando rapidamente. A água proveniente do reservatório subterrâneo ficava mais fria a cada dia, tornando a operação da usina economicamente inviável.
Agora, dois anos depois, ela voltou a operar em capacidade máxima graças a um novo poço. Com o auxílio de modelagem avançada e tecnologias modernas de perfuração, a empresa conseguiu identificar um local promissor para perfurar e reativar toda a operação.
Enquanto o mundo busca mais fontes de eletricidade sem emissões, disponíveis 24 horas por dia, sete dias por semana, a Lightning Dock mostra que ainda existe um potencial oculto nas profundezas sob nossos pés.
As usinas geotérmicas convencionais dependem da existência das condições subterrâneas adequadas. A água flui por rochas quentes fraturadas para captar calor e, em seguida, passa por uma usina para gerar eletricidade. Quando a água não está quente ou não flui em quantidade suficiente, a usina não consegue operar de maneira eficiente.
A Lightning Dock entrou em operação em 2013 e, historicamente, o local contou com dois poços de produção usados para abastecer a usina. É comum que as temperaturas em um poço diminuam ao longo do tempo, normalmente a uma taxa entre -17°C a -16°C por ano. No período anterior à aquisição do local pela Zanskar, as temperaturas na Lightning Dock caíram 10°C em cinco anos. Quando a empresa comprou a instalação, a água que entrava na usina estava a apenas 121 °C, enquanto a usina havia sido projetada para operar a temperaturas de pelo menos 154 °C.
Quando a Zanskar mapeou as condições subterrâneas da Lightning Dock usando técnicas avançadas de modelagem, descobriu que os poços atingiam apenas o topo do reservatório. Eles eram bastante rasos, com apenas 762 metros de profundidade, e não estavam na melhor localização, afirma Joel Edwards, cofundador e diretor de tecnologia da Zanskar.
A modelagem da empresa indicou que, caso fosse perfurado outro poço, mais profundo e em um novo local, a usina poderia operar de forma eficiente. A equipe perfurou um novo poço, que alcança 2,4 quilômetros de profundidade, e iniciou a operação em maio de 2025.
Após um ano completo, o poço ainda apresenta uma vazão superior a 4 mil galões por minuto. A usina “deu uma reviravolta completa”, afirma Edwards. “Parece muito promissor.”
Os dados obtidos até agora mostram que a usina deve continuar bem-sucedida por muitos anos. “Em última análise, é preciso manter essas instalações em operação por longos períodos para ter confiança em seu desempenho no longo prazo”, afirma Edwards.
O progresso na Lightning Dock também pode ser uma boa notícia para outros locais de exploração geotérmica. O entendimento convencional sobre a energia geotérmica é que, quanto maior a profundidade, maior a temperatura. Mas geralmente há uma desvantagem: nessas profundidades, as rochas ficam mais compactadas. Assim, perfurar mais fundo pode significar que a água quente não consiga fluir de maneira tão eficiente, um problema para quem tenta usá-la para gerar eletricidade em uma usina.
No entanto, a equipe constatou que a vazão, na verdade, aumentou na área onde o novo poço foi perfurado. “Isso muda fundamentalmente a forma de pensar não apenas sobre a Lightning Dock, mas também sobre todos os ativos hidrotérmicos dos Estados Unidos e o potencial que cada um deles pode ter”, afirma Ben Brenner, diretor de assuntos federais da Zanskar.
Ao longo do último ano de operação, a Lightning Dock gerou mais que o dobro da eletricidade que teria produzido com os poços antigos. Trata-se de uma usina relativamente pequena, com capacidade de 15 megawatts destinados à rede elétrica local, o suficiente para abastecer cerca de 11 mil residências nos Estados Unidos.
Nas últimas décadas, os desenvolvedores de petróleo e gás têm buscado recursos em profundidades cada vez maiores no subsolo. As operações começaram relativamente perto da superfície, mas hoje a produção de petróleo e gás pode chegar a profundidades de 6 quilômetros ou mais. “Acho que essa trajetória também vai se repetir na energia geotérmica”, afirma Edwards. Embora os campos de poços geotérmicos típicos tenham entre 900 metros e 1,5 quilômetros de profundidade, perfurações mais profundas podem se tornar mais comuns no futuro, acrescenta.
A empresa planeja ampliar o desenvolvimento no local da Lightning Dock. Com alguns anos de desenvolvimento e uma modernização da usina, seria possível extrair ainda mais eletricidade dessa área, afirma Edwards.
Tem havido muita expectativa e investimento em sistemas geotérmicos aprimorados, projetos que buscam ampliar as regiões onde os recursos geotérmicos podem ser utilizados. A Fervo Energy, por exemplo, usa técnicas de fraturamento hidráulico para abrir rochas que, de outra forma, seriam fechadas demais para a energia geotérmica tradicional.
Mas ainda há muitas “oportunidades fáceis de aproveitar” no setor geotérmico, afirma Edwards. Muitos desses recursos convencionais têm um grande potencial, eles só precisam ser reavaliados.

