A soberania em Inteligência Artificial não começa no modelo que conversa com o usuário. Antes de uma ferramenta gerar um texto, reconhecer uma imagem ou responder a uma pergunta, existe uma infraestrutura de processadores, memória, redes, armazenamento e energia. E diante desta camada menos visível, o Brasil tenta reduzir sua dependência tecnológica.
O Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC), ligado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), conduz a implantação de um novo supercomputador dedicado a aplicações de IA no Parque Científico e Tecnológico Augusto Severo (PAX), em Macaíba, no Rio Grande do Norte. A seleção do fornecedor ainda está em andamento. O edital da Fundação de Apoio ao Desenvolvimento da Computação Científica (FACC) prevê R$ 959 milhões para a contratação, enquanto o governo estima o investimento em cerca de R$ 1,06 bilhão.
A máquina será complementar ao Santos Dumont, supercomputador já operado pelo LNCC em Petrópolis, no Rio de Janeiro. A nova infraestrutura foi planejada para treinar e executar modelos avançados de IA, incluindo modelos de linguagem de grande escala (LLMs), além de atender universidades, instituições de pesquisa, órgãos públicos e empresas brasileiras.
Para Carla Osthoff, chefe do Serviço de Processamento de Alto Desempenho (SEPAD) do LNCC, a diferença em relação à estrutura atual está justamente na possibilidade de desenvolver modelos que hoje estão fora do alcance do país. “Permitirá ao país treinar modelos de linguagem e redes neurais complexas do zero em território nacional, algo inviável hoje devido às limitações do parque computacional atual”, afirma Osthoff.
Segundo Carla, a máquina colocará o Brasil entre as potências de processamento de IA. É justamente a partir dessa promessa que surge outra questão: o que mais é preciso, além de uma máquina desse porte instalada no Brasil, para a busca pela soberania tecnológica?
O computador é só uma parte
O edital deixa claro que o projeto não trata apenas de comprar servidores. A solução inclui aceleradores de IA, armazenamento, redes de alta velocidade, instalação, manutenção, licenças de software, documentação, treinamento e transferência de tecnologia.
A estratégia, segundo Carla, vai além do hardware. “A aquisição dos supercomputadores irá possibilitar o desenvolvimento não apenas de LLMs nacionais, como também toda a cadeia de software em torno delas”, afirma.
Essa cadeia é importante porque uma máquina fisicamente instalada no Brasil ainda pode depender de tecnologias desenvolvidas e controladas no exterior. O edital tenta reduzir esse risco com requisitos de portabilidade e interoperabilidade.
O edital também estabelece requisitos para o software e busca evitar a dependência de um único fornecedor. A estrutura deve permitir, por exemplo, a transferência de modelos para outros ambientes e aceita soluções de código aberto, proprietárias ou híbridas.
A marca e o modelo dos aceleradores, por exemplo, ainda não estão definidos. O documento permite diferentes tipos de componentes, como GPUs e NPUs, desde que atendam aos requisitos. Isso significa que parte importante da dependência tecnológica só poderá ser avaliada depois que o fornecedor for escolhido.
O edital transforma essa intenção em obrigações práticas. Estão previstas 320 horas de treinamento para profissionais brasileiros e 1.200 horas anuais de mentoria especializada. Pelo menos metade do conteúdo de treinamento deve ser independente do hardware do fornecedor. Também há uma meta de capacitar pelo menos 1.000 especialistas brasileiros em três anos.
A estratégia responde a um problema que vai além do supercomputador. O AI Index 2026, da Universidade Stanford mostra que a capacidade computacional global para Inteligência Artificial cresceu 3,3 vezes ao ano desde 2022, chegando a 17,1 milhões de equivalentes de H100 em 2025. O relatório também aponta a expansão da infraestrutura voltada ao treinamento e à execução de modelos avançados.
A conta da energia
Há ainda uma camada física dessa dependência. Um supercomputador precisa não apenas de chips e software, mas de energia, refrigeração e infraestrutura capaz de manter os equipamentos funcionando continuamente.
O edital estabelece um limite de 3 megawatts para os equipamentos de processamento, armazenamento e conectividade. Em termos mais concretos, são 3 milhões de watts, potência equivalente à de cerca de 30 mil lâmpadas de 100 watts ligadas ao mesmo tempo.
Também exige que os fornecedores apresentem estimativas de consumo e projetos elétricos e hidráulicos, incluindo temperatura, volume e pressão da água usada no sistema de resfriamento. O documento estabelece ainda como desejável um PUE (Power Usage Effectiveness, indicador de eficiência energética de data centers) de até 1,3.
Ainda não há, porém, uma estimativa pública de consumo anual ou de volume de água. Esses dados deverão fazer parte das propostas dos fornecedores.
O que fica no Brasil
A proposta do supercomputador, portanto, não é apenas aumentar a quantidade de processamento disponível. É fazer com que essa capacidade gere conhecimento e competências que permaneçam no país.
A estratégia também passa pelo controle dos dados e da própria operação da máquina. Segundo Carla, os supercomputadores podem viabilizar uma “nuvem de dados soberana”, permitindo que informações nacionais sejam tratadas e armazenadas no Brasil.
O Termo de Referência estabelece regras específicas para esse controle. O fornecedor não poderá enviar telemetria para servidores externos sem autorização prévia do comprador, incluindo informações sobre cargas de trabalho, resultados, registros de operação e metadados. Atualizações remotas de firmware, software ou configurações também dependerão de autorização explícita.
São exigências que vão além da localização física dos servidores. O edital também prevê transferência de tecnologia, documentação, treinamento e mentoria para as equipes brasileiras, além de uma estratégia de atualização tecnológica ao longo de três anos e cinco anos de garantia, suporte e manutenção.
A contratação do fornecedor ainda está em andamento. Depois dela, começam a instalação e os testes da infraestrutura, acompanhados das etapas de treinamento e transferência de tecnologia. Só então a máquina estará pronta para começar a operar no país.


