A menopausa além dos hormônios
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A menopausa além dos hormônios

A ciência amplia o olhar sobre uma fase que afeta cérebro, coração e metabolismo; revê antigos temores sobre a reposição hormonal e busca novas formas de tratamento

Em 2002, os primeiros resultados do estudo norte-americano Women’s Health Initiative (WHI) mostraram que a terapia de reposição hormonal combinada (estrogênio mais progestina) aumentava os riscos de doenças cardiovasculares, AVC e câncer de mama em mulheres na pós-menopausa. As descobertas provocaram mudanças relevantes no tratamento dos sintomas da menopausa e levaram à redução de até 80% da prescrição da terapia de reposição hormonal em vários países — incluindo o Brasil, de acordo com uma pesquisa da Unicamp.

Desde então, porém, novas análises dos dados do WHI e evidências acumuladas nas últimas duas décadas apontaram que essa conclusão precisava ser interpretada com mais cuidado. Um dos pontos que ganhou destaque foi a idade das participantes: a maioria tinha mais de 60 anos. “Os resultados obtidos naquele grupo não necessariamente se aplicavam a mulheres mais jovens. Por essa razão, hoje sabemos que existe uma chamada janela de oportunidade para a terapia de reposição hormonal. Idealmente, ela deve acontecer nos primeiros dez anos da menopausa ou ainda na perimenopausa, antes dos 60 anos”, afirma a ginecologista e obstetra Lucia Helena Paiva, professora da Universidade Estadual de Campinas e presidente da Comissão Especializada de Climatério da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo).

Outra mudança importante na forma de compreender a menopausa pelos olhos da ciência foi deixar de enxergá-la apenas como um evento ginecológico. A queda na produção de estrogênio, provocada pelo esgotamento da reserva de folículos ovarianos, repercute em diferentes sistemas do organismo, com efeitos especialmente relevantes sobre o cérebro e o sistema cardiovascular, por exemplo. “Isso acontece porque os receptores de estrogênio estão distribuídos por diversas partes do corpo e, boa parte, no cérebro. A falta do hormônio pode afetar vários órgãos, explicando essa diversidade de sintomas da menopausa. E, na prática, vemos que as maiores queixas das mulheres, como ondas de calor, névoa mental e insônia, estão relacionadas à ação do estrogênio no sistema nervoso central”, explica a especialista.

Como a menopausa afeta o cérebro e o coração

Não por acaso, a relação entre menopausa e cérebro é o tema central de O Cérebro e a Menopausa (HarperCollins), da neurocientista italiana-americana Lisa Mosconi, um dos livros mais influentes sobre o assunto nos últimos anos. “Por mais que os ovários tenham um papel nesse processo, é o cérebro que está no comando”, escreve a autora, que é professora da Universidade Cornell, nos Estados Unidos. De acordo com a neurocientista, estudos de neuroimagem demonstram que a diminuição dos níveis de estrogênio altera o fluxo e a energia do cérebro e, assim, influencia sua eficiência de maneira temporária.

As mudanças cerebrais da menopausa são necessariamente negativas? Para Mosconi, não. Em vez de interpretar as alterações provocadas pela queda do estrogênio apenas como uma espécie de deterioração, a autora as enxerga como uma adaptação. “A melhor maneira de explicar esse fenômeno é que o cérebro na menopausa está em um estado de ajuste, até mesmo de remodelação, como uma máquina que antes funcionava a gasolina e está se adaptando para rodar com eletricidade, tentando encontrar soluções alternativas”, conclui.

Nesse período de transição, o coração e os vasos sanguíneos também passam a enfrentar uma nova realidade metabólica. Como o estrogênio participa da regulação da função vascular, do metabolismo do colesterol e da distribuição da gordura corporal, com a queda dos níveis hormonais, é comum observar aumento do LDL, maior acúmulo de gordura visceral, alterações na sensibilidade à insulina e mudanças na estrutura e na função dos vasos. “Não é uma única mudança hormonal produzindo uma única consequência. É uma reorganização metabólica e vascular que ocorre dentro de um organismo que também está envelhecendo”, explica a cardiologista Thaís Pinheiro Lima, membro da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC).

Essa combinação reforça por que a transição menopausal deveria ser considerada um período importante para a prevenção cardiovascular, de acordo com a American Heart Association. Mas atribuir o aumento do risco exclusivamente à menopausa seria simplificar demais um processo que também envolve o envelhecimento, na visão da especialista. “A menopausa não cria o risco cardiovascular do zero. Muitas vezes, ela torna mais evidente uma trajetória de risco que vinha sendo construída silenciosamente há anos”, pontua Lima, enfatizando o papel de fatores como composição corporal, tabagismo, atividade física e sono.

Um novo olhar sobre a terapia de reposição hormonal

Em novembro de 2025, a FDA, agência reguladora de medicamentos dos Estados Unidos, anunciou o início da retirada dos alertas máximos de segurança (chamados boxed warnings) que associavam a terapia de reposição hormonal a riscos cardiovasculares, câncer de mama e provável demência. Anúncio que culminou, em fevereiro deste ano, com alterações nos rótulos de seis produtos. A decisão não significa que a terapia hormonal tenha se tornado universalmente segura nem que seja indicada para todas as mulheres. Em vez de uma advertência ampla, no entanto, a avaliação agora enfatiza ainda mais o perfil individual de cada paciente.

No Brasil, o novo Manual de Atenção às Mulheres na Transição Menopausal e Menopausa, publicado pelo Ministério da Saúde em 2026, também reforça a individualização da decisão e reconhece a “janela de oportunidade”. E quem pode se beneficiar da terapia de reposição hormonal? As últimas pesquisas mostram que o tratamento pode ser uma opção para a maioria das pessoas que apresentam sintomas da menopausa e não têm contraindicações importantes, levando em consideração a idade e o histórico médico da paciente, a natureza do sintoma e o tipo de hormônio.

Além da redução dos sintomas, há evidências de possíveis efeitos cognitivos. Um estudo britânico publicado na revista Alzheimer’s & Dementia, por exemplo, encontrou uma associação entre o uso de terapia hormonal da menopausa e menor risco de demência. Na análise de mais de 183 mil mulheres acompanhadas por cerca de 13 anos, o risco foi 10% menor entre as que haviam usado a terapia por pelo menos um ano, com as associações mais favoráveis observadas entre aquelas que iniciaram o tratamento dos 46 aos 56 anos. Os pesquisadores, no entanto, alertam que os resultados não comprovam uma relação de causa e efeito e, por isso, ainda são necessários estudos clínicos para determinar se o tratamento de fato protege contra a demência.

Existe ainda uma distinção relevante quando o assunto é o coração. “Durante muitos anos, a terapia de reposição hormonal ficou presa entre dois extremos: primeiro foi apresentada quase como uma forma de proteção cardiovascular; depois, passou a ser vista por muitas mulheres como algo necessariamente perigoso para o coração. Hoje sabemos que nenhuma dessas duas simplificações é adequada”, afirma a cardiologista Thaís Pinheiro Lima, da SBC. Para mulheres sintomáticas, especialmente aquelas com menos de 60 anos ou dentro dos primeiros dez anos da menopausa, sem contraindicações relevantes e com perfil cardiovascular favorável, a relação entre benefícios e riscos tende a ser mais conveniente. “Uma coisa é prescrever hormônio para prevenir infarto. Outra, completamente diferente, é entender que uma mulher com indicação legítima para terapia hormonal pode utilizá-la, após uma avaliação adequada, sem partir do pressuposto de que está necessariamente aumentando seu risco cardiovascular”, resume.

Para a ginecologista e obstetra Halana Faria, que participou da coordenação do manual do Ministério da Saúde, a resposta não cabe apenas em uma lista de sintomas. “A menopausa é um processo fisiológico cuja vivência pode ser mais ou menos desafiadora dependendo de um conjunto de fatores sociais e culturais: quem é essa pessoa, onde vive, o que sabe sobre menopausa, sua rede de apoio, trabalho, relações, raça e classe. Por isso, quando reduzimos o assunto somente a quem precisa ou não de reposição hormonal, até porque ela não é a única estratégia de cuidado que se pode oferecer a mulheres e pessoas com útero, deixamos de olhar para esse contexto mais amplo”, alerta.

Novos tratamentos para amenizar os sintomas da menopausa

De modo geral, a terapia de reposição hormonal é contraindicada em mulheres com histórico de alguns tipos de câncer, como os de mama ou útero, além de casos de sangramento vaginal sem causa esclarecida e doenças tromboembólicas ativas. Para esse grupo, a medicina segue em busca de novas terapias para amenizar os sintomas. Recentemente, por exemplo, a Anvisa aprovou o fezolinetanto, o primeiro medicamento não hormonal específico para o tratamento de ondas de calor e suores noturnos associados à menopausa no Brasil.

Em vez de repor o estrogênio de forma ampla, uma equipe de pesquisadoras do Instituto de Química da Universidade de São Paulo propôs uma alternativa mais segura à terapia de reposição hormonal na menopausa. Os métodos convencionais buscam compensar a queda de hormônios por meio de medicamentos que contêm estrogênio, associado ou não à progesterona, administrados em diferentes formas, como comprimidos, adesivos e cremes. Como o estrogênio também atua em tecidos como as mamas e o endométrio, sua ação pode estimular células tumorais que sejam sensíveis ao hormônio.

As pesquisadoras da USP, porém, administraram em modelos de células e animais uma droga experimental capaz de ativar seletivamente o receptor de estrogênio beta (ERβ), envolvido na regulação do metabolismo. Diferentemente de outros receptores de estrogênio, o ERβ não promove a proliferação dos tecidos reprodutivos, o que, em tese, poderia reduzir alguns dos riscos associados à reposição hormonal convencional. “Além disso, para a nossa surpresa, essa ativação isolada (realizada em ratas com ovários removidos e em culturas de células hepáticas) corrigiu alterações metabólicas típicas da menopausa, como glicemia elevada, dislipidemia e acúmulo de gordura”, explica Alicia Kowaltowski, professora do IQ-USP e coordenadora da pesquisa.

Kowaltowski comemora a repercussão do trabalho na comunidade acadêmica e na indústria farmacêutica, com a possibilidade de o receptor de estrogênio beta se tornar um novo alvo terapêutico. Para ela, o movimento faz parte de um crescimento mais amplo das pesquisas voltadas à saúde da mulher. “A quantidade de trabalhos nessa área está aumentando, e o Brasil tem potencial para se destacar, especialmente porque as mulheres são maioria entre os profissionais de bioquímica no país”, avalia.

O interesse crescente pela menopausa também se reflete na economia. Uma pesquisa da Grand View Research, empresa norte-americana de pesquisas, mostrou que o mercado mundial de remédios e suplementos para menopausa somou US$ 18,7 bilhões de dólares em 2025, com previsão de chegar a US$ 19,7 bilhões em 2026. Desse total, os suplementos respondem por cerca de 95% do valor. A ginecologista e obstetra Halana Faria, no entanto, vê esse crescimento com cautela. “Até pouco tempo, havia uma ênfase na mulher como reprodutora e, depois dessa fase, ela deixava de ser vista como alguém digna de atenção. Agora, vemos um boom de ofertas de possibilidades terapêuticas, muitas vezes sem base científica, que revela um interesse claro do mercado”, afirma. Para ela, sob o discurso do autocuidado, há o risco da menopausa ser transformada em apenas mais uma oportunidade de negócio. Além disso, de acordo com a especialista, tão importante quanto as últimas descobertas científicas é o acesso aos tratamentos, que ainda não estão amplamente disponíveis no SUS.

A cardiologista Thaís Pinheiro Lima, da SBC, ressalta que um dos maiores erros atuais talvez seja transformar toda a conversa sobre menopausa em uma discussão sobre fazer ou não fazer reposição hormonal. “A terapia de reposição hormonal é uma ferramenta muito importante e, para a mulher certa, pode transformar qualidade de vida de fato.

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Mas, quando a mulher entra nessa fase, é preciso entender como chegou até ali, considerando não apenas seus sintomas, mas seu perfil global”, afirma. Mais do que um marco do envelhecimento, acredita a especialista, a menopausa deveria ser encarada como uma chance de planejar, com mais precisão, como ela quer envelhecer.

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