Entre o mar e as montanhas, havia uma vila pobre. Nos invernos mais difíceis, faltava comida. Foi num desses dias gelados, depois de uma tormenta, que veio dar à praia “o Pescador”. Era um homem duro, de mãos grossas e pouca paciência. Ele observou como os moradores iam ao mar e resumiu: “Vocês pescam mal.”
Ensinou a observar a posição das aves, o movimento das correntes e as mudanças das marés. Os barcos começaram a voltar cheios. Passaram a ter peixe para comer, guardar e até vender. A vila prosperou. Deram ao Pescador uma boa casa e parte do que a pesca produzia. Ele enriqueceu. Ninguém se aborreceu. Afinal, todos se lembravam da fome.
Anos depois, numa carroça carregada de unguentos e beberagens chegou o Médico. Era eficiente, sério, mas de poucas palavras. Preferia fazer a explicar. Encontrou crianças magras, velhos que morriam cedo e famílias inteiras que adoeciam. Olhou a desgraça e constatou: “Vocês não sabem se cuidar”.
Mandou ferver a água, lavar as mãos e abandonar hábitos antigos. As crianças cresceram. Os velhos ficaram ainda mais velhos. As doenças diminuíram. A vila prosperou pela segunda vez. O Médico ganhou uma grande casa e também enriqueceu. Ninguém se incomodou. Afinal, todos se lembravam dos enterros.
O terceiro a chegar foi o Juiz. Veio no lombo de um cavalo cheio de livros e tratados. Era instruído, correto e muito rabugento. Encontrou uma vila próspera, mas cheia de conflitos. Do alto da sua autoridade, pronunciou: “Vocês não sabem conviver”.
Criou contratos, registrou acordos, organizou o comércio e estabeleceu que as mesmas regras deveriam valer para quem possuía dez barcos e para quem não possuía nenhum. As brigas desapareceram. A vila prosperou pela terceira vez. A ele foi dada uma casa e dinheiro. Ninguém se importou. Afinal, todos se lembravam da desordem.
Um dia, os moradores olharam ao redor e concluíram que finalmente tinham tudo. Comida. Saúde. Ordem. O Pescador conhecia o mar. O Médico, o corpo. O Juiz, as leis. Respeitavam-se, embora cada um gostasse de ser considerado indispensável.
Foi então que chegou o Estrangeiro. Era jovem, bonito, educado e não trazia nenhuma posse além do que vestia. Perguntou se poderia se instalar numa casa abandonada no alto de uma colina. Ninguém sabia exatamente o que fazia. Talvez porque não fizesse nada. Mas estava sempre disponível. Se alguém se aproximava, tinha tempo. Se alguém queria conversar, ouvia. Nunca parecia cansado ou impaciente. E possuía uma qualidade que faltava aos outros três. O Estrangeiro cativava as pessoas com um tom de voz calmo e fazia com que elas se sentissem interessantes.
Raramente discordava. Diante de uma boa ideia, elogiava. Diante de uma ideia ruim, encontrava alguma qualidade. E, se alguém dissesse uma completa bobagem, inclinava a cabeça e respondia: “Ah, claro. Olhando por esse lado, você pode ter razão”.
A vila adorou. Começaram a subir a colina apenas para conversar. Falavam sobre tudo e sobre o nada. Com o tempo, quiseram recompensá-lo. Ofereceram dinheiro, terras e uma casa maior que a dos três homens rabugentos. Recusou todas as ofertas com um sorriso no rosto. Pediu apenas uma coisa.
Pediu que, todas as noites, o conselho da vila escolhesse uma pessoa diferente para subir a colina. Homem ou mulher. Velho ou criança. Pescador, comerciante, parteira, professor, agricultor. Diante da fogueira, cada um deveria compartilhar algo que soubesse: uma história, uma experiência, uma curiosidade, um segredo de profissão, qualquer conhecimento que considerasse importante. O Estrangeiro apenas ouviria. No final, a pessoa poderia fazer uma pergunta. Qualquer pergunta.
Na primeira noite foi uma criança. Depois uma parteira. A seguir, um carpinteiro. Uma viúva. Até o mendigo da vila teve sua oportunidade. Todas as noites alguém subia com uma história. Todas as noites descia com uma resposta. No início, eram boas. Depois ficaram surpreendentes. Com o passar do tempo, tornaram-se extraordinárias.
O Estrangeiro sabia sobre colheitas sem nunca ter plantado. Sobre comércio sem jamais ter vendido. Sobre doenças sem nunca ter curado alguém. Sobre disputas sem ser árbitro. Sobre tempestades sem ter enfrentado o mar. Nunca foi melhor que nenhum dos três homens em sua própria especialidade. Mas sabia um pouco de todas. Seu diferencial era juntar cada vez mais conhecimento e ter uma memória infalível.
A direção dos passos da vila começou a mudar. Diante de uma dúvida, as pessoas já não procuravam primeiro o Pescador, o Médico ou o Juiz. Todos subiam a colina. Os homens perceberam a mudança. Primeiro ficaram curiosos. Depois, desconfiados. Por fim, tiveram medo. Continuavam ricos e respeitados. Mas já não eram mais tão necessários como antes.
Até que certa manhã a fogueira estava apagada. A casa estava vazia. O Estrangeiro havia desaparecido. Naquela semana, uma criança adoeceu, dois irmãos disputaram um pedaço de terra e os pescadores ficaram sem saber se iriam ao mar depois de um céu estranho.
Sem o homem da colina, voltaram a procurar os três velhos. Só que dessa vez, os especialistas fizeram algo diferente. Sentaram-se juntos. O Pescador escutou com atenção. O Médico fez perguntas que nunca tinha feito. O Juiz escreveu os pontos em comum. Discutiram durante toda uma noite. Concordaram e discordaram.
Quando amanheceu, tinham respostas melhores do que as que cada um teria dado individualmente. Na noite seguinte, reuniram-se novamente. Outros moradores chegaram. Alguém acendeu uma fogueira. O carpinteiro veio num dia, o ferreiro no seguinte e a freira no outro.
Meses depois, perguntaram aos três se esperavam que o Estrangeiro voltasse. Olharam um para o outro e um deles disse: “Não sei.” Naquela vila, fazia muito tempo que ninguém considerava “não sei” uma boa resposta. Assim foi.
Vivemos numa sociedade em que dizer “não sei” parece cada vez mais um defeito. Queremos respostas rápidas, eficientes e, de preferência, agradáveis. A Inteligência Artificial se encaixa perfeitamente nesse desejo. Conhece histórias que não viveu, fala sobre experiências que nunca teve e reúne mais conhecimento do que qualquer pessoa poderia acumular sozinha. E suas respostas estão ficando muito boas.
A questão talvez não seja competir com ela, mas decidir quanto do nosso próprio conhecimento estamos dispostos a abandonar em troca da sensação confortável de que sempre existe uma resposta. Ela nos bajula, nos faz sentir mais inteligentes e nos seduz a ponto de ganhar nossa confiança. Talvez ainda precisemos do Pescador, do Médico e do Juiz. Principalmente quando eles ainda tiverem o que nos dizer.
Como nasceu esta coluna:
Eu estava vendo uma entrevista de Karen Hao no YouTube. Ela, que já foi do time de jornalistas da MIT Technology Review, falava sobre seu livro, “O império da IA” com Naomi Klein. As duas acharam graça em como Sam Altman, Elon Musk e Mark Zuckerberg passaram a se referir às ferramentas de IA como “oráculos”, “magos” e “semideuses”. Foi essa constatação que me levou a criar “O Estrangeiro” sedutor que tinha todas as respostas.


