Funcionários da divisão de chips da Samsung trocam a empresa pela rival SK Hynix
Inteligência artificial

Funcionários da divisão de chips da Samsung trocam a empresa pela rival SK Hynix

À medida que a disputa pelo futuro dos chips de IA se desenrola, a briga pelos melhores talentos também se intensifica

Lee, engenheiro da divisão de semicondutores da Samsung, encerra o expediente quando seu turno termina. Antes, ele trabalhava por mais horas e se esforçava além do necessário para se destacar em seus projetos. Mas, ultimamente, tem ido direto para casa a fim de preparar a candidatura a uma vaga na SK Hynix, fabricante de chips sul-coreana e rival da Samsung, além de compartilhar com os colegas dicas para elaborar uma declaração pessoal excepcional. Até seu chefe o incentiva a fazer a mudança.

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“Meu líder de equipe diz para todos nós abandonarmos o barco e irmos para a SK Hynix”, afirma Lee. Ele e seus colegas estão desmotivados com o bônus de US$ 476 mil que a SK Hynix deverá pagar aos funcionários, impulsionada pelos lucros recordes obtidos com a fabricação dos chips de memória de alta largura de banda, ou HBM (high-bandwidth memory), que alimentam os aceleradores de IA da Nvidia. O valor supera em muito o que os funcionários da divisão de chips da Samsung deverão receber e está provocando um êxodo.

À medida que o boom da IA se intensifica, as gigantes dos semicondutores vêm travando uma feroz guerra por talentos, com bônus chamativos, recrutamento agressivo e até uma liminar judicial. Quem vencer poderá desequilibrar a disputa pelo domínio da próxima geração de chips HBM, que estão no coração do boom da IA.

“Com exceção dos nossos dois líderes, toda a minha equipe, composta por 30 pessoas, acabou de se candidatar à SK Hynix”, diz Lee, referindo-se a uma vaga publicada pela empresa em julho. Lee, que trabalha na Samsung há três anos, chegou a se candidatar a uma posição de nível inicial na rival. Um colega que trabalha na Samsung há oito anos se candidatou à mesma vaga. Ambos foram rejeitados, mas eles têm esperança de receber um retorno sobre uma vaga destinada a engenheiros mais experientes.

Todos os funcionários da Samsung e da SK Hynix ouvidos pela MIT Technology Review pediram para ser identificados apenas pelo sobrenome ou por um pseudônimo, pois temiam retaliações dos empregadores. A Samsung não quis comentar e a SK Hynix não respondeu aos pedidos de comentário.

Após longas negociações com o sindicato, a Samsung chegou a um acordo, em maio, para distribuir anualmente aos funcionários, durante dez anos, 10,5% do lucro operacional da divisão de semicondutores na forma de bônus, principalmente em ações da empresa, que só poderão ser resgatadas após três anos. A medida foi adotada depois que a SK Hynix concordou, no ano passado, em distribuir aos funcionários 10% do lucro operacional, o que corresponde a US$ 476 mil por funcionário neste ano, principalmente em dinheiro.

Na Samsung, porém, o bônus de cada divisão está vinculado ao próprio resultado financeiro. Os funcionários da divisão de memória, que também está obtendo ganhos extraordinários com a fabricação de chips HBM, receberão um bônus de, aproximadamente, US$ 400 mil (pouco mais de 2 milhões de reais) por pessoa neste ano. Já aqueles que, como Lee, trabalham na divisão de foundry (chips por encomenda) da Samsung, que fabrica chips lógicos (que processam dados) projetados por empresas como Tesla e Google e vem operando com prejuízo, receberão um bônus de aproximadamente US$ 135 mil (cerca de 691 mil reais).

Funcionários disseram à MIT Technology Review que, segundo a Samsung, a empresa não pode oferecer o mesmo nível de bônus às divisões que não apresentam bons resultados. Depois de acompanhar por meses a disputa do sindicato com a empresa, Lee afirma ter ficado decepcionado com o que acabou recebendo: “Mesmo que a Samsung tenha um bom desempenho no futuro, não acho que parte disso vá chegar até mim.”

Os bônus inferiores estão fazendo com que a SK Hynix pareça subitamente atraente para esses trabalhadores. Segundo uma pesquisa realizada pelo sindicato da Samsung em junho, 81,5% dos funcionários da divisão de foundry e quase metade dos empregados de toda a divisão de semicondutores afirmaram que gostariam de ir para outra empresa nos próximos dois anos. Em abril, Choi Seung-ho, líder do sindicato da Samsung, disse que, nos quatro meses anteriores, mais de 200 sindicalizados haviam deixado a empresa para trabalhar na SK Hynix. No Blind, fórum anônimo sobre o ambiente de trabalho, um coro de engenheiros da Samsung insatisfeitos admite que deseja desertar para a SK Hynix em busca de bônus maiores.

Durante décadas, a SK Hynix viveu à sombra da Samsung. Era uma fabricante de memórias menor e mais aguerrida, ignorada pelos melhores estudantes de engenharia das universidades, na hora de se candidatarem a empregos. Mas, em 2019, a Samsung reduziu a equipe de HBM, apostando que o mercado continuaria restrito a um nicho, enquanto a SK Hynix redobrou os investimentos na tecnologia. Em seguida, o boom da IA impulsionou a demanda por HBM, que fornece aos chips de IA as enormes quantidades de dados de que precisam em velocidades altíssimas, elevando os preços a níveis sem precedentes. A SK Hynix, agora, lidera o mercado global de HBM, enquanto a Samsung tenta recuperar o atraso. As duas empresas ultrapassaram US$ 1 trilhão em valor de mercado no mês de maio e, em junho, a SK Hynix chegou a desbancar brevemente a Samsung como a empresa mais valiosa da Coreia do Sul.

Prevendo que a demanda por chips de memória continuará crescendo, as gigantes dos semicondutores estão fazendo investimentos agressivos para expandir seus negócios. No mês passado, as empresas anunciaram planos de investir mais de US$ 2 trilhões até 2040, incluindo um polo gigante de semicondutores em Yongin, cidade ao sul de Seul. Para formar a equipe necessária à expansão, a SK Hynix contratou 2.152 funcionários apenas no primeiro semestre de 2026 e pretende dobrar a capacidade de produção em cinco anos. A Samsung planeja contratar 60 mil funcionários nos próximos cinco anos, especialmente para a divisão de semicondutores. Mesmo assim, a oferta de profissionais será insuficiente: a indústria de semicondutores da Coreia do Sul precisará de cerca de 304 mil trabalhadores até 2031 e enfrentará uma escassez de aproximadamente 54 mil profissionais, de acordo com a Associação da Indústria de Semicondutores da Coreia.

Agora, as rivais de longa data estão inundando os trabalhadores com grandes ofertas de bônus para reter e atrair talentos. “A SK Hynix parece mirar os engenheiros da Samsung durante as contratações porque ela é uma concorrente”, diz Baek, gerente da SK Hynix. “Pelo que ouvi internamente, os grandes bônus por desempenho que recebemos tinham como objetivo atrair talentos de nossa concorrente.”

Os tribunais estão começando a intervir. Em julho, a Samsung obteve uma liminar que impede dois ex-funcionários da divisão de chips de trabalhar na SK Hynix por 18 meses, sob o argumento de que os chips constituem uma tecnologia essencial para o país e merecem proteção. “Diante da intensa concorrência no setor de semicondutores, é necessário estabelecer uma ordem de mercado justa”, decidiu o tribunal.

O êxodo de talentos ameaça uma vantagem crucial que a Samsung ainda mantém na disputa pela HBM. “A Samsung é a única fabricante de memórias do mundo que possui um negócio de foundry”, afirma Park Jun-young, especialista em semicondutores do Laboratório de Antropologia Industrial, um instituto de pesquisa, que trabalhou na Samsung durante uma década.

Na geração mais recente da tecnologia, conhecida como HBM4, o chip lógico na base de cada conjunto de memórias precisa ser fabricado com o tipo de processo avançado que apenas as foundries (as fábricas de chips sob encomenda) utilizam. A Samsung consegue fazer isso internamente, enquanto a SK Hynix terceiriza a produção para a gigante taiwanesa TSMC. “Caso a Samsung continue perdendo engenheiros na divisão de foundry, a colaboração com a divisão de memória poderá se tornar difícil”, diz Park. “A SK Hynix, que antes tinha apenas uma equipe de memória e agora está contratando engenheiros de foundry, poderá realizar pesquisas melhores sobre HBM.”

Choi, engenheiro que trabalha na Samsung há sete anos, diz que já foi uma estrela de sua equipe e recebeu avaliações de desempenho muito positivas de seus gestores. Ultimamente, porém, ele e seus colegas têm se ocupado em se candidatar a todas as vagas da SK Hynix que encontram. “Avisamos uns aos outros quando uma nova vaga da SK Hynix é publicada”, afirma. “Sempre há mais trabalho a fazer além de nossas atribuições básicas. Mas não adianta fazer isso.”

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