Em 3 de julho, enquanto uma onda de calor atingia a região, a rede elétrica do estado de Nova Iorque, nos Estados Unidos, importou 52 gigawatts-hora de eletricidade do Canadá, o suficiente para atender a cerca de 9% de toda a demanda do estado naquele dia.
Parte dessa energia foi transportada por uma linha de transmissão de 546 quilômetros que se estende de Quebec ao bairro do Queens, chamada Champlain Hudson Power Express (CHPE). Ela entrou em operação em maio e é oficialmente a mais longa linha subterrânea de transmissão da América do Norte.
Talvez não pareça tão empolgante, mas essa estrutura pode ter grande importância para o planejamento da rede elétrica do estado e para as emissões. Ela pode suprir até 20% da demanda de eletricidade da cidade de Nova Iorque, em grande parte com a abundante energia hidrelétrica de Quebec.
Há uma complicação: a linha ficou fora de operação durante a maior parte de julho, e alguns especialistas estão preocupados com a forma como a seca afetará o fornecimento de energia que a abastece. Vejamos como a CHPE pode ajudar a moldar o futuro da rede elétrica norte-americana e quais barreiras precisa superar para fazer a diferença.
O planejamento dela começou há 15 anos, com o processo de licenciamento formalmente iniciado em março de 2010. A ideia era construir uma infraestrutura que conectasse melhor Quebec ao sul do estado de Nova Iorque.
Mais de 99% da eletricidade da província canadense vem de fontes renováveis. A maior parte da demanda é atendida pela energia hidrelétrica, embora a capacidade eólica da província esteja crescendo rapidamente. Nova Iorque tem geração hidrelétrica própria, além de energia nuclear e eólica, mas o estado ainda depende de combustíveis fósseis para a maior parte de sua geração de eletricidade.
A Transmission Developers, empresa pertencente à gestora de ativos alternativos Blackstone, e a Hydro-Québec, responsável pela geração e transmissão de energia na província, formaram uma parceria para construir a CHPE. As obras começaram no fim de 2022 e foram concluídas no início deste ano. O custo total do projeto, financiado pela iniciativa privada, chegou a 6 bilhões de dólares.
A construção dessa linha foi um feito notável. Ela é formada por um feixe de dois cabos de energia de corrente contínua de alta tensão, cada um com aproximadamente 13 centímetros de diâmetro. Os responsáveis pelo projeto enterraram o feixe no solo ou sob a água ao longo do estado de Nova Iorque. Grande parte da linha foi instalada no fundo do rio Hudson, o que exigiu embarcações especiais que lançavam jatos de água nas profundezas dos sedimentos para abrir valas destinadas aos cabos.
Interligar redes elétricas pode ajudar a acelerar a transição para abandonar os combustíveis fósseis. A capacidade de transportar energia para onde ela é necessária também pode ajudar a limitar a quantidade de nova capacidade de geração que precisamos construir. Pesquisas demonstram que a interconexão pode contribuir para reduzir as emissões e os custos do sistema.
Mas a CHPE teve um início lento e já sofreu duas interrupções. A primeira, em 1º de julho, teria sido causada pelo desligamento de um conversor no lado canadense da fronteira. A segunda interrupção começou em 4 de julho, e a linha de transmissão continuava fora de operação na manhã de 22 de julho.
Alguns especialistas afirmam que isso não é incomum em um novo projeto de infraestrutura. Outras linhas de transmissão enfrentaram desafios semelhantes no início das operações, e os equipamentos só são realmente testados por completo quando entram em funcionamento, disse Normand Mousseau, professor de física da Université de Montréal, ao jornal Gazette.
As autoridades identificaram o problema em um trecho danificado do cabo no lado norte-americano da fronteira, e a empresa que fabricou a linha enviou especialistas para investigar a causa, segundo reportagem da RTO Insider, uma publicação especializada.
O trecho danificado do cabo foi removido e substituído, afirma Lynn St-Laurent, porta-voz da Hydro-Québec. “Atualmente, estima-se que o trabalho restante, incluindo os testes necessários após o reparo, seja concluído até o fim de semana.”
Problemas semelhantes afetaram a linha New England Clean Energy Connect, que entrou em operação em janeiro e se estende por 233 quilômetros, de Quebec ao Maine. Esse projeto também sofreu interrupções, e pouquíssima energia adicional chegou ao Nordeste dos Estados Unidos.
A boa notícia para Nova Iorque é que a rede elétrica ainda não dependia da CHPE. “Nossos estudos de planejamento não presumiam que a CHPE estaria disponível neste verão, e esse foi um dos motivos pelos quais a rede operou de forma confiável durante a onda de calor no início deste mês”, afirmou em comunicado Kevin Lanahan, porta-voz do New York Independent System Operator, empresa responsável pela gestão da rede elétrica do estado. “Um princípio fundamental do planejamento da confiabilidade é não depender de um único projeto.”
A ideia é que, futuramente, estados e regiões possam depender, ao menos em parte, desses projetos, o que aumenta a pressão para que eles funcionem sem problemas: construir enormes linhas de transmissão é um investimento importante de longo prazo. Nos próximos anos, à medida que os equipamentos forem submetidos a testes de estresse e as concessionárias passarem a confiar mais na confiabilidade dos projetos, eles poderão desempenhar um papel maior na rede elétrica.
Um aspecto que merece atenção daqui para a frente é a situação do sistema hidrelétrico de Quebec: a região enfrenta uma seca intensa há três anos, que vem reduzindo as reservas de água usadas para gerar eletricidade. Isso pode significar que nem sempre haverá energia hidrelétrica em abundância para ser enviada pela fronteira, mesmo que as linhas de transmissão sejam capazes de transportá-la.



