Durante quase um século, a indústria dos diamantes construiu uma das mais bem-sucedidas campanhas publicitárias da história. Agora, começa a enfrentar a tecnologia. Será que ela sobrevive?
A história começa com uma frase criada para vender pedras preciosas, passa por James Bond e chega às máquinas capazes de fabricar, em poucas semanas, aquilo que a natureza levou bilhões de anos para produzir.
Um diamante é para sempre
Fundada em 1888 na África do Sul, a De Beers tornou-se a empresa mais importante da história moderna dos diamantes. Durante boa parte do século XX, exerceu enorme influência sobre a produção e a comercialização mundial das pedras. Mais do que uma mineradora, a companhia ajudou a construir o próprio mercado moderno de diamantes.
Em 1947, Frances Gerety, redatora da agência N.W. Ayer, criou para a De Beers uma das frases mais bem-sucedidas da história da publicidade: “A Diamond Is Forever”. um diamante é para sempre. A genialidade do slogan estava em não falar de mineração, quilates ou geologia. A frase associava uma propriedade física à pedra, sua extraordinária resistência, à ideia de permanência do casamento. O diamante deixava de ser apenas uma pedra preciosa e tornava-se a representação material de um compromisso que deveria durar para sempre.
Dos anúncios para James Bond
A frase rapidamente ultrapassou as fronteiras da publicidade. Ian Fleming tomou contato com a expressão utilizada pela De Beers e acabou escolhendo Diamonds Are Forever como título do quarto romance protagonizado por James Bond, publicado em 1956.
Em 1971, Ian Fleming utilizou a frase “Diamonds Are Forever” para lançar aos cinemas o novo filme de 007, , lançado no Brasil como “007 — Os Diamantes São Eternos”. A partir daí, as vendas decolaram. A associação era perfeita. Diamantes eram sinônimo de luxo e eternidade.
Veja no Gráfico 1 como o preço do diamante atingiu seu auge com a peça.
Gráfico 1

A valorização
Junto com essa valorização, cientistas começaram a tentar reproduzir diamantes em laboratório. Assim como ainda hoje se busca produzir artificialmente materiais e elementos
raros ou valiosos, o objetivo era encontrar uma maneira de recriar aquilo que a natureza havia levado enormes períodos de tempo para formar.
Havia, porém, uma fragilidade escondida nessa história. Diamantes podem ser extraordinariamente duráveis, mas isso não significa que sua escassez econômica, nem o luxo associado a ela, também seja eterna. Durante muito tempo, essas características pareceram inseparáveis porque a oferta de novos diamantes dependia essencialmente da descoberta e da exploração de depósitos naturais.
Se a tecnologia conseguisse romper essa dependência, algo fundamental mudaria. O diamante continuaria sendo diamante, com suas propriedades físicas praticamente intactas, mas a lógica econômica construída em torno de sua raridade poderia deixar de ser a mesma.
Estava lançado o desafio.
O primeiro diamante sintético
A primeira grande iniciativa ocorreu na década de 1950. Em 1954, pesquisadores da General Electric conseguiram produzir diamantes sintéticos utilizando enormes pressões e temperaturas. O método, conhecido como HPHT, High Pressure, High Temperature, procurava reproduzir artificialmente as condições existentes nas profundezas da Terra.
Os resultados ainda estavam longe de representar uma ameaça relevante à indústria de joias. As pedras produzidas eram pequenas e pouco adequadas para esse mercado. Havia, porém, uma demanda importante para aplicações industriais. A extrema dureza do diamante fazia dele um excelente material para corte, perfuração e abrasão.
Produzir uma gema grande, transparente e comercialmente atraente continuava sendo um desafio muito mais difícil. Mas as aplicações industriais deram aos diamantes sintéticos um mercado real e mantiveram o desenvolvimento da tecnologia economicamente viável.
O diamante de laboratório ainda não havia chegado às joalherias. Mas também já não era apenas um experimento de laboratório.
A produção ganha eficiência
A partir dos anos 2000, outra técnica começou a ganhar eficiência: a CVD (Chemical Vapor Deposition). Com ela, tornou-se possível produzir cristais maiores e com qualidade suficiente para o mercado de joias. Diferentemente do HPHT, o método permite formar diamantes sem reproduzir as gigantescas pressões encontradas no interior da Terra. Uma pequena semente de diamante é colocada em uma câmara, onde átomos de carbono são gradualmente depositados sobre sua estrutura cristalina.
A diferença de tempo é impressionante. A natureza pode levar centenas de milhões ou bilhões de anos para formar um diamante. Uma instalação industrial consegue fazer crescer
uma pedra em questão de semanas. Mais importante do que a velocidade, entretanto, é a possibilidade de repetir o processo em escala.
Na década de 2010, a combinação entre qualidade, escala e queda dos custos começou a transformar essa conquista científica em uma ameaça econômica real ao mercado tradicional de diamantes, antecipada por Roger Spitz aqui na MIT Technology Review Brasil.
Criar diamantes não dependeria mais da mineração.
Diamante de laboratório não é imitação
Há uma distinção fundamental entre um diamante produzido em laboratório e uma imitação de diamante. Zircônia cúbica não é diamante. Moissanita também não. Um diamante produzido por CVD, entretanto, possui essencialmente a mesma composição química e a mesma estrutura cristalina de um diamante natural.
A diferença fundamental está na origem. Um foi formado no interior da Terra ao longo de enormes escalas de tempo; o outro cresceu dentro de uma instalação industrial. Para uma parcela cada vez maior dos consumidores, essa diferença parece importar menos. Ainda mais que a imagem do diamante natural passou a conviver com questionamentos ambientais e éticos relacionados à mineração e aos chamados diamantes de conflito, tema que ganhou enorme projeção popular com o filme Diamante de Sangue, de 2006, estrelado por Leonardo DiCaprio.
Os números ajudam a dimensionar essa transformação. Em 2019, apenas 6,3% dos anéis de noivado avaliados pela seguradora de joias BriteCo (Diamond Report 2025) tinham um diamante produzido em laboratório como pedra principal. Em 2025, essa participação havia saltado para algo entre 47% e 48%.
Nos últimos seis anos, portanto, o diamante sintético passou de uma escolha relativamente marginal para quase metade dos anéis de noivado observados pela empresa. A tecnologia não havia apenas conseguido reproduzir o diamante. Começava a reproduzir também o seu lugar no mercado.
Quando o preço começa a cair
A transformação econômica tornou-se especialmente visível a partir da segunda metade da década de 2010 (Gráfico 2), quando diamantes produzidos em laboratório começaram a chegar ao mercado de joias em volumes comerciais relevantes. A partir daí, passou a atuar uma força conhecida em praticamente todas as indústrias tecnológicas: a curva de aprendizado.
Quanto maior a produção, maior o conhecimento acumulado. Processos melhores reduzem custos. Custos menores atraem novos produtores. Novos produtores ampliam novamente a
capacidade instalada. Aquilo que dependia de uma mina passa a responder à lógica de uma fábrica, e fábricas podem ser replicadas.
Gráfico 2

A tecnologia como máquina de abundância
Grande parte da história tecnológica pode ser interpretada como uma sucessão de ataques à escassez. Informação já foi cara de reproduzir. Computação já foi extremamente escassa. Armazenamento digital já custou fortunas por megabyte. Fotografias, músicas, mapas e conhecimento já dependeram de suportes físicos difíceis de copiar e distribuir.
A digitalização reduziu dramaticamente o custo marginal de reprodução de muitos desses bens. No caso dos diamantes, o fenômeno acontece no mundo físico: conhecimento, energia e equipamentos começam a substituir tempo geológico. A tecnologia transforma progressivamente um recurso raro em um produto fabricável.
Futuristas já preveem que a aceleração da Inteligência Artificial vai gerar a era da abundância.
Tecnologia e abundância
A questão que surge agora é até que ponto uma indústria construída em torno da raridade consegue preservar seu valor quando essa raridade começa a desaparecer. Os diamantes podem continuar sendo “para sempre” no sentido físico da expressão. Mas, se puderem ser produzidos em abundância e a custos cada vez menores, talvez não sejam eternos como símbolo de valor.
Essa discussão vai além das pedras preciosas. Em uma era na qual a tecnologia permite transformar coisas antes raras em abundantes, uma pergunta se torna cada vez mais importante: o que continuará sendo verdadeiramente escasso? Se a matéria pode ser reproduzida, o que acontece com o valor que atribuímos à sua dificuldade de obtenção?
Essa é também uma das questões discutidas no universo do bitcoin. O livro Bitcoin, Blockchain e Muito Dinheiro aborda a relação entre escassez, durabilidade e valor. O diamante é extraordinariamente durável, mas sua oferta deixou de depender exclusivamente da geologia. A abundância pode levá-lo à extinção. O bitcoin é a resposta da tecnologia à era da abundância. Sua escassez não decorre da dificuldade de encontrá-lo na natureza, mas de uma regra programada para limitar sua emissão.
Talvez essa seja a transformação mais interessante provocada pelos diamantes de laboratório. Eles não tornaram o diamante menos eterno. Tornaram menos eterna a sua escassez.


