Dois gigantes do mundo tecnológico, Elon Musk e Jensen Huang, CEO da Nvidia, estão em lados opostos sobre o futuro de um dos setores que mais crescem na inteligência artificial. Musk acredita que muitas empresas especializadas em infraestrutura para IA estão próximas de uma crise financeira. Huang discorda. Para ele, a demanda por processamento é tão grande que o mercado encontrará maneiras de sustentar sua expansão. No centro do debate estão as chamadas neoclouds, ou neonuvens. Mas, afinal, o que são as neonuvens?
Para entender esse novo mercado, precisamos relembrar o conceito de computação em nuvem. Empresas como Amazon, Microsoft e Google construíram infraestruturas gigantescas para fornecer armazenamento, processamento e serviços digitais pela internet. Em vez de comprar servidores próprios, empresas de diversos segmentos passaram a alugar esses recursos conforme a necessidade.
A inteligência artificial generativa mudou as exigências desse modelo. Treinar grandes modelos de linguagem e atender milhões de usuários requer uma capacidade computacional muito específica. Não bastam servidores convencionais. São necessários milhares de processadores especializados, principalmente GPUs, conectados por redes de altíssima velocidade e alimentados por grandes quantidades de energia.
É nesse ambiente que surgem as neonuvens. Diferentemente das nuvens tradicionais, que oferecem centenas de serviços, essas empresas se concentram em fornecer poder computacional para IA. Compram ou operam grandes conjuntos de GPUs e alugam essa capacidade para desenvolvedores, startups e até gigantes da tecnologia.
CoreWeave, Nebius, Lambda e Crusoe estão entre os principais nomes. Algumas dessas empresas nasceram em outros segmentos, como a mineração de criptomoedas, e migraram para a inteligência artificial.
O crescimento é acelerado. Segundo a Synergy Research Group, as receitas globais das neonuvens superaram US$ 25 bilhões em 2025. A projeção é que o mercado possa se aproximar de US$ 400 bilhões em 2031.
Há uma contradição interessante nesse mercado. As neonuvens ganharam espaço como alternativas às grandes plataformas de computação em nuvem, mas essas mesmas gigantes estão entre seus principais clientes. A Microsoft contrata capacidade de fornecedores especializados. A Meta também fechou contratos bilionários com a Nebius. Em vez de substituir as nuvens tradicionais, as neonuvens passaram a fazer parte de um ecossistema cada vez mais interdependente.
Voltando aos riscos, o maior problema está na conta. Construir infraestrutura assim custa bilhões. É preciso comprar GPUs, montar data centers, garantir energia e instalar redes de comunicação. Tudo isso antes que a receita gerada pelos clientes seja suficiente para pagar a conta. Para financiar a expansão, muitas empresas recorrem a empréstimos e contratos de longo prazo. O mercado já até sentiu o peso da conta. No mês passado, as ações da CoreWeave e da Nebius caíram mais de 30.
Outro agravante: os equipamentos envelhecem depressa. Uma GPU de última geração hoje pode perder competitividade em poucos anos. Isso obriga as empresas a recuperar investimentos gigantescos antes que seus ativos se tornem tecnologicamente ultrapassados. É nesse ponto que o alerta de Musk faz sentido.
Huang, por outro lado, também tem argumentos sólidos. A demanda por inteligência artificial segue crescendo. Modelos mais complexos e poderosos, agentes autônomos e aplicações empresariais exigem cada vez mais processamento. E a Nvidia, principal fornecedora de GPUs para esse mercado, está no centro dessa expansão. A empresa, aliás, não apenas vende processadores para as neonuvens. Também investe bilhões nelas, incluindo aportes de US$ 2 bilhões na CoreWeave e outros US$ 2 bilhões na Nebius, anunciados em 2026. Ou seja, Huang tem motivos de sobra para defender a expansão do setor.
Talvez Musk e Huang estejam certos ao mesmo tempo. No fundo, os dois concordam no diagnóstico de que o gargalo é o dinheiro. Huang admite a falta de capital, mas aposta que ela será resolvida. Musk tem lá suas dúvidas. O fato é que a inteligência artificial pode continuar avançando, a demanda por processamento pode crescer e, ainda assim, muitas neonuvens podem desaparecer.
Estamos construindo, em velocidade extraordinária, uma nova infraestrutura para a economia digital. Mas ainda não sabemos se as receitas geradas pela inteligência artificial serão suficientes para remunerar todos esses investimentos. O futuro da IA parece muito promissor. O de quem banca essa corrida, nem tanto.

