Testes já mostraram bons resultados para depressão, mas a verba para entrar na rede pública ainda não veio. Enquanto isso, a Alemanha — primeiro país a pagar por aplicativos receitados por médicos — ainda tenta medir se eles realmente funcionam.
Quase um em cada dez brasileiros já recorreu a um chatbot como terapeuta. Segundo o Panorama da Saúde Mental 2026, do Instituto Cactus com a AtlasIntel, divulgado em outubro, 9,1% da população já usou esse tipo de ferramenta, e 15% buscaram a inteligência artificial em momentos de crise. Entre os motivos para preferir a máquina a um terapeuta, estão o custo menor, disponibilidade 24 horas e menor sensação de julgamento.
A demanda por atendimento em saúde mental, porém, não é nova. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, cerca de 11% dos adultos brasileiros apresentam sintomas de depressão que exigiriam acompanhamento, ou mais de 15 milhões de pessoas. Só uma em cada quatro recebe algum tipo de cuidado, segundo o psiquiatra Paulo Rossi Menezes.
“Não adianta criticar esse movimento, porque ele é devido a uma demanda e uma necessidade não respondidas”, diz Menezes, professor titular do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP e diretor científico do Centro de Pesquisa e Inovação em Saúde Mental (CISM).
Uma das respostas possíveis está na tecnologia. Há cerca de 15 anos, a equipe do pesquisador desenvolve o Conemo, aplicativo para pessoas com sintomas de depressão que já funciona em unidades básicas de saúde, mas cuja expansão para a rede pública depende de um financiamento federal que ainda não veio.
Enquanto isso, a experiência alemã mostra que, mesmo em um país que paga por aplicativos de saúde prescritos por médicos, demonstrar benefícios e manter os usuários em tratamento continua sendo um desafio.
Nem todo aplicativo é terapia
A psicóloga Andrea Jotta, pesquisadora em ciberpsicologia do Janus, laboratório de psicologia e tecnologia da PUC-SP, separa ao menos três categorias entre as ferramentas reunidas sob o rótulo de saúde mental digital. A primeira reúne chatbots de respostas programadas, que oferecem exercícios de respiração ou técnicas da terapia cognitivo-comportamental conforme o relato do usuário.
A segunda categoria é a inteligência artificial generativa, como o ChatGPT, que consegue manter conversas convincentes, mas pode atribuir ao usuário sentimentos que ele não expressou. “Ela erra muito”, afirma Andrea. A terceira reúne plataformas que conectam pacientes a psicólogos, em um modelo que ela compara ao Uber.
Para Menezes, também é importante distinguir uma conversa com uma IA de um programa terapêutico estruturado. “O ChatGPT acaba funcionando muito como um amigo. Só que é melhor que um amigo, porque ele não tem juízo de valor. Ele é sempre acolhedor, está disponível 24 horas por dia. E isso não é bom do ponto de vista terapêutico.” As terapias comportamentais exigem regularidade, disciplina e passos progressivos, explica o pesquisador.
Uma experiência brasileira na rede pública
O Conemo utiliza a ativação comportamental, técnica terapêutica validada para o tratamento da depressão, com atividades estruturadas pelo aplicativo e acompanhamento das equipes de atenção primária.
Em 2021, um ensaio clínico publicado no JAMA avaliou a ferramenta em 1.312 pacientes com sintomas depressivos e hipertensão ou diabetes, atendidos na rede pública de São Paulo e de Lima, no Peru. Após seis semanas de uso, uma proporção maior dos participantes que utilizaram o aplicativo apresentou redução de pelo menos metade dos sintomas em três meses, em comparação com o grupo que recebeu o cuidado habitual reforçado. No Brasil, foram 40,7% contra 28,6%.
Hoje, o Conemo funciona em unidades básicas de saúde de Indaiatuba e Jaguariúna, no interior paulista. Na sala de espera, o paciente lê um QR Code e responde a um questionário. Conforme o resultado, o sistema recomenda o aplicativo, com jornadas curtas voltadas a depressão e ansiedade, e avisa a equipe.
Nos primeiros quatro meses, 276 pessoas fizeram a avaliação e 136 foram orientadas a usar a ferramenta, metade delas com sintomas graves, segundo dados apresentados por Menezes em junho.
A experiência local é a base do e-Saúde Mental no SUS, plataforma que integraria três públicos: o paciente faria avaliações e seguiria as intervenções pelo celular; o profissional da unidade básica acompanharia cada caso; e o gestor municipal teria acesso a dados sobre a população atendida.
A inteligência artificial ajudaria a orientar decisões. Menezes compara a proposta ao aplicativo Waze: o sistema sugeriria caminhos para cada paciente, aprendendo com dados de outros casos. Essas funções, no entanto, ainda não estão em uso.
Aprovado, mas sem financiamento
Aprovado em 2025 no Programa de Desenvolvimento e Inovação Local (PDIL), do Ministério da Saúde, o projeto tinha investimento previsto de cerca de R$ 12 milhões, que não foi liberado. “Ainda, infelizmente, a saúde mental, na prática, não consegue entrar como uma das principais prioridades em saúde no país”, diz Menezes.
Sem o recurso federal, o Conemo, até agora sustentado por projetos de pesquisa, deve passar a ser pago pelas prefeituras de Indaiatuba e Jaguariúna a partir de 2027, caso as negociações em curso avancem.
Há ainda uma etapa regulatória: softwares com finalidade médica precisam de registro na Anvisa, como lembrou o Conselho Federal de Psicologia em nota de setembro de 2025 que pediu cautela com propostas de IA em saúde mental no SUS. O grupo está solicitando o registro da plataforma como dispositivo médico, e Menezes se diz otimista.
O Ministério da Saúde não respondeu à reportagem, mas é possível afirmar que a pasta já usa IA na área: desde julho, a plataforma Pode Falar, criada com o Unicef para jovens de 13 a 24 anos, identifica no aplicativo Meu SUS Digital mensagens com sinais de risco e as prioriza no atendimento humano.
O desafio de manter o paciente em tratamento
A falta de financiamento não é o único obstáculo. Mesmo disponíveis, as ferramentas digitais precisam conquistar a adesão dos pacientes e dos profissionais que acompanham o tratamento. “As pessoas começam a usar um recurso digital e rapidamente elas abandonam”, diz Menezes.
Nos municípios em que o Conemo funciona, a procura pela avaliação inicial é boa, mas metade das pessoas com sintomas nem chega a começar a usar o aplicativo, e muitas das que começam desistem após poucas sessões.
O acompanhamento dos casos de maior risco é outro ponto sensível. Quando um paciente relata pensamentos de se ferir, por exemplo, a plataforma faz perguntas adicionais para classificar o risco. Se ele for moderadamente alto ou alto, o coordenador da unidade recebe um e-mail, e o paciente é orientado a buscar atendimento imediato.
Para Andrea Jotta, essa situação exige atenção redobrada, porque mesmo uma triagem convida a pessoa a falar do próprio sofrimento. “Quando a gente faz as pessoas falarem sobre aquilo que dói, a gente tem que acolher aquilo que ela falou, com sigilo, com responsabilidade, com afeto, com escuta”, diz. Ela duvida que uma máquina tenha a sintonia fina necessária para não ultrapassar esse limite.
O que a Alemanha aprendeu com os aplicativos
Desde o fim de 2020, a Alemanha permite que aplicativos de saúde prescritos por médicos sejam pagos pelas seguradoras públicas. Foi o primeiro país a adotar esse modelo, conhecido como DiGA. As ferramentas são avaliadas pelo Instituto Federal de Medicamentos e Dispositivos Médicos, e a saúde mental é a área com maior número de aplicativos disponíveis. Quase todos oferecem programas de terapia cognitivo-comportamental com duração aproximada de 12 semanas.
Julian Schwarz, médico do hospital universitário da Brandenburg Medical School Theodor Fontane, onde lidera um grupo de pesquisa em políticas de saúde mental e digitalização, considera que o modelo trouxe avanços, mas tem lacunas. Existem oito aplicativos para depressão e quase o mesmo número para ansiedade, sem critérios que permitam compará-los.
“Atualmente é mais ou menos uma caixa-preta”, diz Schwarz. Só agora o país começa a exigir medidas de resultado relatadas pelos pacientes e padronizadas entre os aplicativos.
“O ponto é olhar com precisão para a população-alvo”, afirma Schwarz. Para o Brasil, ele recomenda testar as ferramentas em mais de uma região antes de ampliar seu uso.
Entre o risco e a falta de alternativas
Enquanto isso, pessoas em sofrimento psíquico continuam recorrendo a ferramentas de inteligência artificial de uso geral.
Em uma pesquisa com 300 pacientes com transtornos mentais graves em Berlim e Brandemburgo, cerca de metade relatou usar IA para cuidar da saúde mental, conta Schwarz. Como veem o psiquiatra a cada dez semanas, alguns recorrem à tecnologia para conversar nos intervalos entre as consultas.
O pesquisador vê potencial nessas ferramentas, mas alerta para dois riscos: a tendência dos modelos a concordar com o usuário e a possibilidade de falhas nas barreiras de segurança durante conversas longas. Ele cita os casos de adolescentes nos Estados Unidos que morreram por suicídio após meses de conversa com chatbots. Algumas famílias processaram as empresas responsáveis.
Os dados brasileiros também sugerem uma relação entre o uso de IA e a solidão. No levantamento do Instituto Cactus com a AtlasIntel, 32,1% das pessoas que se sentiram sós três vezes ou mais em duas semanas relataram ter usado IA para buscar companhia, ante 1,8% entre as que não relataram solidão. A mesma pesquisa aponta que encontrar amigos está entre os fatores mais associados a uma saúde mental melhor.
Andrea Jotta, da PUC-SP, não é contrária à tecnologia. Ela considera que essas ferramentas podem funcionar bem como instrumentos de triagem, mas pede cautela quando passam a integrar políticas públicas e se tornam, para parte da população, a única opção disponível.



