O jornalismo é a galinha dos ovos de ouro da IA?
Inteligência artificial

O jornalismo é a galinha dos ovos de ouro da IA?

Entre inovações nos processos e nos produtos, veículos brasileiros negociam acordos de licenciamento defendendo sua importância para alimentar a tecnologia

Existe um paradoxo na relação entre o jornalismo e a Inteligência Artificial. Nas redações, ela é usada para aumentar a produtividade e criar produtos. Ao mesmo tempo, o conteúdo jornalístico alimenta os grandes modelos de linguagem sem que os veículos sejam devidamente remunerados. Esse dilema existe por todo o mundo, assim como no Brasil.

Organizado pelo Observatório da Imprensa e pelo Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo (Projor), o evento “IA no jornalismo: como as redações brasileiras estão se adaptando” debateu essas questões e trouxe dados sobre o panorama de veículos tradicionais e nativos digitais. Uma pesquisa do COM+, grupo de pesquisa da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, aponta os caminhos para essa adaptação do mercado. Eles ouviram executivos entre abril e maio deste ano e montaram um framework analítico setorial.

Os dados foram analisados primeiro a partir do tipo de inovação. A primeira delas é a incremental, aquela para fazer com mais eficiência, mais rápido e menos custo. Isso diminui o trabalho braçal do jornalista e o leva a ter um papel de supervisão e revisão em tarefas como análise de documentos, transcrição de entrevistas e tradução. Mas também existe a inovação disruptiva, que leva a novos produtos. Outra categoria foi a de acordos de licenciamento de conteúdo.

Esse framework se divide em quadrantes guiados pela inovação e acordos de mercado, com os conceitos: diversificadores de receita, disruptores de mercado, orquestradores estratégicos e desbravadores independentes. Entre os diversificadores de receita, a pesquisa aponta Folha de S.Paulo, O Estado de São Paulo e UOL. Os desbravadores independentes são Núcleo Jornalismo, Aos Fatos e Agência Tatu. Orquestrador estratégico seria o Grupo Globo, que engloba uma diversidade de veículos em seu portfólio. Não foram identificados entre as entrevistas disruptores de mercado.

O que está sendo feito na imprensa brasileira

Alguns usos mapeados em veículos do Grupo Globo foram reconstrução visual de fatos, dublagem com a voz original em português, agentes para criar títulos e artes para redes sociais, além de análise de comentários para ouvir a demanda do público. Já o UOL, por exemplo, também usa agentes para transcrição, seleção e redação de notícias, além de automatizar algumas delas rotineiras, como preços de combustíveis. O veículo digital ainda clona a voz de colunistas para conteúdo em áudio, cria imagens e animações e monitora transmissões ao vivo.

Também há entre os exemplos brasileiros a criação de produtos, como um chatbot, que teve o Estadão como pioneiro, com a LeIA, mas atualmente é acompanhado de iniciativas como o CozinhAI, da Folha. “É o reempacotamento da produção jornalística. Ela não aparece na forma tradicional de uma matéria, mas todo processo de construção desse chatbot ainda envolve um processo jornalístico”, comenta o pesquisador João Pedro Malar.

Outra forma é a aposta no vibe coding, que é uma prática de programar acompanhado de uma ferramenta de Inteligência Artificial Generativa, que permite a criação de sites e painéis que antes demorariam três meses e agora são finalizados em uma semana. Caso do Núcleo Jornalismo, com iniciativas como o Nuclito e o Legislatech. “É uma agilidade muito grande, com custos muito menores, isso viabiliza a construção de novos produtos”, analisa Malar.

Aos Fatos apostou no Escriba, uma ferramenta de transcrição que agiliza o processo e gera receita para a agência, e em outras inovações como Busca Fatos, uma checagem em tempo real durante debates eleitorais, e o scraping, a coleta e análise de decisões judiciais sobre tecnologia. A Agência Tatu aposta no próprio mercado de jornalismo para vender novos produtos. Ela tem projetos como alertas meteorológicos hiperlocais, distribuídos por WhatsApp, e automação de publicação de vagas de emprego.

Como estão os acordos com as big techs

UOL tem acordo com a OpenAI, enquanto Estadão fechou com o Google e a Folha tem acordo com a OpenAI e o Google, após buscar a via judicial. Mas os executivos se dividem sobre o melhor caminho a percorrer. Existe o temor de tornar os jornais irrelevantes se os conteúdos estiverem nos chatbots, mas também a intenção de não canibalizar novamente o negócio, como já aconteceu com a criação dos mecanismos de busca e as redes sociais.

Existe uma desigualdade na negociação com as big techs, que privilegiam acordos individuais e resistem a negociações com associações do setor. É difícil para as empresas de mídia precificar os acordos de licenciamento, até por não saber por qual valor os concorrentes estão fechando e qual tipo de licenciamento, se é uma parte ou todo.

Enquanto diversificadores de receitas negociam com as gigantes e orquestradores estratégicos defendem negociações para todo o setor, os desbravadores independentes não são procurados pelas big techs e apostam em uma política pública com regulação como solução.

“Como é que nós vamos fazer uma sustentação econômica do jornalismo profissional, independente, de qualidade, com integridade, num modelo que destrói qualquer possibilidade de sustentação no nível necessário para manter redações, toda essa cadeia de custos que envolve o jornalismo de qualidade?”, reflete Marcelo Rech, presidente-executivo da Associação Nacional de Jornais.

Para Rech, os paywalls, bloqueios para conteúdo pago, são ineficazes para impedir o acesso de robôs. O que é mais interessante é a cobrança dessa informação. Uma proposta é que, a cada vez que a IA acessar, possa fazer um micropagamento. Algo que se assemelha com a indústria fonográfica que apostou nos streamings para combater a falta de remuneração com softwares piratas. A busca por conteúdo novo se dá na academia, nas organizações e nos governos, mas a maioria é em veículos jornalísticos. Por isso, estaríamos em um momento limiar do renascimento do jornalismo de qualidade.

“Se a IA precisa de informação de qualidade, ao mesmo tempo, é a ameaça à informação de qualidade. Nada mais justo e necessário que o modelo central de sustentabilidade do jornalismo profissional venha exatamente das grandes plataformas de IA, que pagam bilhões de dólares em energia, chips, data centers, talentos e não querem pagar em matéria-prima”, comenta Rech dizendo que a ANJ estuda entrar com processos judiciais contra as big techs, que têm como estratégia negociações individuais com as empresas e não com as associações.

Outro problema para a imprensa é que o tráfego por buscas vem diminuindo com o crescente uso de chatbots, mas, para além disso, esse novo hábito também desconecta a audiência do veículo. “Quando eu não clico, eu só leio o resultado, não me interessa de quem veio. Eu não crio uma relação de confiança com aquele veículo, eu não vou clicar na segunda e na terceira matéria”, comenta Carla Egydio, diretora de relações institucionais da Associação de Jornalismo Digital.

Acervos ganham novo brilho

Antes esquecidos, os conteúdos antigos agora são decisivos nas negociações sobre IA. Jornais centenários com acervo digitalizado podem contar toda a história de uma cidade ou estado. Um dos exemplos é o jornal Financial Times, que passou a usar seu acervo para fazer predição de aumento da taxa de juros na Europa.

“O uso do acervo é muito relevante, tem muito valor e antes era deixado de lado e passa a ser um grande ativo dos veículos de comunicação”, comenta Rech.

Desta forma, os especialistas defendem que a apuração da imprensa é importante para novas análises, considerando contexto histórico, diminuindo a possibilidade de alucinação. Se uma empresa pode falar de si e um influenciador pode ser pago para fazer a publicidade de um produto, o jornalismo tem o papel fundamental de checar as informações e alimentar a IA com precisão.

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