O significado de “ir ao banco” mudou significativamente quando sites e aplicativos das instituições passaram a ter cada vez mais relevância na solução de questões corriqueiras como receber salário, pagar uma conta, fazer um investimento ou uma transferência. O celular foi consolidado como o principal canal bancário, de acordo com a 34ª edição da Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária, realizada pela Federação Brasileira de Bancos (Febraban). O uso dele foi registrado em 78% das mais de 240 bilhões de transações bancárias do ano de 2025.
Essa nova realidade aumentou também a demanda por profissionais de tecnologia, porque, mais do que criar aplicativos, há necessidade de se manter um complexo e intenso sistema de interações. A pesquisa aponta que a Inteligência Artificial, os dados, a computação em nuvem e a cibersegurança se integram cada vez mais e movimentam também o perfil das equipes que trabalham com a tecnologia bancária.
Atualmente, 11% dos profissionais dos bancos estão na área de Tecnologia da Informação (TI), o que corresponde a cerca de 49,4 mil pessoas, considerando as instituições que participaram do levantamento da Febraban. E a tendência é de crescimento, porque 42% dos bancos pretendem aumentar essas equipes.
Software ainda lidera a procura
A pesquisa também aponta quais profissionais da área de tecnologia estão entre os mais valorizados a cada ano. No ranking de 2026, as cinco primeiras posições são ocupadas por desenvolvedores de software, engenheiros de IA, engenheiros de dados, arquitetos corporativos e engenheiros de DevOps. Aliás, os desenvolvedores de software aparecem como os mais requisitados pelo segundo ano consecutivo, mas houve uma mudança em outras três posições em relação ao ano anterior. No relatório de 2025, também estavam os cientistas de dados, especialistas em segurança da informação e especialistas em metodologia ágil. Ou seja, o ranking atual sugere que os bancos estão realmente procurando mais profissionais capazes de construir, integrar e manter sistemas de dados e Inteligência Artificial funcionando no dia a dia.
“Os bancos estão entre as organizações mais intensivas em tecnologia do país. Além de operarem ambientes altamente regulados, lidam diariamente com grandes volumes de transações, dados sensíveis e demandas crescentes por disponibilidade, segurança e inovação. Nesse contexto, as cinco profissões destacadas no ranking atual tornam-se fundamentais para a evolução dos serviços financeiros digitais. Elas ajudam a desenvolver novos produtos, aprimorar a experiência dos clientes, fortalecer mecanismos de prevenção a fraudes, apoiar decisões baseadas em dados e garantir a escalabilidade das operações”, explica Helena Loiola Persona, gerente de Inteligência e Informação da Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação e de Tecnologias Digitais (Brasscom).
A rede social LinkedIn, especializada em vagas e networking, lançou, em janeiro de 2026, a lista “Empregos em alta”, que apresenta um ranking com 25 profissões que tiveram o crescimento mais acelerado nos últimos três anos e um número significativo de vagas disponíveis. Os engenheiros de IA também se destacam e aparecem na liderança. Esses profissionais são descritos pela plataforma como aqueles que projetam e constroem sistemas que utilizam a IA para tarefas como análise de dados, reconhecimento de padrões e previsões.
A lista do LinkedIn aponta ainda que, antes de assumir uma vaga como engenheiro de IA, esses profissionais ocuparam outros cargos, como engenheiros de software, cientistas de dados ou engenheiros de dados, indicando a importância de especialização e atualização constantes, o que é reforçado por Helena Loiola. De acordo com ela, o Brasil ampliou a capacidade de formação em tecnologia, com mais de 110 mil pessoas concluindo cursos superiores relacionados à TIC no ano de 2024, o que representa um crescimento de 59% em relação ao ano de 2022. A quantidade, porém, não indica necessariamente que a procura por esses profissionais está resolvida.
“O principal desafio está na aderência entre formação, experiência prática e competências demandadas pelas empresas. Funções como engenheiro de IA, engenheiro de dados, arquiteto corporativo e engenheiro DevOps normalmente exigem especializações, certificações e experiência acumulada que vão além da formação inicial. O desafio atual está menos na formação quantitativa de profissionais e mais na qualificação contínua, na experiência prática e na conexão entre os talentos e as oportunidades disponíveis no mercado”, explica a gerente de Inteligência e Informação da Brasscom.
Investimento futuro
O orçamento em tecnologia bancária segue crescendo e, em 2026, deve alcançar R$ 50,4 bilhões, 8% acima de 2025. Entre 2021 e 2025, o orçamento cresceu 58%. A Inteligência Artificial segue como grande impulsionadora desse investimento, mas não está restrita à contratação de profissionais e à mudança de infraestrutura.
De acordo com a pesquisa da Febraban, 70% dos bancos afirmam que estão investindo também na requalificação dos profissionais. Em 2025, foram mais de R$ 100 milhões em treinamentos de tecnologia para mais de 226 mil funcionários. Para este ano, há previsão de um investimento de R$ 29,4 milhões para capacitar equipes especificamente em Inteligência Artificial, o que também se reflete na maior procura por profissionais das áreas de engenharia de IA, engenharia de dados, arquitetura e DevOps.
Mas a ascensão de novas funções não significa que áreas mais tradicionais tenham perdido relevância. A cibersegurança continua entre as prioridades tecnológicas dos bancos, mesmo sem aparecer no ranking das cinco profissões mais demandadas no levantamento deste ano. Todas as instituições bancárias que participaram da pesquisa classificaram os investimentos em cibersegurança como de prioridade média ou alta.
A ampliação do uso de Inteligência Artificial, computação em nuvem, Open Finance (a infraestrutura que permite aos clientes compartilharem dados financeiros, mediante autorização, entre diferentes instituições participantes do sistema) e canais digitais também aumenta a superfície que precisa ser protegida. Por isso, o avanço tecnológico do setor não depende apenas de quem desenvolve novos sistemas, mas também de profissionais capazes de garantir que dados, transações e serviços permaneçam seguros em uma operação cada vez mais conectada.

