A Varda Space Industries, uma startup que vem apresentando sua capacidade de realizar experimentos com medicamentos no espaço, diz ter fechado parceria com a farmacêutica United Therapeutics, em um movimento que pode ser lembrado como um passo importante rumo à manufatura em órbita.
A ideia de construir coisas no espaço sideral para uso na Terra, até agora, foi explorada principalmente a bordo da Estação Espacial Internacional, e apenas em experimentos de pequena escala apoiados por governos.
Mas a Varda, sediada em El Segundo, na Califórnia, agora está dizendo a empresas farmacêuticas que tem uma maneira prática e repetível de produzir moléculas inéditas em microgravidade.
“Este é o primeiro caminho comercial para produtos feitos no espaço”, diz Michael Reilly, diretor de estratégia da Varda.
A ideia científica é que misturas químicas tenham propriedades diferentes sob condições de ausência de peso. Por exemplo, a água ficará unida em uma esfera ondulante, já que, sem gravidade, a tensão superficial é a força mais forte presente.
O plano é lançar versões dos medicamentos da United Therapeutics em órbita, onde poderão ser deixadas para formar cristais sólidos. A esperança é que, em microgravidade, eles assumam arranjos atômicos não vistos na Terra, possivelmente levando a novas versões com maior estabilidade ou outras propriedades valiosas.
A United é liderada pela CEO Martine Rothblatt, que trabalhou nos primeiros satélites de telecomunicações. Desde então, ela construiu um negócio de saúde multibilionário com uma sucessão de medicamentos para tratar uma doença pulmonar chamada hipertensão arterial pulmonar, da qual sua filha sofre, e uma subsidiária que desenvolve porcos geneticamente modificados como fonte de órgãos para transplante.
Rothblatt diz que o espaço pode ser o próximo passo se as condições orbitais permitirem que a United identifique versões “ainda mais incríveis” de seus medicamentos.
Espaço para reformular
Empresas farmacêuticas frequentemente tentam manter suas franquias de grande sucesso por mais tempo criando versões aprimoradas dos medicamentos ou reformulando-as, por exemplo, mudando de um comprimido para uma versão inalada, como a United fez com alguns de seus produtos. Fazer isso pode manter imitadores afastados e criar décadas adicionais de proteção por patente.
Ajudando fabricantes de medicamentos há empresas especializadas, como Halozyme e MannKind, que lucram ao auxiliar na reformulação de fármacos de outras companhias, muitas vezes recebendo royalties sobre vendas futuras.
Esse é o negócio no qual a Varda tem tentado entrar, usando viagens ao espaço em vez de nebulizadores, adesivos ou nanopartículas. A empresa foi criada em 2021 por Delian Asparouhov, sócio do Founders Fund de Peter Thiel, junto com Will Bruey, ex-engenheiro de aviônicos da SpaceX, de Elon Musk, que hoje é o CEO da Varda.
A aposta da dupla é que a manufatura espacial se tornará viável quando lançamentos de foguetes passarem a ser frequentes o suficiente, e baratos o suficiente, para sustentar um modelo de negócio em que matérias-primas sejam enviadas à órbita, processadas e, então, retornem à Terra em uma nova forma.
E isso está começando a acontecer. Para chegar ao espaço, a Varda tem comprado caronas da SpaceX, que agora lança um foguete a cada dois ou três dias, geralmente um Falcon 9 reutilizável.
Esses foguetes têm uma carenagem, ou carenagem de carga, com tamanho aproximado ao de um caminhão de mudanças, que é preenchida com satélites ou instrumentos, os quais então são liberados em órbita.
A partir de 2023, a Varda começou a enviar pequenos satélites que têm uma cápsula do tamanho de um pedregulho acoplada. A cápsula contém equipamentos para realizar experimentos, e pode se desprender e cair de volta à Terra, entrando na atmosfera a uma velocidade de cerca de Mach 25 antes de desacelerar pela resistência do ar e, por fim, descer até o solo com um paraquedas. (A Varda pousa suas naves no interior da Austrália.)
Essa reentrada veloz também chamou a atenção das Forças Armadas dos EUA, inclusive da Força Aérea, que pagou a Varda para transportar instrumentos e coletar medições relevantes para a tecnologia de mísseis hipersônicos. Das seis naves que a Varda pagou para colocar em órbita até agora, metade foi dedicada a pesquisas militares e metade levou demonstrações relacionadas a medicamentos.
Na Varda, esse “duplo uso” da tecnologia é aceito como parte de atuar no setor espacial, que ainda depende de apoio governamental. Os fundadores da empresa dizem que a Varda pode ser a única companhia que emprega engenheiros hipersônicos e químicos farmacêuticos sob o mesmo teto.
Lançando indústrias
A manufatura espacial de fato ainda permanece, em grande medida, um projeto aspiracional. Em 2021, Jeff Bezos, após sua primeira viagem ao alto em um foguete, sugeriu que indústrias poluentes deveriam ser transferidas para além da atmosfera. “Precisamos pegar toda a indústria pesada, toda a indústria poluente, e movê-la para o espaço. E manter a Terra como esta bela joia do planeta que ela é”, disse ele à MSNBC.
O peso é o grande obstáculo a esses sonhos. Ainda custa cerca de US$ 7.000 para lançar um único quilograma de carga em órbita, o que torna impraticável, por exemplo, enviar algodão ao espaço para ser tingido lá, ou mesmo lançar os ácidos e solventes necessários para fabricar um chip semicondutor.
Mas medicamentos podem estar entre as poucas exceções a essa regra econômica, já que, quilo por quilo, podem ser tão valiosos quanto raros isótopos radioativos e diamantes lapidados.
Por exemplo, apenas um quilograma do medicamento para perda de peso Ozempic vale mais de 100 milhões de dólares, no varejo. (O motivo de a sua conta do Ozempic ser de “apenas” na casa dos milhares de reais por mês é que quantidades minúsculas do ingrediente ativo estão presentes nas injeções.)
É por isso que a Varda acredita que, eventualmente, poderá fabricar medicamentos em órbita. No entanto, seu esforço com a United é mais um experimento em voo para aprender se os medicamentos pulmonares da empresa cristalizarão de forma diferente em microgravidade.
Os termos do acordo entre a Varda e a United não são públicos, e as empresas não disseram quais medicamentos específicos a colaboração irá estudar. Mas Rothblatt confirmou que a United está pagando a Varda para ajudá-la a identificar novas formas cristalinas de seus medicamentos, também chamadas de polimorfos, que ela espera que possam ter propriedades aprimoradas.
“É preciso fazer o experimento para descobrir se isso é verdade. A primeira parte do experimento é ver quais polimorfos dessas moléculas podem ser produzidos sem a influência da gravidade”, ela diz. “Então, uma vez que tivermos esses polimorfos, nós os testaremos.”
Há boas evidências de que cristais se formam de maneira diferente no espaço. Por exemplo, em 2017, a gigante farmacêutica Merck enviou amostras de seu medicamento de imunoterapia contra o câncer Keytruda à Estação Espacial Internacional, onde se constatou que ele formava cristais de um único tamanho. Na Terra, o medicamento tendia a formar dois tamanhos diferentes ao mesmo tempo.
Esse experimento ofereceu pistas sobre como formular o medicamento como uma injeção em vez de administrá-lo por via intravenosa. Ainda assim, quando a Merck lançou uma injeção de Keytruda no ano passado, acabou usando uma abordagem diferente. Isso significa que ainda não há uma conexão direta entre descobertas orbitais e algum medicamento aqui na Terra. Fábricas espaciais reais estão um passo ainda mais distante da realidade.
“Estamos aprendendo com o espaço há anos, mas eu não consigo citar nada fabricado no espaço, trazido de volta à Terra e vendido”, diz Reilly. “Então esse é um primeiro, ou será um primeiro.”
Reilly diz que a Varda prevê lançar os medicamentos da United Therapeutics em órbita em algum momento no início do próximo ano.





