Musk v. Altman, a semana final
Negócios e economia

Musk v. Altman, a semana final

Julgamento vencido pelo CEO da OpenAI expôs muita sujeira e levantou mais perguntas do que respostas sobre como a gigante da IA deve ser governada

Os advogados trocaram farpas sobre a credibilidade de Elon Musk e do CEO da OpenAI, Sam Altman na semana final do julgamento entre os empresários. O acusado foi pressionado sobre seu suposto histórico de mentiras e de autopromoção em negócios envolvendo empresas que fazem negócios com a OpenAI. Mas reagiu, retratando Musk como alguém em busca de poder que queria controlar o desenvolvimento da Inteligência Artificial Geral, uma tecnologia poderosa que pode competir com humanos na maioria das tarefas cognitivas. Quem acabou levando a melhor foi Altman, que venceu o julgamento na segunda-feira, mas Musk anunciou no mesmo dia, em sua rede social X, que irá recorrer.

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Como evidência de seu compromisso com a segurança em IA, a OpenAI apresentou um troféu dourado em forma de bunda de burro, que foi dado a um funcionário da empresa depois que ele foi chamado de “idiota” por enfrentar os planos de Musk rumo à Inteligência Artificial Generativa.

Os advogados de ambos os lados também apresentaram suas alegações finais, exibindo fotos pouco lisonjeiras, em estilo de registro policial, de Musk e Altman lado a lado em uma tela gigante. O advogado de Musk, Steven Molo, argumentou que Altman e o presidente da OpenAI, Greg Brockman, quebraram a promessa de usar o dinheiro que Musk doou para manter a OpenAI como uma organização sem fins lucrativos que desenvolve IA para o benefício da humanidade. Em vez disso, eles criaram uma subsidiária com fins lucrativos que os tornou extraordinariamente ricos.

A advogada da OpenAI, Sarah Eddy, argumentou que Altman e Brockman nunca prometeram manter a OpenAI como uma organização sem fins lucrativos. Ela acrescentou que, embora tenha sido reestruturada, a OpenAI continua sendo uma organização sem fins lucrativos dedicada a desenvolver IA com segurança.

Ela alegou que Musk entrou com a ação tarde demais e que seu verdadeiro motivo é sabotar uma concorrente da própria empresa de IA dele, a xAI, que ele lançou em 2023.

Musk está pedindo ao tribunal que desfaça a reestruturação de 2025, que converteu a subsidiária com fins lucrativos da OpenAI em uma corporação de benefício público, e que destitua Altman e Brockman de seus cargos. Ele também busca até 134 bilhões de dólares em indenizações da OpenAI e da Microsoft, a serem destinados à organização sem fins lucrativos da OpenAI.

O júri começará a deliberar na segunda-feira e dará um veredito consultivo já na próxima semana. O veredito não é vinculante para o juiz, que decidirá o caso.

Se o juiz decidir a favor de Musk, isso poderia virar de cabeça para baixo a corrida da OpenAI rumo a um IPO, com uma avaliação próxima de 1 trilhão de dólares. Enquanto isso, espera-se que a xAI abra capital como parte da empresa de foguetes de Musk, a SpaceX, já em junho, com uma avaliação-alvo de 1,75 trilhão.

Musk, o ambicioso por poder; Altman, o mentiroso

Na primeira semana do julgamento, Musk disse que estava processando para salvar a missão da OpenAI de construir a IA com segurança para o benefício da humanidade. Nesta semana, Altman negou que Musk fosse um paladino da segurança e o retratou como um ambicioso por poder que queria controlar a OpenAI.

Altman disse ao júri que, em 2017, quando Musk e outros cofundadores estavam discutindo a criação de um braço com fins lucrativos, eles perguntaram a Musk o que aconteceria com o controle dele sobre uma entidade desse tipo se ele morresse. “Talvez o controle da OpenAI devesse passar para meus filhos”, teria dito Musk, segundo Altman.

O advogado de Musk reagiu, pressionando Altman sobre seu suposto histórico de mentiras. Ele destacou que ex-executivos da OpenAI, Ilya Sutskever e Mira Murati, e ex-membros do conselho, Helen Toner e Tasha McCauley, todos testemunharam que Altman havia mentido para eles. Em 2023, Altman foi demitido brevemente do cargo de CEO por causa do suposto comportamento.

Molo também pressionou Altman sobre seus investimentos pessoais em startups que fazem negócios com a OpenAI. Altman testemunhou que tentou direcionar a empresa a comprar energia da Helion Energy, voltada para energia nuclear, da qual ele possui um terço.

(Na última sexta-feira, o comitê de supervisão da Câmara dos Estados Unidos abriu uma investigação sobre os potenciais conflitos de interesse de Altman. Procuradores-gerais de mais de meia dúzia de estados pediram que revisasse esses conflitos.)

Durante sua sustentação final, Molo colocou novamente a credibilidade de Altman em julgamento. “Imagine que você está fazendo uma trilha e se depara com uma daquelas pontes de madeira que você vê numa trilha, e ela fica sobre um desfiladeiro”, disse. “Uma mulher parada na entrada da ponte diz: ‘Não se preocupe, a ponte foi construída sobre a versão da verdade do Sam Altman.’ Você atravessaria?”

Altman, que estava sentado atrás de seus advogados, levantava o olhar com desconforto toda vez que seu nome era mencionado.

Durante sua alegação final, Eddy rebateu. Musk “nunca se importou com a estrutura sem fins lucrativos”, declarou. “O que ele queria era vencer.”

Musk, porém, estava ausente. Apesar da ordem do juiz para que ele permanecesse disponível, ele voou para a China com o presidente Trump.

Altman prometeu manter a OpenAI como uma organização sem fins lucrativos?

Durante sua sustentação final, Eddy argumentou que nenhum depoimento ou prova mostrou qualquer condição nas doações de Musk, nem quaisquer promessas feitas por Altman e Brockman de manter a empresa como uma organização sem fins lucrativos. “Nenhum compromisso ou promessa foi feito. Nenhuma restrição foi imposta às doações do Sr. Musk”, defendeu.

Eddy acrescentou que estava evidente que Musk não estava de fato comprometido em manter a OpenAI como uma organização sem fins lucrativos. Ela observou que, em 2017, ele tentou criar uma subsidiária com fins lucrativos e travou uma batalha amarga com Altman e Brockman para ter controle sobre ela.

“Eu não era contra haver uma pequena empresa com fins lucrativos que fornecesse financiamento à organização sem fins lucrativos”, disse Musk ao júri mais cedo no julgamento, “desde que o rabo não abanasse o cachorro.”

Eddy então argumentou que Musk entrou com a ação tarde demais, ajuizando-a em 2024 depois que os prazos de prescrição de suas alegações já haviam expirado. Em 2019, a OpenAI criou uma subsidiária com fins lucrativos, sob a qual funcionários e investidores receberam um retorno limitado sobre seu investimento.

Mas Musk testemunhou que só descobriu que a OpenAI havia abandonado sua missão sem fins lucrativos em 2022, quando a Microsoft se preparava para investir 10 bilhões de dólares na OpenAI, um acordo que foi concluído em 2023. “Fiquei perturbado ao ver a OpenAI com uma avaliação de US$ 20 bilhões”, ele escreveu em mensagem para Altman depois de ler a notícia. “Isso é uma propagando enganosa.”

Musk disse ao júri que a avaliação de 20 bilhões o fez perceber que “o braço com fins lucrativos é o rabo abanando o cachorro”.

“O acordo de 2023 foi diferente”, Molo enfatizou durante sua sustentação final.

A OpenAI ainda é uma organização sem fins lucrativos comprometida com sua missão?

Uma questão central levantada na última semana do julgamento foi se ela continua sendo uma organização sem fins lucrativos comprometida em desenvolver a IAG com segurança para o benefício da humanidade. Eddy, advogada da OpenAI, argumentou que a organização sem fins lucrativos ainda controla a entidade com fins lucrativos e busca “ajudar a IAG a dar certo para a humanidade”. “A organização sem fins lucrativos da OpenAI é a organização sem fins lucrativos com mais recursos do mundo”, graças à operação com fins lucrativos, acrescentou.

Molo rebateu dizendo que, embora a organização sem fins lucrativos da OpenAI nominalmente controle a empresa, na prática isso não ocorre. As estruturas sem fins lucrativos e com fins lucrativos dela são controladas pelas mesmas pessoas, sete dos oito membros do conselho da entidade sem fins lucrativos estão no conselho da entidade com fins lucrativos. A entidade sem fins lucrativos contratou funcionários apenas um mês antes do início do julgamento e atua apenas na concessão de subsídios, em vez de pesquisa em IA.

Molo exibiu um vídeo de uma entrevista de Altman dizendo que o fato de o conselho da organização sem fins lucrativos não tê-lo demitido em 2023 foi “seu próprio tipo de falha de governança”.

“Ficamos com essa organização sem fins lucrativos que não tem voz alguma”, disse à MIT Technology Review Jill Horwitz, professora de direito da Northwestern University que estuda organizações sem fins lucrativos. “Ela não tem muito dinheiro, e a OpenAI não acha que tenha qualquer obrigação de financiá-la. Ela mal tem uma equipe”, diz. “Não está claro como, afinal, a organização sem fins lucrativos deveria exercer seus deveres e controlar a empresa inteira.”

Grupos da sociedade civil e formuladores de políticas têm se manifestado, ao longo dos anos, contra a reestruturação da OpenAI. Musk também, embora sua própria participação na corrida da IA faça dele um defensor duvidoso.

“O interesse público na organização sem fins lucrativos perde, independentemente de quem vença ou perca este julgamento”, diz Horwitz.

Um idiota pela segurança em IA

Apesar do aviso da juíza federal Yvonne Gonzalez Rogers, na primeira semana, de que este julgamento não era sobre segurança em IA, o tema voltou a roubar a cena. Os advogados de ambos os lados trocaram provocações sobre os históricos de segurança do ChatGPT, que supostamente causou suicídios de adolescentes, e do Grok, que inundou o X com pornografia.

No último dia de depoimentos, o advogado da OpenAI, Bradley Wilson, entregou à juíza um pequeno troféu dourado em forma de bunda de burro, com a inscrição: “Nunca pare de ser um idiota pela segurança.”

O troféu pertencia a Joshua Achiam, chefe futurista da OpenAI. Ele testemunhou que havia alertado que, quando Musk anunciou em 2018 que estava deixando a OpenAI para correr rumo à construção de IAG, a pressa poderia comprometer a segurança. Musk perdeu a paciência e o chamou de “idiota”, disse Achiam. Seus colegas, incluindo Dario Amodei, hoje CEO da Anthropic, deram a ele o troféu para eternizar a provocação.

“Eu não quero isso”, disse a juíza.

As palhaçadas também foram parar na rua. Em frente ao tribunal de Oakland, um manifestante desfilava usando uma fantasia de Musk segurando um saco de cetamina e dirigindo uma Cybertruck. Outro segurava uma foto de Sam Altman e um cartaz com a frase: “Parem a IAG ou vamos todos morrer.”

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