A aprovação da nova Política de Inovação da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) marca mais do que uma atualização administrativa dentro da estatal. A decisão, acompanhada pela criação de um Núcleo de Inovação Tecnológica (NIT), sinaliza uma mudança estrutural na forma como empresas públicas de mídia começam a se posicionar diante de um ecossistema cada vez mais digital, conectado e orientado por dados.
Em Brasília, a Empresa Brasil de Comunicação (EBC) já participa dos testes da TV 3.0, tecnologia que promete transformar a televisão aberta em uma plataforma conectada, interativa e orientada por dados.
No mesmo momento em que avança na fase experimental do novo sistema, a estatal aprovou uma Política de Inovação e criou um Núcleo de Inovação Tecnológica (NIT) para coordenar projetos ligados à transformação digital da empresa.
As primeiras estações experimentais da nova infraestrutura devem permitir desde transmissões em 4K e 8K até funcionalidades como enquetes em tempo real, integração entre televisão e internet e compras realizadas diretamente pelo controle remoto.
A implementação da TV 3.0 é considerada uma das maiores transformações tecnológicas da televisão desde a migração do sinal analógico para o digital. A nova geração da TV aberta combina radiodifusão e Internet, incorporando interatividade, personalização e experiências sob demanda, como mostrou a Agência Brasil.
Há dois anos, a MIT Technology Review Brasil já apontava que a TV 3.0 mudaria estruturalmente o setor de mídia ao unir transmissão aberta e internet em uma mesma infraestrutura digital. Mais do que um salto de qualidade audiovisual, a nova geração da televisão aproxima a lógica da TV tradicional da experiência consolidada pelo streaming.
TV 3.0 muda o modelo da televisão aberta
A política aprovada pela EBC busca “engajar e reconhecer o corpo funcional da empresa como ator central no processo inovador”, enquanto o novo NIT será responsável por coordenar projetos de inovação dentro da companhia.
Com a medida, a EBC indica tentar adaptar sua operação a uma televisão que deixará de funcionar apenas como transmissão linear para operar também como plataforma conectada, integrada a dados e serviços digitais.
A diretora-presidente da EBC, Antonia Pellegrino, afirmou que a empresa “lidera a implantação da TV 3.0 no Brasil” e precisa aprofundar sua capacidade de inovação diante de um cenário global “hiperconectado e digitalizado”.
Historicamente associadas à lógica linear da televisão tradicional, empresas estatais de mídia começam a operar sob a mesma pressão tecnológica enfrentada por grupos privados e plataformas digitais globais.
A TV 3.0 acelera esse processo. O novo padrão permitirá funcionalidades como publicidade segmentada, integração entre televisão e dispositivos móveis, aplicativos embarcados, serviços digitais e interatividade em tempo real.
Na prática, a televisão aberta passa a incorporar elementos antes restritos ao universo das big techs e do streaming. Será possível responder enquetes durante programas ao vivo, acessar informações extras sobre filmes e documentários, alternar câmeras em transmissões esportivas e até realizar compras sem sair da programação.
O chamado “t-commerce” aparece como uma das apostas mais fortes do mercado. A proposta é permitir que o espectador compre produtos diretamente pelo controle remoto enquanto assiste à programação.
A TV 3.0 também transforma a televisão em uma plataforma orientada por dados. Além da audiência, emissoras passam a monitorar comportamento, tempo de interação e engajamento em tempo real, aproximando a lógica da TV aberta do funcionamento atual de plataformas como YouTube, Netflix e TikTok.
A expectativa do setor é que a televisão opere como uma interface conectada e personalizada, combinando transmissão aberta e serviços sob demanda em um mesmo ambiente.
O projeto também exige uma reorganização estrutural da cadeia de mídia. Além da infraestrutura de transmissão, emissoras precisarão desenvolver competências ligadas a análise de dados, cibersegurança e Inteligência Artificial.
Nos bastidores, o avanço da TV 3.0 já mobiliza governo, reguladores e organismos internacionais. Em fevereiro, o Ministério das Comunicações iniciou discussões com o Banco Mundial e o BID para estruturar uma linha de financiamento de até US$ 500 milhões destinada à implementação da tecnologia no país, segundo a EBC.
A própria EBC vem assumindo papel central nos testes técnicos da nova infraestrutura. Em abril, a empresa inaugurou uma estação experimental da TV 3.0 em Brasília em parceria com o Ministério das Comunicações e a Anatel, conforme reportagem da Agência Brasil.
Inovação pública, IA e governança de dados
A transformação da EBC não acontece de forma isolada. Empresas públicas de mídia em diferentes países já tratam IA, automação e plataformas digitais como parte central da infraestrutura da nova televisão.
Ao mesmo tempo, a incorporação crescente de inteligência artificial em estruturas públicas de comunicação amplia um debate já levantado pela MIT Technology Review Brasil: como modernizar serviços públicos orientados por dados sem comprometer transparência, governança e privacidade.
O colunista da MIT Technology Review Brasil Fabio Correa Xavier já alertava que o avanço da Inteligência Artificial no setor público poderia transformar profundamente a relação entre instituições e cidadãos, permitindo personalização de serviços e automação de processos. O avanço, porém, também levanta questionamentos sobre proteção de dados, transparência algorítmica e supervisão institucional.
No caso da TV 3.0, esse debate ganha uma nova dimensão. A combinação entre televisão conectada, publicidade segmentada e recomendação de conteúdo aproxima a experiência da TV aberta dos modelos já utilizados por plataformas de streaming e big techs, baseados em coleta de dados e personalização em tempo real.
A criação de núcleos formais de inovação reforça que transformação digital não depende apenas de equipamentos ou software. Ela exige coordenação entre áreas técnicas, produção, engenharia, dados e distribuição.




