A Inteligência Artificial já dá lucro. Agora vem a parte difícil
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A Inteligência Artificial já dá lucro. Agora vem a parte difícil

A Amazon acaba de ultrapassar, pela primeira vez, a marca de US$ 3 trilhões em valor de mercado. O impulso para o novo patamar veio da divulgação de resultados acima das expectativas, com destaque para a Amazon Web Services, a AWS, cuja receita cresceu 37% em relação ao ano anterior. Foi o ritmo mais acelerado da divisão de nuvem em 18 trimestres.

A empresa não está sozinha. Nos resultados trimestrais, divulgados recentemente, a receita do Google Cloud aumentou 82%, chegando a US$ 24,8 bilhões. A Microsoft informou crescimento de 43% no Azure e encerrou seu ano fiscal com mais de US$ 214 bilhões em receitas de nuvem. Na Meta, a receita publicitária avançou 27%, enquanto a empresa afirma que a Inteligência Artificial está melhorando a recomendação de conteúdo e o desempenho dos anúncios.

Durante algum tempo, a pergunta feita pelo mercado era se a Inteligência Artificial conseguiria gerar dinheiro de verdade. Os resultados mais recentes mostram a resposta: sim.

É difícil calcular exatamente que parcela do lucro dessas empresas foi produzida pela IA. Nuvem, publicidade digital, buscas e assinaturas já eram negócios gigantescos antes do surgimento do ChatGPT. Mesmo assim, está cada vez mais claro que a Inteligência Artificial aumenta a demanda por infraestrutura computacional, melhora sistemas de publicidade e permite cobrar mais por serviços digitais.

A pergunta do momento é: as big techs conseguirão continuar entregando resultados no ritmo e durante o tempo necessário para pagar os investimentos colossais?

  A corrida da Rainha Vermelha

No livro “Alice através do espelho”, a Rainha Vermelha explica que, naquele lugar, era preciso correr o máximo possível apenas para permanecer no mesmo ponto. A metáfora ajuda a compreender o momento das grandes empresas de tecnologia.

Amazon, Google, Microsoft e Meta estão correndo. E muito.

A Amazon aumentou a previsão de investimentos em 2026 para cerca de US$ 220 bilhões. A Alphabet espera desembolsar entre US$ 195 bilhões e US$ 205 bilhões. A Microsoft projeta aproximadamente US$ 175 bilhões, enquanto a Meta prevê algo entre US$ 130 bilhões e US$ 145 bilhões. Embora as metodologias contábeis não sejam exatamente iguais, estamos falando de algo próximo a US$ 730 bilhões em investimentos de capital em apenas um ano.

São data centers, chips, redes de transmissão, sistemas de refrigeração, terrenos, energia e equipes altamente especializadas. Além disso, os equipamentos usados em Inteligência Artificial envelhecem rapidamente. O chip mais poderoso de hoje pode perder competitividade em poucos anos, ou meses.

A corrida, portanto, não termina quando uma empresa constrói um data center. Ela precisa construir o próximo, comprar uma nova geração de processadores e treinar modelos ainda maiores antes que seus concorrentes façam o mesmo. Correr não significa necessariamente avançar. Em muitos casos, significa apenas evitar ficar para trás.

A pressão já se reflete no caixa dessas grandes empresas de tecnologia. A Amazon encerrou o período de 12 meses com fluxo de caixa livre negativo em US$ 7,6 bilhões. Na Alphabet, o fluxo de caixa livre do trimestre ficou negativo em US$ 5,9 bilhões. Na Meta, caiu para apenas US$ 784 milhões, diante da aceleração dos investimentos em infraestrutura.

Isso não significa que os investimentos estejam errados. A demanda existe e, em várias regiões, as empresas ainda enfrentam limitações de capacidade. Mas ajuda a explicar por que um trimestre positivo não encerra a discussão. Para o mercado financeiro, o desafio é a duração. Os resultados precisam se repetir por vários anos para que a conta feche.

E existe uma segunda questão, talvez ainda mais importante, quando deixamos de observar apenas os investidores e passamos a olhar para a economia como um todo.

  Inovação para quem?

Os números mostram que a Inteligência Artificial está criando valor principalmente quando é acoplada a negócios que já existiam e os impulsiona.

O segmento de nuvem vem se consolidando há anos. Agora, como o treinamento e o uso dos modelos exigem quantidades gigantescas de processamento, a IA torna a nuvem ainda mais necessária. Amazon, Microsoft e Google vendem parte relevante da infraestrutura que alimenta a revolução da Inteligência Artificial.

O Google também usa IA para fortalecer seu mecanismo de buscas e sua publicidade digital. No último trimestre, as receitas de buscas cresceram 17%. A Meta faz algo semelhante no Instagram e no Facebook. A Inteligência Artificial ajuda a selecionar conteúdos, ampliar o engajamento, identificar públicos e, consequentemente, aperfeiçoar a entrega de publicidade personalizada. A Microsoft adiciona o Copilot ao pacote Office e a outros produtos com foco corporativo. Ao final do último trimestre, o Microsoft 365 Copilot já tinha mais de 30 milhões de licenças pagas.

Tudo isso envolve inovação tecnológica. Os modelos são melhores, os chips são mais rápidos e os sistemas de recomendação se tornaram mais sofisticados. Mas existe pouca inovação no modelo econômico. A IA está sendo usada, sobretudo, para vender mais nuvem, mais anúncios e versões mais caras de softwares que já existiam.

É como instalar um novo motor em uma máquina antiga. Ela passa a trabalhar mais rápido e a gerar mais dinheiro, mas continua sendo, essencialmente, a mesma máquina.

Fora das big techs, a situação é bem diferente. Empresas de diversos setores ainda tentam descobrir como transformar o uso da Inteligência Artificial em retorno financeiro mensurável. Em 2025, o relatório preliminar do projeto NANDA, do MIT Media Lab, “The GenAI Divide”, concluiu que 95% das organizações estudadas não haviam obtido retorno sobre investimento (ROI) com seus projetos de IA generativa. A principal barreira não seria a qualidade dos modelos, mas a dificuldade de integrá-los aos processos e fazer com que os sistemas aprendessem com o contexto da empresa. O percentual não deve ser tratado como uma lei universal. Mas o alerta permanece válido: disponibilizar uma ferramenta de IA não é o mesmo que transformar um negócio.

As chamadas “tecnologias de propósito geral”, como a Inteligência Artificial, exigem mudanças complementares. A eletricidade só transformou as fábricas quando elas foram redesenhadas. Os computadores só mudaram as empresas quando processos, produtos e funções profissionais também foram reorganizados.

Com a Inteligência Artificial espera-se que aconteça algo semelhante. O ganho mais profundo não virá apenas de escrever um relatório mais rápido, produzir mais anúncios ou reduzir o tempo de uma reunião. Virá quando empresas e trabalhadores criarem produtos, processos e modelos de negócios que antes não eram possíveis.

As big techs já provaram que a IA pode dar lucro. Agora precisam demonstrar que esse lucro será suficiente para sustentar a corrida bilionária pela infraestrutura.

Enquanto isso, o restante da economia enfrenta um desafio diferente: deixar de tratar a Inteligência Artificial apenas como uma ferramenta eficiente e começar a usá-la como plataforma para um novo ciclo inovador.

Até lá, a maior inovação das empresas de tecnologia talvez continue sendo outra: reciclar o passado, acrescentar uma camada de Inteligência Artificial e cobrar mais por ele.

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