A Geração Z cresceu. Parece óbvio, mas às vezes esquecemos. Continuamos falando dela como se fosse formada por adolescentes fazendo dancinhas no TikTok e “farmando aura” nas brincadeiras de escola. Só que os primeiros integrantes dessa geração já estão chegando aos 30 anos. Os nascidos entre 1997 e 2012 trabalham, pagam boletos, casam-se e começam a ter seus filhos.
Eles carregam uma experiência que nenhuma geração anterior teve. Foram os primeiros a atravessar a adolescência com uma parte considerável da vida imersa em tecnologia. Conheceram cedo a Internet, tiveram perfil no Orkut, ganharam celulares quando crianças. Hoje, sofrem com as redes sociais, se comparam com os filtros do Instagram, são amigos de influenciadores e têm seus próprios canais onde produzem vídeos. São jovens adultos que sofrem da estranha necessidade de transformar momentos privados em conteúdo público.
Só que a fila andou e a conta chegou. Agora, é a vez deles criarem alguém que vai crescer com todo esse passivo e ainda acrescentar mais um pouco de “digital” nessa equação.
Esta semana, foi divulgada a pesquisa anual da Deloitte sobre os Gens Z e os millennials. O relatório mostra que 55% deles adiaram grandes decisões da vida por questões financeiras. Entre essas opções estão casamento, estudos, abertura de um negócio e formação de uma família. No Brasil, 45% dizem ter adiado decisões importantes por medo de não conseguirem pagar as contas.
Outras pesquisas revelam que os jovens não querem ter filhos, não têm pressa para conseguir o primeiro emprego, enfrentam problemas com autoridade nas empresas e não se incomodam em ficar morando na casa dos pais até os 40 anos de idade.
E o que será que eles pensam da relação com a tecnologia atual? Que tecnologia eles querem para os seus próprios filhos?
Meus pais queriam saber com quem eu estava andando. Depois, nós da Geração X, começamos a perguntar o que nossos filhos estavam vendo na Internet. Os pais da Geração Z provavelmente terão de fazer uma pergunta diferente: Com quem, ou com o quê, meu filho está conversando?
A resposta, daqui pra frente, será o nome de uma Inteligência Artificial.
Uma criança não precisa mais ficar passivamente olhando para uma tela. Ela pode conversar com ela. Pode pedir uma história, tirar uma dúvida, fazer a lição de casa, pedir um conselho ou simplesmente continuar uma conversa sobre sexo ou drogas.
A MIT Technology Review americana mostrou recentemente um exemplo perturbador. Contou a história do Moxie, um pequeno robô criado para interagir com crianças neurodivergentes como ferramenta terapêutica. A máquina conversava, brincava e construía uma relação que podia ser percebida pela criança como amizade. Quando a empresa responsável enfrentou problemas financeiros, o serviço que mantinha os robôs de companhia funcionando foi cancelado. Do dia para a noite, pais tiveram de explicar aos filhos que Moxie tinha simplesmente deixado de existir. Como lidar com o luto da partida de um robô? Estes são dramas que a nova geração está sofrendo e que nenhuma outra teve de enfrentar.
Mas nem tudo são dramas na vida da Geração Z. Eles já vêm de fábrica com algumas vantagens.
Aprenderam desde as fraldas que plataformas gratuitas nunca são exatamente gratuitas. Sacaram desde cedo que os algoritmos escolhem o que vemos, que notificações disputam nossa atenção e que intimidade também pode ser negligenciada nas redes. Experimentaram a maravilha de encontrar uma comunidade que os abraçasse e o desconforto de nunca conseguir realmente sair dela.
Nós, os mais velhos, recebemos a tecnologia pela promessa. Eles sofreram os efeitos das nossas ressacas. O problema é que nossos filhos enfrentarão máquinas muito mais inteligentes do que aquelas com que aprendemos a lidar.
Eles vão ter que decidir quando uma criança poderá conversar sozinha com uma IA. Que informações poderá fornecer. Até onde um conselho poderá ser aceito. Quando estará ajudando nos estudos e quando estará pensando por ela. E talvez a pergunta mais desconfortável: quanto espaço uma máquina terá que dividir com os pais na criação dos filhos?
Mas a tecnologia também poderá dar apoio e suporte. Esses pais também usarão Inteligência Artificial para aprenderem a serem pais. Perguntarão sobre comportamento, escola, sono e como lidar com a primeira ressaca dos seus adolescentes. Pedirão ajuda na hora de contar histórias para fazerem uma criança dormir ou auxílio para explicar temas difíceis, como sexo. Em algum momento, provavelmente dividirão as angústias de serem pais com suas próprias IAs.
Passamos anos tentando descobrir como a Geração Z iria trabalhar, consumir, votar e se relacionar. Talvez a experiência mais interessante dessa geração esteja apenas começando.
Ela recebeu de nós uma Internet sem manual de instruções. Agora terá de escrever esse manual para seus filhos com a ajuda das IAs.
Como nasceu essa coluna:
Eu, que tenho um filho nascido em 1999, conversava com uma amiga que tem um filho nascido em 2005 sobre a possibilidade deles já poderem ser pais. Ela disse: “Acho que eles ainda não têm maturidade emocional para isso. Mas nós também não tínhamos e encaramos”. Para outra amiga perguntei o que ela achava da chance de se tornar “vovó” em breve. Depois de uma longa risada, disse: “Não penso muito nisso. Sou da geração que ainda corre maratonas e não sabe fazer crochê”.



