Depois de mais de uma década sem novidades terapêuticas, o tratamento da fibrose pulmonar está entrando em uma nova fase. Em julho deste ano, a Anvisa aprovou o nerandomilaste, um antifibrótico para pacientes com fibrose pulmonar idiopática (FPI) e fibrose pulmonar progressiva (FPP). Em estudos de fase 3 publicados no The New England Journal of Medicine, em 2025, o medicamento se mostrou positivo tanto para redução da perda da função pulmonar quanto para o risco de mortalidade. Além disso, em relação aos efeitos colaterais, foi mais bem tolerado pelos voluntários que participaram do estudo quando comparado a outros antifibróticos.
A fibrose pulmonar compreende um conjunto de doenças pulmonares intersticiais (ou seja, ligadas ao interstício, tecido que envolve os alvéolos pulmonares), cujas causas vão desde doenças autoimunes a exposição a substâncias tóxicas (como amianto, poeira de carvão, mofo, cigarro etc.) e infecções. Nessas situações, as lesões sofridas pelo pulmão cicatrizam de maneira anormal, fazendo com que o órgão se torne mais rígido, e, assim, dificultam a passagem de oxigênio para o sangue. Entre os sintomas mais comuns estão tosse seca, falta de ar progressiva e cansaço.
“Já a fibrose pulmonar idiopática é um tipo específico da doença, mais grave, cuja causa não foi identificada”, explica o médico pneumologista Alexandre Amaral, do Grupo de Doenças Intersticiais Pulmonares do Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP). Quando a doença continua piorando, apesar do tratamento, ela é classificada como FPP.
Compreender a diferença entre os termos é importante porque a origem e o comportamento da doença (ou seja, a maneira como progride ou não) determinam o tratamento. “Existe ainda uma confusão com a fibrose cística, um distúrbio genético e hereditário que acomete diversos órgãos, especialmente o pulmão e o pâncreas, mas que não tem relação com a fibrose pulmonar”, afirma o médico pneumologista Alexandre Kawassaki, do Hospital Israelita Albert Einstein.
Apesar de a fibrose pulmonar ter mais de cem tipos diferentes, de acordo com o especialista, a FPI acabou se tornando o protótipo das pesquisas científicas para validar novos antifibróticos, especialmente porque sua progressão clínica é mais previsível em curto prazo. E as últimas evidências têm demonstrado, de fato, que as medicações para FPI são eficientes para outros tipos de fibrose pulmonar. “Entretanto, dependendo da causa da doença, o tratamento vai envolver também outras medicações mais específicas. No caso de uma doença autoimune, por exemplo, incluirá imunossupressores”, diz Kawassaki.
O uso de IA na descoberta de alvos terapêuticos e medicamentos
Outra inovação promissora é o antifibrótico rentosertibe. Publicado no ano passado na revista Nature Medicine, um estudo de fase 2 também demonstrou que o medicamento melhora a função pulmonar dos pacientes com FPI. Recentemente, o fabricante anunciou o início da fase 3 dos estudos para comprovar os benefícios em um número maior de pacientes. O tratamento chamou a atenção da comunidade científica por ter sido desenvolvido com apoio de inteligência artificial (IA) generativa.
Nesse caso, a IA foi usada tanto para identificar o alvo quanto para desenhar o novo medicamento. Isso significa que ela ajudou a analisar grandes volumes de dados biológicos até descobrir que a enzima TNIK agiria como um regulador central da inflamação e da formação das cicatrizes nos pulmões. Em seguida, depois de selecionar a TNIK como alvo, a IA foi aplicada também para criar uma molécula que se ligasse à enzima de modo a inibir sua atividade. “Em suma: a IA gerou o alvo e a molécula candidatos; humanos decidiram o que testar, realizaram os experimentos e avaliaram se a hipótese se sustentava”, afirma o cientista e coautor do estudo Alex Zhavoronkov, CEO da Insilico Medicine, em entrevista exclusiva à MIT Technology Review Brasil.
De acordo com o cientista, tradicionalmente, o processo que vai da seleção do alvo até a indicação de um candidato pré-clínico leva cerca de 4,5 anos e exige a síntese de milhares de compostos. “Reduzimos esse prazo para apenas 18 meses, sintetizando menos de 80 compostos”, diz. Ainda assim, ele acredita que a velocidade, possivelmente, seja a parte menos interessante da equação. “Ao aumentar drasticamente a qualidade dos candidatos e multiplicar nossos ‘chutes a gol’, a IA não está apenas acelerando o processo; ela está garantindo que realmente encontremos as terapias certas para os pacientes”, conclui.
A fibrose pulmonar pode ser mais letal que certos tipos de câncer
A fibrose pulmonar faz parte do rol das doenças raras, aquelas que atingem até 65 pessoas a cada 100 mil indivíduos, de acordo com o Ministério da Saúde. A Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT) estima que a doença afeta cerca de 7 a 9 pessoas a cada 100 mil habitantes no país, com uma incidência de aproximadamente 3 a 5 novos casos para cada 100 mil pessoas por ano.
Apesar da baixa prevalência, a doença merece atenção pela sua gravidade. A FPI, uma das formas mais comuns, tem expectativa de vida de 3 a 5 anos após o diagnóstico, quando não tratada. O dado faz parte do levantamento inglês publicado no New England Journal of Medicine em 2018. “Um prognóstico pior até do que o de certos tipos de câncer”, compara o pneumologista Alexandre Kawassaki, do Hospital Israelita Albert Einstein.
A boa notícia é que, como destaca a pesquisa inglesa, esses desfechos se referem aos casos não tratados. “Se antes o diagnóstico de fibrose pulmonar era praticamente uma sentença de morte, de 2014 para cá, com a chegada dos primeiros antifibróticos, a sobrevida dos pacientes aumentou”, diz a médica Eliane Mancuzo, coordenadora da Comissão de Interstício da SBPT e professora da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais.
A questão é que, muitas vezes, o diagnóstico pode levar anos. “Como os sintomas são inespecíficos, muitas vezes, os pacientes são encaminhados para cardiologistas ou geriatras e acabam recebendo tratamento para uma doença errada”, acrescenta o pneumologista Alexandre Amaral, do InCor. Há relatos de pacientes cuja falta de ar característica da doença chegou a ser confundida com crises de pânico e ansiedade, segundo a Associação Brasileira de Apoio à Família com Hipertensão Pulmonar e Doenças Correlatas (Abraf). “Suspeitamos, portanto, que exista uma grande subnotificação da doença no Brasil”, lamenta Débora Lima, vice-presidente e coordenadora de advocacy da Abraf.
De modo geral, a investigação começa com a avaliação dos sintomas e do histórico do paciente. Na sequência, combina tomografia computadorizada de alta resolução (TCAR) do tórax e testes de função pulmonar, assim como análises específicas para detectar as possíveis causas. Os médicos procuram saber, por exemplo, se há exposição a produtos químicos, tabagismo ou sinais de doenças autoimunes. “Quando esses elementos não são suficientes para chegar a um diagnóstico com precisão, pode ser necessária ainda a realização de uma biópsia do pulmão”, diz Amaral.
Alguns fatores também podem aumentar a suspeita e indicar a necessidade de uma investigação mais cuidadosa. “Além de pacientes tabagistas, com mais de 50 anos, que apresentem sintomas respiratórios, é preciso investigar pessoas com histórico familiar de fibrose pulmonar e com doenças reumatológicas”, alerta a médica Eliane Mancuzo, da SBPT. Isso porque algumas doenças reumatológicas podem levar a uma inflamação persistente e atingir os pulmões. “Outros sinais são o baqueteamento digital (arredondamento da ponta dos dedos das mãos ou dos pés, com unhas curvas e amolecidas) e a presença de crepitações, ou seja, de ruídos anormais identificados na ausculta pulmonar”, completa Mancuzo.
A vida após o diagnóstico de fibrose pulmonar
No caso da enfermeira Andresa Marques, de 44 anos, de Fortaleza (CE), os primeiros sintomas foram rigidez nas mãos e, depois, infecções respiratórias recorrentes. Os exames apontaram para esclerose sistêmica, doença autoimune em que o sistema imunológico provoca uma produção excessiva de colágeno, causando endurecimento da pele e danos aos vasos sanguíneos e órgãos internos (entre eles, o pulmão). “Recebi o diagnóstico em 2018 e, dois anos depois, no meio da pandemia da Covid, fui submetida a um transplante autólogo de medula óssea por causa da esclerose. Na época, meu pulmão já apresentava cerca de 45% de comprometimento”, conta.
O período foi marcado por complicações e uma longa recuperação, que a manteve longe de casa por meses. Atualmente, Andresa faz tratamento com um imunossupressor e um antifibrótico, entre outros medicamentos, além de reabilitação cardiopulmonar três vezes por semana. E, embora as limitações tenham mudado sua rotina, ela procura manter uma vida ativa, inclusive com viagens ao exterior. Nas redes sociais, compartilha informações sobre acessibilidade e direitos de pessoas com deficiência e doenças pulmonares. “Eu tenho a doença, mas eu não sou a doença”, resume.
Andresa participa da Abraf, integra um conselho de pacientes de um laboratório farmacêutico e já esteve em audiências públicas no Congresso Nacional para falar sobre o acesso a medicamentos e o atendimento às pessoas com fibrose pulmonar. Para ela, é essencial ressaltar que nem todos os pacientes brasileiros têm acesso aos melhores tratamentos no combate à doença. A vice-presidente da Abraf, Débora Lima, concorda. “Além da dificuldade do diagnóstico, o acesso aos medicamentos é restrito, pois os antifibróticos não são incorporados ao SUS”, afirma. Outro obstáculo comum é a falta de tratamento multidisciplinar, já que existem poucos centros de referência no país. “Como a diarreia é um dos efeitos colaterais mais frequentes dos antifibróticos, o paciente com fibrose pulmonar costuma perder peso com frequência. Isso torna fundamental o acompanhamento por um nutricionista, só para citar um exemplo”, conta.
A necessidade de uma assistência ampla se torna ainda mais evidente diante de uma doença que, apesar dos avanços terapêuticos, ainda não tem cura. Até o momento, os medicamentos podem evitar a progressão da doença. Não fazem, porém, com que ela regrida. “A única exceção é o transplante de pulmão, que é indicado normalmente para pacientes que tenham falta de ar até mesmo aos pequenos esforços e precisem usar oxigênio para respirar. Esse tipo de cirurgia, entretanto, não está amplamente disponível no país”, explica o pneumologista Alexandre Kawassaki, do Hospital Israelita Albert Einstein.
Andresa, que já convive há oito anos com a doença, se mantém otimista mesmo assim. “Antigamente, a AIDS era uma doença mortal. Hoje, com os coquetéis, as pessoas com o HIV têm uma vida normal. Novos antifibróticos estão vindo por aí, não podemos perder a esperança”, conclui.


