A adesão do Brasil, em março de 2026, à declaração internacional para triplicar a capacidade nuclear global até 2050 marca um ponto de inflexão importante. Não porque o país esteja entrando agora no debate nuclear global, mas por sinalizar um compromisso com um tema que está em discussão ao longo das últimas décadas.
O Brasil sempre esteve presente nas discussões internacionais sobre energia nuclear. O que variou foi a forma como essa agenda avançou internamente, marcada por mudanças de prioridade entre governos. Nesse contexto, a assinatura da declaração em março de 2026 não indica automaticamente uma mudança estrutural, mas levanta a questão de se esse compromisso poderá se traduzir em uma posição estratégica mais clara, justamente em um momento em que a energia firme volta a ganhar centralidade na geopolítica energética.
Essa adesão ocorre em um contexto de exacerbação dos riscos associados à dependência energética internacional. Conflitos recentes evidenciaram a vulnerabilidade de países que dependem de importações de combustíveis fósseis ou de cadeias de suprimento sujeitas a interrupções. A volatilidade geopolítica reacende a discussão sobre soberania energética, autonomia industrial e resiliência de sistemas elétricos. Nesse cenário, a energia nuclear reaparece como infraestrutura crítica, capaz de fornecer eletricidade firme, previsível e de baixíssimo carbono, independentemente de condições climáticas ou de flutuações de mercado.
O Brasil está particularmente bem-posicionado para responder a esse ciclo. O país possui uma das maiores reservas de urânio do mundo e domina o ciclo do combustível nuclear, desde a mineração até o enriquecimento por ultracentrífugas desenvolvidas nacionalmente e a fabricação dos elementos combustíveis utilizados em reatores de potência. Essa combinação de recursos naturais e domínio tecnológico coloca o Brasil em um grupo seleto de países capazes de manter um programa nuclear com muitos recursos autônomos. A operação contínua e segura de Angra 1 e Angra 2 reforça essa credencial, e a extensão da licença de operação de Angra 1 por mais vinte anos, concedida em 2024, demonstra a capacidade do país em manter seus ativos nucleares com padrões internacionais de segurança.
Tecnologias nucleares em disputa: grandes reatores, SMRs e microrreatores
A discussão da conclusão de Angra 3 tem impactado a discussão sobre futuros reatores no país, porém a assinatura brasileira da declaração internacional traz mais urgência para o debate interno sobre qual trajetória tecnológica o país deve seguir. Essa definição não se limita à escolha entre grandes reatores, pequenos reatores modulares (SMRs) ou microrreatores, mas envolve a compreensão de como cada um desses modelos responde às necessidades de segurança energética, descarbonização e suporte à crescente demanda energética impulsionada por Inteligência Artificial, data centers e processos industriais com uso intensivo de energia.
Grandes Reatores
Os grandes reatores permanecem como espinha dorsal dos programas nucleares de países que buscam volumes significativos de energia firme. Diversos países estão construindo reatores grandes de terceira geração avançada, conhecidos como geração 3+. Esses reatores, com potências geralmente entre 1.000 e 1.600 megawatts, incorporam sistemas de segurança passiva capazes de realizar o desligamento seguro sem necessidade de energia externa. A segurança passiva utiliza princípios físicos fundamentais, como gravidade, convecção natural e expansão térmica, para garantir que o reator entre em estado seguro mesmo na ausência de energia elétrica ou intervenção humana.
Por exemplo, as barras de controle de um reator nuclear são feitas de materiais que absorvem nêutrons. Quando são inseridas no núcleo, elas interrompem a reação em cadeia e permitem o desligamento seguro do reator. Nos reatores de geração 3+, o conceito de segurança passiva foi incorporado ao próprio design: as barras ficam posicionadas no topo do reator de modo que, se houver perda de energia externa, elas descem sozinhas por gravidade. Esse movimento automático interrompe a fissão nuclear sem depender de sistemas elétricos ou da ação humana.
Esses reatores também têm utilizado inovações em sua construção, como a construção modular em larga escala onde módulos inteiros (equivalentes a edifícios completos) são pré-fabricados em fábricas e transportados ao local para a sua instalação, reduzindo riscos de obra, padronizando processos e encurtando cronogramas. Países como Estados Unidos, Polônia, China, Índia, França, Reino Unido continuam investindo em grandes reatores, inclusive para garantir fornecimento contínuo a data centers e infraestruturas digitais críticas.
SMRs
Os pequenos reatores modulares (SMRs) estão no centro das discussões globais e representam uma das frentes mais dinâmicas de inovação. Segundo a Agência Internacional de Energia Atômica, existem atualmente dezenas de tecnologias de SMRs em desenvolvimento, com diferentes abordagens de combustível, refrigeração e arquitetura de núcleo. Eles se caracterizam pelo investimento inicial mais baixo, construção modularizada, maior flexibilidade de implantação e potencial de cogeração (como integração com hidrogênio de baixo carbono) e load follow (alteração da potência acompanhando a demanda) que é muito necessário para redes elétricas com alta penetração de renováveis. A modularidade, dependendo do design do reator, também pode permitir o aumento progressivo da capacidade instalada e facilita a padronização industrial.
Durante um evento em Paris em março de 2026, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, anunciou metas para o desenvolvimento e a implementação dessa tecnologia em toda a União Europeia juntamente com compromisso de investimento de 200 milhões de euros para estimular o setor.
“Não só reduziremos os riscos dos investimentos nessas tecnologias de baixo carbono, como também queremos enviar um sinal claro para que outros investidores se juntem a nós,” prosseguiu, afirmando que “a corrida tecnológica nuclear começou”. “Temos meio milhão de trabalhadores altamente qualificados na área nuclear, muito mais do que os Estados Unidos e a China.”
No entanto, apesar do grande potencial, os SMRs ainda enfrentam desafios de licenciamento, padronização e maturidade industrial, e sua competitividade econômica depende de cadeias de suprimento estáveis.
Microrreatores
Os microrreatores representam uma fronteira ainda mais inovadora e expandem o escopo de aplicações da energia nuclear. Com potências inferiores a 10 megawatts, eles têm diversos potenciais de aplicações como operar em comunidades remotas, bases militares, plataformas offshore e até estão sendo investigados para transporte em “balsas” para serem levados e utilizados em localidades com necessidades urgentes devido a situações de emergência. Essa categoria de reatores pode desempenhar papel relevante na descarbonização de setores que hoje dependem de combustíveis fósseis e demandam alta confiabilidade energética. Uma curiosidade adicional dessa tecnologia é que é vista como de grande potencial para aplicações espaciais. Programas conduzidos por agências como a NASA avaliam o uso de microrreatores incluindo em operações na Lua.
A escolha tecnológica brasileira não deve ser tratada como uma decisão binária, mas como parte de uma estratégia integrada. Grandes reatores oferecem densidade energética e escala compatíveis com a demanda crescente de eletricidade firme. SMRs ampliam a flexibilidade e permitem aplicações descentralizadas. Microrreatores abrem espaço para inovação e novos mercados. O desafio é construir essa estratégia de maneira coerente para que integre essas tecnologias de acordo com necessidades específicas, capacidades industriais e horizontes de tempo distintos devido aos diferentes tempos de desenvolvimento dessas tecnologias.
Desafios estruturais e necessidades de longo prazo
Além da definição tecnológica, o avanço do setor nuclear brasileiro depende da capacidade de sustentar um programa de construção e expansão contínuo, estável e industrialmente robusto. A experiência de Angra 3 evidencia o custo de interrupções prolongadas. A paralisação da construção por décadas resulta em perda de competências, necessidade de requalificação de profissionais e aumento significativo de custos. A retomada de um projeto dessa magnitude exige reconstrução de uma cadeia de suprimentos que permaneceu desmobilizada por longos períodos, o que compromete cronogramas e eleva riscos.
Um programa nuclear exige continuidade institucional e previsibilidade regulatória. Reatores concebidos hoje são projetados para operar por oitenta ou até cem anos. Angra 1, originalmente planejada para quarenta anos, teve sua licença renovada por mais vinte, demonstrando que a longa vida operacional é uma característica central da tecnologia nuclear. A ausência de decisões consistentes compromete não apenas projetos específicos, mas a formação de profissionais, a manutenção de competências críticas e a capacidade de atrair investimentos.
A transição energética também enfrenta um desafio humano, como mencionado na minha coluna anterior. A formação de engenheiros, operadores, técnicos e especialistas em segurança nuclear exige décadas de investimento contínuo. Por isso, a construção de uma estratégia nuclear brasileira exige decisões claras e um roadmap tecnológico capaz de orientar o país nas próximas décadas. Instituições como a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) já estudam tecnologias nucleares emergentes e seus potenciais papéis na matriz elétrica. Essa visão de longo prazo é essencial para integrar recursos naturais abundantes, domínio tecnológico e continuidade institucional. A expansão da energia nuclear, em complementaridade às renováveis, contribui para uma matriz diversificada, resiliente e de baixíssimo carbono, desde que acompanhada de planejamento consistente, estabilidade regulatória e compromisso contínuo com a manutenção de uma cadeia de suprimentos ativa e tecnicamente competente.




