“Eu não sou um futurista. Sou um presentista”
Humanos e tecnologia

“Eu não sou um futurista. Sou um presentista”

Estudioso da mídia, escritor, professor norte-americano e, por que não, um provocador, Douglas Rushkoff estará no São Paulo Innovation Week neste mês de maio

Com estante de livros e um quadro ao fundo, luz indireta, câmera de ponta e microfone de podcast, o norte-americano Douglas Rushkoff nos “recebeu” em casa, para uma entrevista online, com nosso editor-executivo, Alexandre Roldão.

Na conversa, temas como a importância de manter a estranheza humana, o hiperindividualismo das novas gerações e a comparação das IA´s com pornografia.

Bem-humorado, o teórico da mídia volta ao Brasil, dessa vez para participar do São Paulo Innovation Week (SPIW). O evento, que reúne inovação, tecnologia, ciência, cultura, empreendedorismo e impacto social, acontece entre os dias 13 e 15 de maio, na Mercado Livre Arena e na Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP). A MIT Technology Review Brasil é parceira do São Paulo Innovation Week e participará em quatro painéis e um podcast.

Rushkoff está entre os mais de 1.500 palestrantes nacionais e internacionais e falará sobre “Humanidade em Equipe: Reconstruindo a Sociedade Juntos”, na noite do dia 15, quando também acontecerá uma sessão de autógrafos. Embora seja um estudioso de tecnologia e mídia, mantém o foco no humano, valorizando comportamento, criatividade e tudo o que está ligado à nossa essência.

Você chocou o público no festival South by Southwest (SXSW) ao pedir um “retorno ao estranho”. Poderia explicar a ideia e dar alguns exemplos do que considera estranho hoje em dia?

Sim, a Internet do começo era estranha. Ela surgiu ao mesmo tempo que muitas coisas na cultura. No fim dos anos 1980, começo dos anos 1990, havia coisas estranhas, como fractais e matemática do caos, a nova física, junto com o hipertexto, o renascimento psicodélico, a cultura rave, jogos de interpretação de papéis de fantasia e ficção cyberpunk. Havia muita gente se perguntando sobre o que faz o mundo funcionar e o que as pessoas podem fazer se estiverem conectadas em rede, com novos tipos de tecnologias. Foram anos maravilhosos, em que todo mundo estava desenvolvendo novos modos de comunicação, novas maneiras de pensar e criar em conjunto.

Pouco depois disso, outro grupo olhou para a Internet pensando “como podemos ganhar dinheiro?”. Crianças compartilhando videogames, shareware, código aberto e fazendo raves pode ser bom para a cultura, mas quando você investe em uma tecnologia, faz uma aposta e quer a maior probabilidade de que essa aposta vá se concretizar. Então, em vez de estimular o estranho, usamos tecnologia para tornar o comportamento mais previsível. E, agora, com a Inteligência Artificial, de novo gostamos de pensar “ah, poderíamos usar essas tecnologias para pensar todo tipo de coisa nova”, mas, na verdade, o jeito que a IA funciona é com mecanismos de probabilidade.

As pessoas no Vale do Silício, em São Francisco (EUA), estavam fazendo conferências sobre negócios, maximizar retornos, como fazer startups e ganhar dinheiro. E Austin (onde acontece a SXSW) era um lugar estranho. O South by Southwest era um festival de cinema alternativo, mas, lentamente, ficou muito corporativo e se tornou, em alguns aspectos, numa abordagem ainda mais conservadora do desenvolvimento tecnológico do que o Vale do Silício. Então, quando eu fiz minha palestra, eu estava realmente dizendo a Austin, “ei, vocês perderam o fio da meada aqui. Vocês viraram o sistema, o mecanismo de probabilidade e têm que trazer de volta a diversão, o estranho, ou vamos nos programar até deixar de existir”.

Como surgiu a iniciativa “Team Human”, que também é podcast e o nome de um dos seus livros? Ela ainda é viável, ou estamos apenas jogando de acordo com as regras escritas pelas máquinas?

Enquanto houver pessoas, o Team Human é viável. A ideia surgiu quando eu estava em um painel com Ray Kurzweil, que é meio transumanista. Ele estava argumentando que os seres humanos deveriam passar a tocha evolutiva para nossos sucessores robôs e aceitar nossa inevitável substituição e extinção. Eu disse “não, os seres humanos são especiais”. Nós lidamos com paradoxo, ambiguidade, criatividade e somos estranhos. Deveria haver um papel para as pessoas no futuro. E o Kurzweil disse, “ah, Rushkoff, você só está dizendo isso porque você é humano. Certo?”. Como se fosse arrogância. E foi aí que eu disse, ao vivo na TV, “tudo bem. Sou culpado. Eu estou no Team Human”.

Esse foi o começo. Quanto mais eu pensava nisso, mais gostava da ideia do Team Human como defesa da humanidade, um esporte coletivo. O hiperindividualismo da era digital nos levou por um corredor sombrio em que acreditamos no indivíduo e eu acredito no coletivo. O que distinguiu os seres humanos foi nossa capacidade de compartilhar e de nos coordenarmos uns com os outros.

A era digital engendrou esse modo hiperindividualista, muito competitivo. São iPhones, não são “wePhones” nem “usPhones”. As pessoas que comandam essas empresas também são meio super-homens individuais, que acreditam que só eles podem transcender o humano, se tornar pós-humanos, criar asas, viver em um servidor, ou ir para Marte e respirar espaço em vez de ar. No fim das contas, eu acho que é um sentimento anti-humano. Ele não abraça o chão, o toque e a nossa natureza sensorial, sexual, conectada.

Falando em transcender o humano, eficiência virou quase uma ideologia hoje em dia. O que estamos sacrificando em nome de otimizar tudo com IA?

Se você otimiza os sistemas e as instituições existentes, otimiza o capitalismo, o colonialismo, a eugenia, sistemas que, no fim das contas, vão nos levar à extinção. Não se deve rodar um programa até a limite, isoladamente, ou todo o resto desaparece. Você não quer usar IA para levar qualquer programa à conclusão. O jeito como a IA remove o atrito pode ser um problema, porque o atrito é um regulador natural que impede qualquer sistema de escorregar ao extremo. Existem forças de equilíbrio. O perigo maior não é se uma IA superconsciente decidir nos matar, mas ela turbinar sistemas já existentes. IA somada a drones leva a coisas ruins. IA mais capitalismo, negociações ultrarrápidas, propaganda… qualquer uma dessas coisas.

Como equilibramos a IA com governança humana? Eu não quero dizer um grande governo, mas a capacidade de seres humanos, trabalhando uns com os outros, de agir e mitigar os efeitos. A outra questão que eu estou observando é que a IA tem mais valor de utilidade do que qualquer ser humano. Ela pode fazer coisas, mas, se você só olha para os seres humanos em termos do seu valor de utilidade, perde o que os seres humanos são. Só porque alguma coisa é uma trabalhadora melhor, isso significa que você não deveria mais existir? Não. Nós temos mais valor de estranheza, mais valor criativo.

Você falou do atrito. Acha que a IA está acabando com o atrito das próximas gerações, a geração Z e a geração Alpha, e dando algumas respostas que elas realmente querem ouvir, sem discussão?

Tivemos uma geração que precisava de espaços seguros para não ser desafiada e, agora, temos uma geração criada com IAs bajuladoras que se importam mais em agradar do que em dizer a verdade. Isso vai reduzir a tolerância delas ao atrito? Talvez. Acho que o efeito será semelhante ao da pornografia naquela geração: condiciona uma abordagem diferente para aprendizado, informação e pensamento, do mesmo jeito que condicionou um entendimento diferente de como o sexo funciona.

Ter IAs bajuladoras não significa que as pessoas vão querer relacionamentos bajuladores. Elas podem, na verdade, ter fome de outra coisa. Tem muita gente trabalhando para limitar esse problema, com comandos prévios e treinamento. Alguns dizem que é tarde demais, mas, se reservarmos tempo para os jovens terem encontros humanos com outros humanos, há uma oportunidade: se a IA estiver fazendo cada vez mais nosso trabalho utilitário, então a educação pode se concentrar mais no trabalho social, cívico e na capacidade de sermos compassivos.

Um pouco menos trabalho, um pouco mais experiência humana?

Depende de que tipo de civilização que queremos viver. Quando você vive em uma civilização piramidal como a nossa, ela é otimizada para aquisição, controle e poupança. Você junta um monte de coisas para subir a pirâmide. Se você vive em uma civilização horizontal, como a do fim da Idade Média ou de muitas comunidades indígenas, você não tem um jeito de poupar, não tem contas bancárias, não tem juros. Eu espero que, se a gente cair na real, o aumento de eficiência com a IA nos incentive a tomar mais tempo para fazer outras coisas.

Neste mês de maio, você vai estar em São Paulo para a Innovation Week. Poderia dar alguns spoilers? O público vai sair da sua palestra mais otimista, ou mais preocupado?

Depende de quem eles são e o que valorizam. Eu não sou um futurista. Sou um presentista. Então, o que tento fazer quando falo é aumentar a consciência das pessoas sobre o momento que elas estão vivendo agora. Acho que as pessoas vão sair da minha palestra mais conscientes do impacto tremendo que elas têm sobre tudo em cada momento. Nós somos mágicos, somos seres de conjuração, lançando feitiços com os nossos pensamentos, fala e ações. E, quanto mais assumimos a responsabilidade por isso, mais mágico o mundo se torna e mais agência temos sobre o que virá.

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