Por que mapear as megatendências agora
O futuro da energia tende a ser definido não por uma única tecnologia ou fonte, mas pela forma como diferentes transformações se encontram e ganham escala. Em um setor cada vez mais conectado à indústria, à tecnologia e às decisões de investimento, identificar quais mudanças têm potencial para alterar o mercado tornou-se tão importante quanto compreender seus impactos.
Essa é a proposta do 10 Energy Megatrends 2026, publicação do Energy Summit Global em parceria com a MIT Technology Review Brasil e conteúdo produzido com apoio da Deloitte. O lançamento do relatório, em 28 de outubro, no Smart Solutions Center da Deloitte, reuniu lideranças e especialistas do setor para discutir as megatendências mapeadas e o que elas podem significar para os próximos anos da indústria energética.
Hudson Mendonça, CEO do Energy Summit, destacou na apresentação das megatendências um dado que ajuda a dimensionar a importância de acompanhar transformações citadas no relatório: 18 das 20 maiores rodadas de investimento de 2026 em startups de energia estão associadas a megatendências já identificadas na edição de 2024. O recorte parte de um levantamento do Startupriders, de outubro, que reúne 32 rodadas acima de US$ 50 milhões. Para o CEO, o alinhamento entre as megatendências de 2024 e os maiores aportes de 2026 sugere que acompanhar tendências pode ajudar a antecipar movimentos de capital de maneira estratégica.
Na mesa de abertura do evento, Ana Carolina David, diretora de Comunicação e Relações Governamentais para a América Latina da Hitachi Energy, apontou o peso do momento para o setor elétrico. “As decisões que a gente vai tomar hoje são, de fato, o que vai pautar os próximos
25 anos”, afirmou. Ela ainda completa que “nunca vivemos uma transformação como essa” e que “a demanda por equipamentos elétricos hoje é sem precedentes”.
Para o Brasil, o relatório sustenta que essa leitura vai além da disponibilidade de recursos naturais. O país chega a essa discussão com vantagens que o relatório destaca, como uma matriz com mais de 85% de fontes renováveis e a flexibilidade das hidrelétricas. Converter esse potencial em negócios, porém, depende de fatores como conexão à rede, regulação e remuneração. É a partir dessa perspectiva que o relatório examina dez megatendências, avaliando o potencial de cada uma, a prontidão do país e os caminhos que podem levar das oportunidades aos negócios.
De mais de 60 macrotendências a dez megatendências
Mapear o futuro da energia exige mais do que identificar tecnologias emergentes: é preciso distinguir movimentos pontuais de transformações capazes de alterar cadeias produtivas, modelos de negócio e decisões de investimento. Para fazer essa distinção, o 10 Energy Megatrends 2026 partiu de mais de 60 macrotendências tecnológicas e regulatórias e chegou a dez megatendências: sete classificadas, segundo a apresentação do lançamento, como “em movimento” e três como breakthroughs, categoria que reúne as apostas de horizonte mais longo e que o relatório define como tecnologias de fronteira com elevado potencial de impacto, mas ainda sujeitas a incertezas tecnológicas, econômicas, regulatórias e de escala.
A análise adota o modelo de cinco atores do MIT Regional Entrepreneurship Acceleration Program (MIT REAP, ou Programa de Aceleração do Empreendedorismo Regional do MIT): governos, corporações, universidades, capital de risco e empreendedores. Cada ator recebe uma nota de influência de 1 a 5 em cada megatendência, e o relatório indica o que cada um precisa fazer nos próximos 12 meses.
Uma segunda escala avalia a prontidão do Brasil, de 1 (incipiente) a 5 (consolidado), passando por emergente, estruturante e avançado. Entre os critérios estão marco legal, demanda contratada, capital alocado, startups e fundos. O relatório esclarece que a escala é editorial, inspirada no MIT REAP e sem caráter de metodologia oficial, e que o rating é um instrumento qualitativo, não uma projeção de mercado nem recomendação de investimento.
O resultado é um mapa que mostra, para cada frente, quem a move e em que estágio o país se encontra.
As 10 Energy Megatrends 2026
Há megatendências que já estão em curso e outras que ainda podem demorar décadas. O 10 Energy Megatrends 2026 reúne, no mesmo mapa, a infraestrutura que sustenta a Inteligência Artificial (IA), com horizonte de 2026 a 2028, e tecnologias de fronteira como a fusão nuclear, cuja demonstração comercial o relatório situa entre 2035 e 2045, e a geração de energia no espaço, ainda pré-comercial, com horizonte até 2050. Em comum, todas colocam uma questão central para o Brasil: como transformar recursos, conhecimento e inovação em soluções competitivas, capazes de ganhar escala e gerar valor econômico.
01. Energy for AI & AI for Energy
A expansão da IA pressiona a infraestrutura elétrica, enquanto a própria tecnologia abre possibilidades para tornar os sistemas energéticos mais eficientes. Segundo dados da Agência Internacional de Energia (IEA) citados pelo relatório, o consumo de eletricidade dos data centers pode passar de 485 TWh em 2025 para mais de 950 TWh em 2030, e a conexão à rede nos Estados Unidos e na Europa leva de cinco a sete anos.
O desafio vai além de gerar mais energia: é preciso disponibilizá-la no local e no momento em que será consumida. No lançamento, Virginia Feitosa, diretora de relacionamento com clientes de grande porte da AXIA Energia, resumiu essa interdependência: “Energia e data centers são irmãos, um não vive sem o outro”. Ela apontou a conexão à rede e a disponibilidade de energia firme como fatores que influenciam a localização dos investimentos. Para o Brasil, o relatório indica que o potencial da matriz renovável precisará ser acompanhado de infraestrutura e regulação capazes de atrair projetos intensivos em energia.
02. Sistemas e Modelos de Flexibilidade e Armazenamento em Escala
Com a expansão das fontes solar e eólica, cresce a necessidade de equilibrar oferta e demanda de eletricidade. Baterias, recursos energéticos distribuídos e usinas virtuais podem ajudar a armazenar excedentes, responder a variações no consumo e aproveitar melhor a capacidade instalada.
No debate de lançamento, Leticia Dantas, diretora de Inovação da Energisa, destacou que a tecnologia já permite avançar nessa direção. “Já temos tecnologia suficiente para investir na flexibilidade. A questão é desenhar o mercado de flexibilidade brasileiro.” Segundo o relatório, a escala depende de regras que reconheçam e remunerem armazenamento, agregação e resposta da demanda. Como caso brasileiro, o capítulo cita o FlexLab da Energisa, cuja primeira chamada recebeu 296 propostas de 13 países.
03. Minerais Críticos e Valor Industrial
Lítio, terras raras, nióbio e níquel são importantes para a fabricação de baterias, motores elétricos, aerogeradores e outros equipamentos essenciais à transição energética. O Brasil reúne recursos minerais estratégicos, mas a oportunidade vai além da extração: envolve desenvolver etapas de refino e transformação industrial, hoje concentradas na Ásia, segundo o relatório. O relatório cita a Sigma Lithium, que produz concentrado de espodumênio no Vale do Jequitinhonha, e aponta o refino químico como próximo passo.
04. Robótica e Physical AI em Óleo & Gás
A combinação de robótica, Physical AI e gêmeos digitais pode transformar operações de óleo e gás, especialmente em ambientes complexos como o pré-sal, que, segundo o relatório, opera em lâmina d’água superior a 2.500 metros. Robôs autônomos podem realizar inspeções, identificar anomalias e reduzir a exposição de profissionais a atividades de risco, enquanto modelos digitais ajudam a antecipar falhas e planejar a manutenção. O Brasil já participa do desenvolvimento dessas soluções, mas ainda enfrenta o desafio de ampliar sua aplicação industrial.
05. Soluções Baseadas na Natureza e Bioeconomia Florestal
A conservação e a restauração de ecossistemas podem ganhar relevância econômica à medida que empresas e mercados de carbono demandam resultados ambientais verificáveis. Nesse contexto, tecnologias de monitoramento, como satélites e IA, ajudam a medir estoques de carbono e acompanhar a evolução de projetos.
Segundo o relatório, o Brasil tem mais de 30 milhões de hectares de pastagens degradadas aptas à restauração produtiva sem competir com a agricultura, mas a oportunidade depende de demonstrar a integridade dos resultados. Adicionalidade, permanência, rastreabilidade e governança territorial são os critérios que dão credibilidade aos créditos de carbono e atraem capital.
06. Biorrefinarias Avançadas e Combustíveis Renováveis
A descarbonização da aviação e do transporte pesado, atividades difíceis de eletrificar, abre espaço para combustíveis produzidos a partir de biomassa e resíduos, como os combustíveis sustentáveis de aviação (SAF), o diesel verde e o biometano. Segundo o relatório, a Lei do Combustível do Futuro prevê redução progressiva das emissões na aviação, de 1% em 2027 a 10% em 2037.
No Brasil, a experiência com biocombustíveis e a disponibilidade de matérias-primas podem favorecer diferentes rotas de produção. A megatendência destaca que o diferencial não está em escolher uma única tecnologia, mas em ter acesso simultâneo a várias matérias-primas e rotas. Para transformar essa vantagem em mercado, aponta como necessários escala produtiva, certificação internacional, segurança jurídica e contratos de compra de longo prazo.
07. Infraestrutura para Mobilidade Elétrica e Híbrida Flex
A transformação da mobilidade não depende de uma única tecnologia. Veículos elétricos, híbridos e híbridos flex podem coexistir, com aplicações distintas conforme o perfil de uso, a infraestrutura disponível e a matriz energética. Segundo o relatório, a eletrificação integral de um país continental exigiria grandes reforços de rede, e os híbridos flex combinam eletrificação com etanol.
Volker Heumann, Diretor de Engenharia de P&D da Divisão América da BYD, presente no evento de lançamento, listou o que ainda freia a adoção: dúvidas do consumidor sobre a confiabilidade da tecnologia e a disponibilidade de peças, a ansiedade com a recarga e a infraestrutura de recarga, ainda concentrada no litoral, no Sul e no Sudeste. Para viagens longas, disse, a opção hoje é o híbrido plug-in. Ele afirmou que também faltam normas para a instalação de carregadores ultrarrápidos, tema em que a empresa diz trabalhar com as distribuidoras. O relatório aponta a expansão da recarga rápida e a nacionalização de componentes como os principais gargalos.
08. Fusão Nuclear: Confinamento Magnético
A fusão nuclear usa tokamaks e ímãs supercondutores para fundir deutério e trítio, com potencial para gerar eletricidade limpa, firme e de alta densidade. Ímãs supercondutores de alta temperatura permitem reatores mais compactos, como o SPARC, da Commonwealth Fusion Systems (CFS), spin-off do MIT, que prevê demonstrar ganho de energia no plasma em 2027.
Apesar do interesse crescente de investidores e empresas, a fusão permanece em estágio predominantemente experimental. O relatório ressalta que ganho de energia no plasma não equivale a eletricidade líquida na rede, objetivo atribuído ao reator seguinte da CFS, o ARC, previsto para o início da década de 2030, e que o manejo do trítio em escala comercial segue como desafio. Para o Brasil, a experiência em física de plasmas, com o Tokamak TCABR na USP, pode contribuir para a pesquisa e para a participação em futuras cadeias tecnológicas.
09. Energia no Espaço: SBSP e Microrreatores Orbitais
A geração de energia solar no espaço (SBSP) prevê captar radiação por meio de satélites e transmitir a eletricidade à Terra, enquanto microrreatores nucleares podem fornecer energia contínua a estruturas orbitais. Segundo o relatório, o custo de lançamento caiu de patamares
próximos de US$ 20 mil por quilo para poucos milhares de dólares nos últimos 20 anos, e a transmissão sem fio acumula demonstrações experimentais, mas as tecnologias seguem pré-comerciais.
O Brasil pode encontrar oportunidades em cadeias relacionadas à infraestrutura espacial. O relatório aponta como vantagem geográfica a localização do Centro de Lançamento de Alcântara, próximo à linha do Equador, e vê o país mais como participante de cadeias globais do que como desenvolvedor líder. Transformar essa vantagem em participação econômica exigirá desenvolvimento tecnológico, capacidade industrial e integração a mercados globais.
10. H2V Marítimo e E-Fuels: Power-to-X
A navegação consome mais de 300 milhões de toneladas de bunker de origem fóssil por ano, segundo o relatório, e enfrenta metas de redução da Organização Marítima Internacional (IMO). Nesse cenário, o hidrogênio verde pode servir de base para derivados como amônia e metanol verdes, mais adequados ao armazenamento e ao transporte.
O Brasil tem potencial para desenvolver essa cadeia a partir de sua oferta de energia renovável e de projetos industriais e portuários. O relatório projeta custo de hidrogênio verde da ordem de 2 dólares por quilo no Nordeste até 2030, mas a competitividade dependerá do custo da eletricidade, da escala, da eficiência dos eletrolisadores e da logística. Hubs como Pecém e Açu podem integrar diferentes etapas da cadeia, mas a consolidação do mercado também exigirá compradores, contratos de longo prazo e regras capazes de sustentar os investimentos.
O relatório conclui que nenhuma das dez megatendências avançará isoladamente: cada uma depende da atuação coordenada de governos, corporações, universidades, capital de risco e empreendedores.
Um encontro entre quem pesquisa, investe e transforma o setor
O evento que ocorreu no Smart Solutions Center da Deloitte recebeu o lançamento das 10 Energy Megatrends 2026. Ao longo de uma tarde de apresentações e painéis, executivos da indústria, especialistas em tecnologia e lideranças do ecossistema de inovação discutiram como as transformações mapeadas pelo relatório afetam as decisões de investimento, a competitividade das empresas e o posicionamento do Brasil no mercado global. Representantes de empresas como Hitachi Energy, AXIA Energia, ELEA Data Centers, Energisa, Petrobras, BYD e Deloitte trouxeram diferentes perspectivas sobre os desafios que atravessam o setor, da infraestrutura elétrica à Inteligência Artificial, dos minerais críticos às tecnologias emergentes.
Na apresentação das megatendências, Hudson Mendonça destacou a ideia de adição energética como uma chave para compreender as transformações em curso. Em vez de uma transição baseada na substituição linear de fontes, o setor caminha para a combinação de tecnologias e recursos em diferentes contextos. Ele contextualiza o que para ele é “o paradigma da adição energética: não é ou é E. O setor de energia caminha para um processo de transformação completa. O futuro da energia será pensar em coordenação, adição e potencial para execução”, afirma o CEO.
Essa perspectiva orientou parte importante dos debates: a disponibilidade de recursos e tecnologias não garante, por si só, competitividade. A capacidade de atrair investimentos e desenvolver novas cadeias de valor depende também de infraestrutura, segurança regulatória, modelos de negócio e articulação entre os agentes do mercado. Na abertura, Ana Carolina David, diretora de Comunicação e Relações Governamentais para a América Latina da Hitachi Energy, ressaltou o peso das decisões tomadas no presente sobre o futuro do setor. “O que vamos falar hoje vai pautar os próximos 25 anos, não apenas para entender quais são os caminhos possíveis, mas quais decisões precisamos tomar hoje”, afirmou. A executiva também chamou atenção para a demanda sem precedentes por equipamentos elétricos, reflexo da expansão e da transformação dos sistemas de energia.
Nos painéis sobre IA e data centers, a relação entre potencial e capacidade de execução apareceu de forma concreta. Natália Vilela, gerente de marketing da ELEA Data Center, sintetizou a pressão da expansão da Inteligência Artificial sobre a infraestrutura: “Tudo que a IA faz exige que a nossa infraestrutura esteja preparada para suprir essa demanda”. Virginia Feitosa, da AXIA Energia, apontou lacunas em segurança jurídica, regulação e tributação como fatores que podem levar projetos a outros mercados.
Parte da resposta passa pela própria rede. Patricia Muricy, sócia-líder para a indústria de Energy, Resources & Industrials da Deloitte, afirmou que a modernização das redes elétricas
e dos sistemas de monitoramento e operação “torna-se fundamental para garantir confiabilidade, eficiência e resiliência”. Em seguida, destacou o papel da tecnologia: “A Inteligência Artificial terá papel decisivo ao ampliar a capacidade de previsão, otimização e tomada de decisão em um ecossistema cada vez mais integrado, dinâmico e orientado pela inovação”, disse a executiva.
Na discussão sobre robótica e Physical AI em óleo e gás, a preocupação com a escala ganhou uma dimensão industrial. Roberta Mendes, gerente-geral de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação em Transição Energética e Sustentabilidade do Cenpes, centro de pesquisas da Petrobras, chamou atenção para o destino econômico das tecnologias desenvolvidas no país. “Vamos gerar riqueza aqui? A indústria vem pra cá?”, questionou. Para a executiva, é preciso “pensar grande”, porque “a demanda de robô é pro mundo inteiro”. A reflexão amplia o debate
sobre inovação: desenvolver soluções é parte do processo, mas transformar pesquisa em empresas competitivas e capacidade de atender mercados internacionais é o que pode consolidar seus efeitos econômicos.
Ao longo do encontro, essas diferentes perspectivas convergiram para um mesmo ponto: a capacidade de inovar depende também de articulação entre os agentes que financiam, desenvolvem, regulam e aplicam novas soluções. Guilherme Lockmann, sócio-líder para o setor de Power, Utilities e Renewables da Deloitte, destacou o papel do material em ampliar essa discussão. “Esse relatório abre um leque para as discussões ao ponto de você lembrar que a gente tem que ter esse viés de inovação”, afirmou. Para ele, fortalecer a pesquisa e o desenvolvimento e aproximar o setor acadêmico do mercado são passos importantes para tratar a transformação energética como um projeto de país. “A gente precisa trazer cada vez mais talentos para ficar no Brasil”, disse, convocando os participantes a multiplicar as discussões nos próximos 12 meses.
A síntese final coube a Luiz Mandarino, COO do Energy Center, que intitulou sua fala Da natureza à liderança global. Sua reflexão apontou para um desafio central do Brasil: construir uma trajetória capaz de conectar a abundância de recursos naturais à produção de conhecimento científico, ao desenvolvimento tecnológico e à criação de empresas competitivas internacionalmente. O caminho, nessa perspectiva, não termina na exploração dos recursos ou na geração de inovação, mas exige transformar essas vantagens em capacidade industrial, negócios escaláveis e protagonismo nos mercados globais.
Das dez megatendências aos critérios de prontidão do país, a análise completa está no relatório, que reúne os dados, a metodologia e as recomendações por ator discutidos no lançamento.


