Ciência para todo mundo entender
São Paulo Innovation Week

Ciência para todo mundo entender

Pesquisadoras do Nunca Vi 1 Cientista fazem comunicação inovadora para as redes sociais e em eventos como o São Paulo Innovation Week

Como a Ciência é percebida por pessoas que não estão próximas a ela no dia a dia? Será que é vista somente em situações de comoção pública, a exemplo da pandemia de Covid-19, quando se falou muito de uma doença e de vacinas, ou como no caso da recente viagem espacial de quatro astronautas à órbita lunar pela missão Artemis II?

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Talvez a resposta esteja na facilidade de acesso. Um levantamento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, realizado em 2023, mostrou que cerca de 80% da população é capaz de entender o conhecimento científico se ele for bem explicado. É isso o que fazem a bióloga Ana Bonassa e a farmacêutica bioquímica Laura Marise, criadoras do canal Nunca Vi 1 Cientista.

Elas estão entre os mais de 1.500 palestrantes do São Paulo Innovation Week (SPIW), que será realizado entre os dias 13 e 15 de maio, na Mercado Livre Arena e na Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), com o objetivo de reunir inovação, tecnologia, ciência, cultura, empreendedorismo e impacto social.

A MIT Technology Review Brasil é parceira do SPIW e fará quatro painéis no dia 14 e um live stage no dia 15. Já Ana e Laura farão a palestra “Ciência que conecta: como transformar conhecimento em conversa”, na manhã do dia 14. Antes do evento, conversamos com elas sobre educação científica e mulheres na Ciência.

Ana Bonassa (à esq.) e Laura Marise, do Nunca Vi 1 Cientista, participarão do São Paulo Innovation Week. (Foto: Cris Santoro)

Ciência nas redes e para quem quiser

“Transformar conhecimento em conversa” não é só o nome da palestra da Ana e da Laura no SPIW, mas uma prática desde 2018. Elas se conheceram participando de uma competição de comunicação científica, onde o desafio era, em três minutos, falar de um tema de forma que qualquer pessoa pudesse entender. Dessa experiência, nasceu o “Nunca Vi 1 Cientista”, que começou no Facebook, mas hoje reúne mais de meio milhão de inscritos no YouTube e 930 mil seguidores no Instagram.

O nome escolhido para o projeto veio de uma percepção em comum sobre de que forma a Ciência é vista por quem não está próximo a ela. “Quando você pergunta às pessoas sobre um cientista brasileiro que elas conhecem, muitas respondem ‘Albert Einstein’. No imaginário, é um homem branco, sozinho no laboratório. As pessoas dizem que nunca viram um cientista, mas eles estão em todos os lugares. Por exemplo, na Universidade de São Paulo (USP), tem pessoas que fazem pesquisa e são cientistas”, explica Ana.

A bióloga e a engenheira química tiveram uma vasta trajetória acadêmica, com mestrado e doutorado, até decidirem se dedicar à comunicação para o público geral. “Cientista trabalha muito, se dedica à pesquisa e pode ser em diversas áreas do conhecimento. Isso exige muito tempo lendo, ou fazendo experimentos, indo a campo, coletando e analisando dados, e a gente tenta mostrar vários aspectos dessa profissão”, reforça Laura Marise.

O hábito de pesquisar e a vontade de comunicar fazem com que, nas redes sociais, a bióloga e a engenheira química falem de temas diversos. Passando pelo feed do Instagram, é possível assistir vídeos curtos sobre temas do cotidiano, como os motivos pelos quais não se deve misturar produtos de limpeza ou lavar uma carne antes do preparo, até assuntos mais complexos, como um estudo sobre o DNA brasileiro ou o uso da polilaminina em casos de lesão medular. Claro que também é necessário falar sobre as notícias falsas que surgem a todo momento, principalmente em uma época na qual produzir e divulgar um conteúdo se tornou mais fácil.

Mas a fórmula de cenário descontraído, linguagem simples e comunicação amigável faz com que os vídeos sigam sendo bem-sucedidos desde 2018. Mesmo assim, o modelo antigo do que é ser um cientista, gera ataques e comentários preconceituosos, muitas vezes vindos dos próprios “colegas de profissão”. “A carreira acadêmica ainda é elitista e muitas pessoas nessa área não aceitam a popularização da Ciência. A gente chama de ‘fogo amigo’. Nos vídeos que fazemos, não estamos falando da nossa pesquisa, mas da ciência em geral e queremos que defendam ela”, lamenta Laura.

Mas, para além do número de seguidores, há outros retornos positivos que reforçam o trabalho de educação científica feito por elas, mesmo fora das universidades e das escolas. “Uma menina de dez anos ganhou pontos extras em uma prova, porque complementou uma resposta com base em um dos nossos vídeos e a mãe dela enviou mensagem para nós. E professores já nos falaram que usam os vídeos nas aulas. Esse tipo de coisa é um combustível”, celebra Ana.

Acesso à pesquisa e mulheres na Ciência

Antes do encontro que levou à criação do Nunca Vi 1 Cientista, as “influenciadoras científicas” tiveram jornadas diferentes. Laura é filha de ex-funcionários da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e diz que cresceu dentro da instituição. Com essa vivência e sendo boa aluna, ser cientista era um sonho de infância e escolheu uma faculdade que permitisse a ela se tornar pesquisadora. Já Ana, que também era boa aluna, morava em uma cidade do interior, não tinha referências acadêmicas e só despertou para essa possibilidade quando foi fazer faculdade de biologia, onde descobriu a paixão por pesquisar.

Apesar dos começos diferentes e de saberem que ser cientista ainda não é para todos no Brasil, Ana reforça que já foi mais difícil antes da criação das agências de fomento, quando fazer ciência era “hobby de rico”. Ainda assim, permanecer nas universidades e se manter como pesquisador profissional exclusivo, com bolsa, ainda é um desafio. “É algo pouco financiado e pouco remunerado. A pessoa acaba tendo uma condição de vida muito precária vivendo com R$2.200 morando em São Paulo, ou ela tem que ter suporte financeiro da família para complementar. É difícil financeiramente”, aponta Laura.

Para além das dificuldades comuns aos pesquisadores brasileiros em geral, elas destacam também as questões de gênero e Ana chama atenção para uma luta antiga. Quando a presença de mulheres na academia ainda era muito restrita, a brasileira Bertha Lutz, bióloga do Museu Nacional, foi defensora da participação feminina nas pesquisas científicas, sendo integrante do grupo que colaborou para a criação do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Apesar de, atualmente, o Brasil formar mais mulheres cientistas do que homens (elas são 57% dos titulados), como mostra o Plano Nacional de Pós-Graduação 2025-2029 vinculado ao Ministério da Educação, elas ainda representam 43% do corpo docente da pós-graduação, o que significa que apenas uma parte segue nas universidades, seja lecionando ou como pesquisadoras permanentes.

De acordo com Laura, existe uma percepção geral de que as cientistas mulheres são mais detalhistas e cuidadosas no que escrevem, não por ser uma característica feminina, mas porque, se não for desse jeito, não há credibilidade. “A gente tem que se provar o tempo inteiro, enquanto vê colegas homens fazendo o mínimo e avançando na carreira sem serem questionados”, afirma a farmacêutica bioquímica. “Quando a gente olha os cargos de chefia, mulheres são minoria. Quem progride na carreira, os professores titulares, são homens”, completa Ana. Sem falar no tema maternidade. “Um coorientador disse que iria colocar anticoncepcional na água do laboratório, porque engravidar iria atrapalhar a pesquisa. São pequenas violências psicológicas”, lembra Laura.

Enquanto muitas pessoas esperam um deslize para atacar de alguma forma a dupla do Nunca Vi 1 Cientista, elas seguem no trabalho que gostam, têm mais conforto financeiro e são motivadas pelo que realmente importa: os retornos positivos por mensagens e pessoalmente, sendo reconhecidas como criadoras do maior canal de mulheres na Ciência do YouTube no Brasil, ou nos auditórios lotados nas palestras que fazem em eventos como o Rio Innovation Week e a Campus Party. Elas esperam fazer o mesmo na São Paulo Innovation Week, mostrando que as pessoas estão, sim, rodeadas pela ciência, que brasileiros gostam do assunto e que a comunicação científica que fazem é inovadora.

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