Um crime foi cometido. Lívia tinha 13 anos e foi duramente coagida por um grupo durante uma transmissão no Discord. O suspeito de chefiar o grupo é um adolescente de 14 anos. A adolescente tirou a própria vida enquanto havia gente rindo e fazendo graça do outro lado da tela.
Nas plataformas, tudo pode virar conteúdo, por mais terrível que seja. É assistido, comentado e repassado adiante. A repetição reduz o espanto, tira o impacto e produz a dessensibilização. Em “A Banalidade do Mal”, a filósofa, Hannah Arendt, derescreve a expressão como “a capacidade de participar de atos graves sem refletir verdadeiramente sobre eles”. Atrás de um computador, cada espectador parece abrir mão de seu senso crítico. Nós, quando estamos em grupo, tendemos a normalizar o inaceitável. É o velho conceito de manada. Um riu, todo mundo ri.
É justamente aí que a conversa sobre privacidade na internet fica difícil. Espaços reservados são indispensáveis para a intimidade, a confiança e a manutenção da liberdade. Mas uma porta fechada também pode esconder os perigos da intimidade alheia. Como controlar os becos, os quartos de hotel e os chats das redes sociais sem transformar uma conversa privada de duas pessoas em material que será observado por empresas, governos e algoritmos?
Privacidade não é ter alguma coisa a esconder. É escolher o que mostrar, para quem e em qual circunstância. A melhor amiga conhece histórias que talvez não tenham sido contadas ao marido. O marido conhece outras que ela nunca saberá. O que muda é quem recebe a chave daquilo que consideramos íntimo. Nós nos construímos administrando quem tem o direito de chegar mais perto.
A internet também precisa de limites. Mas será que são os mesmos limites da vida offline? Na rua, a polícia pode abordar uma pessoa se achar que ela é suspeita. Dentro de casa, o limite é outro: polícia alguma pode entrar sem um mandado judicial. A porta marca a passagem entre o espaço público e a vida reservada. No ambiente digital, essa fronteira ainda é confusa. Conversas privadas continuam sendo tratadas como paredes de vidro, acessíveis às plataformas, mas não aos pais ou responsáveis.
A situação fica especialmente delicada quando falamos de crianças. Como explicar para um pai ou uma mãe que seus filhos merecem, sim, ter privacidade no meio físico e digital? O dever de proteger não autoriza a vigilância permanente de tudo o que eles escrevem, pesquisam e compartilham. Proteger não significa proibir. Crianças e adolescentes também têm direito à privacidade. Esse espaço, que é de formação, cresce com a idade, a maturidade e a autonomia.
O Estatuto da Criança e do Adolescente, que é de 1990, preserva a identidade, a autonomia, os espaços e os objetos pessoais dos jovens. O ECA Digital, em vigor desde março de 2026, exige o grau mais elevado de privacidade por respeito ao desenvolvimento progressivo do menor de idade.
Para oferecer experiências adequadas a cada idade, as plataformas precisarão distinguir crianças de adultos com mais segurança. O velho botão “tenho mais de 18 anos” é falho e já não basta. Surgem documentos, selfies, deepfakes e reconhecimento de voz alterados por inteligência artificial para burlar as catracas digitais. Países europeus buscam a biometria do corpo para identificar a idade. Mas como medir um adolescente de 14 anos que parece ter a altura e o corpo de um adulto? Não basta mais uma foto ou uma medição qualquer. O adolescente é constantemente mutável durante seu crescimento.
Pesquisando para esse texto, descobri um conceito que não conhecia. Foi a melhor maneira que vi alguém definir o que somos hoje em dia. Vem de Deleuze o significado de “divíduo”. O indivíduo é uma pessoa inteira, com história e contexto. Já o divíduo é a versão montada pelas máquinas a partir de nossos pedaços digitais. Idade provável, localização, interesses, contatos e horários que formam um perfil. A plataforma não precisa saber quem somos. Basta reunir sinais suficientes para decidir se já temos propriedade prea decidir qual porta abrir.
Até o momento em que escrevo esta coluna, o Discord suspendeu suas lives em todo o território nacional. Entretanto, a plataforma alega que o caso da menina Lívia, isoladamente, não é capaz de provar uma deficiência em seu sistema de proteção.
Não existe solução confortável pra todo mundo. Alguém vai sofrer nesse processo. A internet precisa de algumas portas fechadas. Mas também precisa saber agir com mais rapidez e força quando surgirem os sinais concretos de que alguém está em perigo.
Como nasceu esta coluna:
Nos início dos anos 1990, eu estava nos bancos da faculdade. Minha professora de Antropologia era Valderez Laroche. Dona de uma elegância incrível e de uma presença impossível de ignorar, sempre dizia que “o ser humano é um animal social”. Ela imprimia a ideia de que, se não vivêssemos em sociedade, voltaríamos a correr pelos campos como bichos. Valderez nos deixou há dois anos, aos 94 anos. Mas algumas aulas continuam muito depois que o quadro é apagado. Lembrei daquela frase que levo para a vida pessoal e para a maneira como observo o mundo. Valderez não poderia estar mais certa sobre o que nos tornamos.


