Durante anos, o Google funcionou como o aeroporto da Internet. Ninguém ia até lá para ficar. Consultávamos o painel, escolhíamos um destino e seguíamos viagem para um site de jornal, um portal de universidade ou um blog de culinária. Com a Inteligência Artificial, o aeroporto começa a se transformar num “resort all inclusive”. A plataforma quer oferecer respostas, recomendações, vídeos, mapas e compras em formato resumido para que o usuário não precise atravessar o portão de embarque.
Essa mudança ganhou o nome de Google Zero. O buscador deixa de encaminhar pessoas para os sites que produzem informação e passa a entregar uma síntese construída com o conteúdo “roubado” desses sites. Sim, a palavra é roubo mesmo. O conteúdo alheio, que custou dinheiro para ser escrito, é copiado sem que o produtor original receba sequer um real em troca. Depois do resumo do Google, você se sente satisfeito e não dá mais nenhum clique. Zero.
Em 2025, o Pew Research Center analisou 68.879 buscas feitas por 900 adultos nos Estados Unidos. Quando o Google apresentava um resumo produzido por IA, apenas 8% das visitas resultavam num clique em algum resultado tradicional. Sem o resumo, o índice chegava a 15%. Só 1% clicava nas fontes indicadas dentro da resposta. Em 26% dos casos, a sessão terminava ali. Nas buscas tradicionais, isso ocorria em 16%.
Os dados não revelam se as pessoas entenderam o que leram. Mas mostram que elas interromperam a procura. Que já ficaram satisfeitas com a resposta. Um resumo não precisa conter tudo. Basta oferecer a sensação de que já é suficiente.
Com a devida licença de Byung-Chul Han, que já transformou nossos desconfortos contemporâneos numa pequena biblioteca de “sociedades”, talvez seja hora de acrescentar mais uma à estante: a “Sociedade do Mastigado”.
Nela, a informação chega selecionada, processada e triturada pelo algoritmo. É como se fosse uma daquelas pequenas bandejas que a gente compra no hortifruti. Tudo sem casca, sem caroço e sem bagaço. Pronto pra engolir.
Identificar fontes, comparar versões e reconhecer divergências passa a ser tarefa de uma plataforma cuja receita depende de manter nossa atenção em seus domínios. Textos feitos para mecanismos de busca transformaram respostas simples em peregrinações por parágrafos inúteis. A IA ofereceu um atalho e encontrou uma multidão cansada de percorrer estradas desenhadas para exibir publicidade.
Entre 2013 e 2015, dirigi o Navegador, programa da GloboNews que discutia inovação, tecnologia, cultura e comportamento quando a Inteligência Artificial ainda não estava em todas as rodas. Um dos apresentadores era Hermano Vianna. Como antropólogo e pioneiro da cultura digital brasileira, ele se transformou em referência sobre o comportamento humano na Internet. Hermano, sempre gentil e de voz baixa, estava alguns passos à frente de seu tempo, o que às vezes é uma forma elegante de dizer que o restante de nós demorava para alcançá-lo.
Naquela época, ele comparava a Internet a uma cidade aberta, cheia de ruas livres, praças e caminhos que proporcionavam encontros inesperados. As redes sociais cresceram e começaram a cercar essa cidade. Levantaram muros, instalaram cancelas e submeteram a circulação às regras dos condomínios digitais. Mais de uma década depois, a Inteligência Artificial chega adicionando uma nova camada a esse confinamento que ele previu lá atrás. As redes sociais passaram a controlar a distribuição da informação. Agora, as plataformas também começam a controlar sua interpretação.
Os jornais tentam descobrir como sobreviver dentro dessa nova realidade. Durante a Flip, em Paraty, ouvi Sérgio Dávila, diretor de Redação da Folha de S.Paulo, definir como a velha imprensa está negociando com as empresas de IA. Ele chamou essa relação forçada de “frenemy”, mistura de “friend” e “enemy”, amigo e inimigo na mesma palavra.
Em 2025, a Folha negociou o fornecimento de parte de seu acervo e de um fluxo de notícias em tempo real ao Google. No mesmo ano, processou a OpenAI por uso de conteúdo sem autorização. Em maio de 2026, Folha e UOL fecharam um acordo comercial com a empresa de Sam Altman para incluir seu jornalismo nas respostas do ChatGPT, com atribuição e links. A briga foi só uma questão de tempo até ser vencida pela Inteligência Artificial.
Os grandes veículos possuem nomes fortes, departamentos jurídicos e poder de negociação. Pequenos jornais, publicações locais, blogs e sites especializados chegam à recepção do resort do Google sem pulseira de consumação. Se perderem tráfego, receita e relevância, parte deles deixará de produzir a informação original que alimenta as máquinas.
O Google não precisa nos convencer de que seu resumo contém toda a verdade. Basta criar a impressão de que continuar procurando seria desperdício de tempo. Uma Internet com poucas respostas pode produzir uma sociedade com cada vez menos perguntas.
Como nasceu esta coluna: Eu estava almoçando com uma amiga. No papo do cafezinho surgiu uma dúvida. Será que “tal ator” estava vivo ou morto? Informação boba que o Google logo respondeu com três linhas num resumo de IA. Aí, perguntei: “mas qual era a fonte da informação?”. Ela disse surpresa: “Ué, o Google!”. Eu ainda quis explicar que o buscador, na verdade, deve ter ido coletar a informação num site especializado em cinema. Mas, quer saber? Deixa pra lá…


