O intestino não é o novo cérebro, mas conversa com ele o tempo todo
Biotech and Health

O intestino não é o novo cérebro, mas conversa com ele o tempo todo

Cientistas explicam o que já está comprovado e o que ainda é promessa sobre a comunicação real entre esses dois órgãos dentro do corpo humano

Nos últimos anos, saúde intestinal e microbioma se tornaram temas muito populares nas redes sociais. Vídeos prometem “curar” ansiedade com probiótico, influenciadores recomendam suplementos para “destravar” o emagrecimento, e a palavra microbiota virou sinônimo de fórmula mágica. Por trás do exagero, porém, existe uma ciência real e muito mais antiga do que sugere a onda recente. “Isso já tem muitos anos, tem mais ou menos uns 15 anos, eu diria — eu trabalho com isso há quase 20”, diz a farmacêutica e microbiologista Carla Taddei, professora da Universidade de São Paulo (USP). E o que essa ciência já produziu, em alguns casos, beira o inacreditável: fezes de um doador saudável, transplantadas no intestino de outra pessoa, já salvaram pacientes que antibióticos não conseguiam curar. Por tudo isso, é preciso saber onde termina a evidência e começam as promessas mirabolantes. Mas o que já se sabe, de fato, é que algumas bactérias dentro do intestino são capazes de ações surpreendentes. E como as pesquisas continuam, é quase certo que novas evidências — e surpresas — devem aparecer.

Uma história que começou no mar, não no consultório

Carla Taddei explicou que a curiosidade científica sobre o microbioma não nasceu na medicina, mas na ecologia. Nas décadas de 1980 e 1990, pesquisadores perceberam que ambientes marinhos e lacustres abrigavam populações bacterianas essenciais ao equilíbrio desses ecossistemas. Só que a maioria dessas bactérias não crescia em meio de cultura de laboratório. Foi preciso desenvolver técnicas de extração de DNA e sequenciamento genético para identificá-las. Quando essas ferramentas amadureceram, cientistas da microbiologia humana aplicaram a mesma técnica ao intestino. Descobriram uma população muito maior do que se imaginava: mais de mil espécies de bactérias, além de vírus e fungos, contra as poucas dezenas conhecidas até então.

O conceito de eixo intestino-cérebro propriamente dito surgiu no início dos anos 2000, quando o gastroenterologista americano Emeran Mayer observou um padrão clínico: pacientes com distúrbios intestinais frequentemente relatavam ansiedade e depressão — e o inverso também era verdadeiro. Mayer propôs que a comunicação entre os dois órgãos era bidirecional, e o campo ganhou força com pesquisadores como o irlandês John Cryan, hoje um dos nomes mais citados do tema. No Brasil, o assunto ganhou corpo institucional a partir de 2023, quando Carla Taddei participou do segundo Gut-Brain Congress do país — evento que reuniu o próprio Mayer e o pediatra e gastroenterologista Alessio Fasano, de Harvard, que hoje lidera um projeto multimilionário sobre autismo e o eixo intestino-cérebro. Foi nesse mesmo ano que o psiquiatra Marcus Zanetti (USP) convidou Taddei para escrever, ao lado dele, um livro sobre o tema. A publicação, que já caminha para a segunda edição, ajudou a consolidar o debate multidisciplinar sobre o eixo intestino-cérebro no país.

Como a “conversa” realmente acontece

O termo “segundo cérebro”, popularizado nas redes, incomoda parte dos pesquisadores. “O intestino não faz a mesma coisa que o cérebro, mas ele percebe, sente”, explica Taddei. A comunicação depende de um circuito bioquímico relativamente bem mapeado: bactérias “boas” metabolizam fibras da dieta e produzem metabólitos que fortalecem a barreira do epitélio intestinal. A partir daí, estimulam uma resposta imunológica anti-inflamatória. Esses sinais químicos são captados por terminações nervosas que convergem no nervo vago — a rota direta até o cérebro — onde influenciam a produção de neurotransmissores como adrenalina, noradrenalina, serotonina e acetilcolina.

O caminho inverso também existe. Em situações de estresse, há alteração dos neurotransmissores liberados, e essa mudança química chega ao intestino, provocando desconforto, mudanças no trânsito ou dor. Questionada sobre o respaldo científico desses mecanismos, Taddei afirma que há muita evidência, com mecanismos já completamente discutidos e desenhados. Mas ela e a infectologista Adriana Massaia, do Fleury Lifecare, fazem questão de separar o que já está estabelecido do que ainda é hipótese. Massaia resume o que a ciência sustenta hoje: a função protetora de certas bactérias sobre o epitélio intestinal, a produção de metabólitos que competem com micro-organismos patogênicos e a relação entre serotonina intestinal e sistema neuroendócrino local.

Quando a fibra importa: bactérias “boas” precisam dela

Todos os relatos das pesquisadoras ouvidas nessa reportagem levantam a mesma bandeira: antes de qualquer cápsula, o que regula a microbiota é o prato de comida. “A gente não consegue manter o ecossistema saudável sem criar um ambiente propício para isso”, diz a nutricionista Laís Murta, que costuma comparar o intestino à própria natureza. Uma alimentação rica em fibras, frutas, legumes e leguminosas — e pobre em ultraprocessados — funciona como uma floresta amazônica: diversa, resiliente, abundante. Uma dieta pobre em fibra e rica em industrializados cria, nas palavras dela, “um deserto”: poucas espécies, pouca diversidade, pouca resiliência. Aí não há intestino em condições de colaborar com nada, muito menos com o cérebro.

Nessa lógica, o probiótico — que nada mais é do que o micro-organismo vivo vendido em farmácias — não é a base, mas “a cerejinha do bolo”. A farmacêutica Susana Saad, professora titular (aposentada) da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP e uma das pesquisadoras mais experientes do país em probióticos, explica por quê: a colonização é transitória. “O efeito cessa alguns dias depois que você para de administrar.” Cada cepa tem uma função específica, testada e comprovada isoladamente. Não existe “probiótico genérico” com efeito garantido para qualquer pessoa. E cepas com evidência robusta em humanos convivem, no mercado, com misturas de sete ou oito cepas cuja sobrevivência real no produto raramente é verificada: “é difícil saber qual que sobrevive”, diz Saad, apontando este como o maior problema regulatório do setor — mesmo com a Anvisa exigindo dossiês rigorosos para qualquer alegação de saúde no rótulo.

Um degrau abaixo do probiótico está o prebiótico (fibra alimentar que nutre as bactérias já residentes) e, mais recentemente, o pós-biótico: são compostos benéficos (como a lactase produzida por certas cepas de iogurte) que permanecem no produto mesmo depois que a bactéria que os gerou não sobrevive mais. Quando probiótico e prebiótico atuam juntos, o efeito se soma, mas nenhum dos dois substitui a matriz alimentar completa. “Alface é bom, mas ele não tem a quantidade de fibra necessária que a gente precisa”, resume Taddei. É preciso comer leguminosas, grãos integrais e frutas, não apenas “salada”.

Laís Murta reforça que probióticos vendidos livremente não deveriam ser tomados por conta própria: “pode ter efeito colateral, que é uma coisa que as pessoas acham que não tem”. Diarreia, prisão de ventre e até o supercrescimento bacteriano no intestino (SIBO) estão entre os riscos documentados. Em casos específicos, alguns metabólitos produzidos por essas bactérias já foram associados à piora de sintomas de humor e insônia.

Do transplante de fezes às “bactérias-remédio”

A história mais fantástica para os pesquisadores é a do transplante de microbiota fecal: é hoje uma das poucas aplicações clínicas realmente consolidadas, restrita por enquanto a casos de infecção recorrente por Clostridioides difficile, bactéria que causa diarreias graves e, em alguns pacientes, coloniza o intestino a ponto de impedir a absorção de nutrientes. O procedimento consiste em transferir a microbiota das fezes de um doador saudável para o paciente, via colonoscopia, depois de “limpar” sua microbiota original com medicação. Funcionou tão bem que os casos se multiplicaram, até que médicos notaram um efeito colateral inesperado: pacientes magros que recebiam fezes de doadores com sobrepeso começavam a ganhar peso. O achado, somado a experimentos clássicos com camundongos (como transferir a microbiota de um rato magro para um rato obeso faz o rato obeso emagrecer), reforçou a hipótese de que a microbiota tem papel na regulação metabólica, embora, como pondera Taddei, a obesidade continue sendo multifatorial.

Nos Estados Unidos, o procedimento foi restringido depois que alguns doadores transmitiram bactérias resistentes a antibióticos, provocando até a morte de pacientes imunodeprimidos. A resposta da indústria foi desenvolver “consórcios” de bactérias terapêuticas — misturas definidas e purificadas, sem o material fecal bruto do doador. Como resume Taddei, “a gente está saindo dessa questão de transplantar fezes para administrar bactérias terapêuticas”, uma mudança que só é possível porque a ciência já entende, para determinadas cepas, como elas se comportam e replicam seus efeitos em laboratório. Massaia confirma que essa é hoje uma das poucas indicações clínicas bem estabelecidas para o sequenciamento de microbioma dentro da infectologia — junto de casos de diarreia crônica sem outra causa identificada.

O exame que todo mundo quer fazer, mas quem vai saber ler e interpretar?

Testes de microbioma por sequenciamento ganharam popularidade como ferramenta de autoconhecimento, mas, segundo Massaia e Murta, convergem num ponto: não existe padronização metodológica no Brasil, nem consenso sobre valores de referência. “Os laboratórios adquirem a sua [metodologia] e mesmo o intervalo de referência… no Brasil não existe padronização”, explica Massaia. Alguns laboratórios ainda usam PCR — tecnicamente inadequada para avaliar microbioma de forma abrangente — em vez do sequenciamento de nova geração, considerado o padrão-ouro.

Mesmo quando bem executado, o exame é complementar, não diagnóstico. “Eu não posso falar que o exame diagnostica síndrome do intestino irritável ou doença inflamatória intestinal”, afirma Massaia — “existe um perfil compatível na literatura”, mas não uma prova definitiva. Murta é ainda mais cautelosa na prática clínica: “ainda é uma ferramenta muito controversa”, diz, citando fatores que enviesam o resultado, do horário da coleta à técnica usada. Ela alerta para uma prática que considera equivocada e estimulada, muitas vezes, pelos próprios laboratórios: “faz o exame, faltou isso, toma esse probiótico”. Para ela, é uma lógica de causa e efeito simplista demais para o que a ciência atual permite afirmar. Para as duas pesquisadoras, a leitura de um exame desse tipo deveria ficar restrita a médicos e nutricionistas com formação específica, e não a interpretações feitas pelo próprio paciente, sem apoio profissional.

Enfim, como ter uma “boa conversa”

Colhidas as informações das quatro conversas envolvendo diferentes áreas (microbiologia, tecnologia de alimentos, infectologia e nutrição), uma ideia se repete: o eixo intestino-cérebro é uma área com mecanismos bem descritos e evidência real, mas também um terreno fértil para promessas que a ciência ainda não sustenta. Entre as pessoas que entendem e pesquisam o assunto, a palavra “cura” é sempre evitada, tanto quanto as generalizações. “A gente não fala em microbiota normal”, diz Taddei, “porque cada um tem a sua.” O intestino saudável, nesse sentido, não é um número na embalagem de um suplemento, mas o resultado de uma dieta variada, rica em fibras e pobre em ultraprocessados. Algo que precisa ser sustentado ao longo do tempo, não corrigido por uma cápsula isolada.

É por isso que a mensagem converge menos para “o que tomar” e mais para “com quem falar”: antes de qualquer suplemento ou exame, procurar orientação de um médico ou nutricionista que realmente acompanhe essa literatura em expansão.

Descobrir esse universo ativo dentro do intestino, capaz de trocar sinais com o cérebro o tempo todo numa via de mão dupla, é também aprender a ouvir uma conversa que o corpo já mantém sozinho, muito tempo antes de virar assunto de rede social. A ciência ainda está decifrando boa parte dessa linguagem. Mas já sabe, com razoável segurança, uma coisa: quem regula essa conversa, no dia a dia, é o prato adequado de comida. Com ele, bactérias boas vão ficar “felizes” e produzir substâncias pelas quais o corpo — e o cérebro — vão agradecer.

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