A próxima pane pode ser cognitiva
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A próxima pane pode ser cognitiva

Você lembra o que fez da última vez que uma rede social saiu do ar? Provavelmente, correu para uma outra rede para reclamar. Em outubro de 2021, quando Facebook, Instagram e WhatsApp sumiram por algumas horas, o Twitter registrou recorde de acessos com gente perguntando se o problema era “só comigo”. Alguns anos antes, quando decisões judiciais bloquearam o WhatsApp no Brasil, o Telegram ganhou milhões de usuários em questão de horas. Eram panes de conversa, de entretenimento, de rotina. Incômodas, mas passageiras.

Depois, vieram panes mais sérias. Em julho de 2024, uma atualização problemática da empresa de segurança CrowdStrike derrubou cerca de 8,5 milhões de máquinas com Windows, segundo a própria Microsoft. A “tela azul” cancelou milhares de voos, travou hospitais e bancos. Ali, já não se tratava de perder o acesso a postagens triviais: empresas inteiras ficaram impedidas de trabalhar porque o “sistema” saiu do ar.

Agora, no início deste mês, aconteceu algo novo. Na manhã de 3 de setembro, ChatGPT, Claude e Grok ficaram indisponíveis praticamente ao mesmo tempo. Cada empresa alegou um tipo de erro e não há evidência de uma causa comum. É importante registrar isso, porque a tentação de pensar em uma falha única é grande. O fato é que três grandes sistemas de IA, que hoje fazem parte do dia a dia de muitas pessoas, sumiram ao mesmo tempo.

Em 2017, escrevi, no livro Cérebro Digital, que estávamos construindo uma espécie de cérebro coletivo externo. Uma malha de camadas que vai dos cabos submarinos aos data centers, dos sistemas operacionais aos aplicativos. Naquela época, o nível mais alto dessa estrutura eram os sites, as redes sociais e os motores de busca. Hoje, são os modelos de Inteligência Artificial. Estamos somando ao grande “cérebro digital” uma camada capaz de escrever, programar, pesquisar, resumir, traduzir, organizar informações, analisar documentos e participar de decisões. Logo, além do armazenamento e do processamento, estamos transferindo para as máquinas a cognição.

Por enquanto é um movimento parcial, mas existe o risco de uma dependência extrema. Ninguém pensa na rede elétrica até o apagão acontecer. O mesmo pode ocorrer com uma pane da inteligência humana terceirizada para a IA. Quando o Gmail sai do ar, você perde temporariamente o e-mail. Quando uma IA para, dependendo do uso, é como se o “nosso” cérebro parasse junto. Então, e se a próxima grande pane não for de energia, de Internet ou de pagamentos, mas de inteligência?

No plano individual e no mundo corporativo nós aprendemos a ter sempre um “plano B” para a falta de energia, de Internet, de nuvem etc. Talvez precisemos incluir uma nova categoria: um backup de cognição humana. Em junho de 2025, pesquisadores do MIT Media Lab publicaram um estudo chamado “Your Brain on ChatGPT” (Seu cérebro no ChatGPT, em tradução livre). Durante quatro meses, 54 participantes escreveram ensaios em três condições: com ChatGPT, com buscador ou apenas com a própria cabeça. Tudo medido por eletroencefalografia (EEG), que registra a atividade elétrica do cérebro. O grupo que escreveu sem ferramentas exibiu resultados mostrando redes neurais mais amplas e conectadas. O grupo da IA teve resultados mais fracos. O mais revelador foi que, minutos depois de entregar o texto, a maioria dos usuários de ChatGPT não conseguia citar uma frase sequer do que havia “escrito”. Os autores chamaram isso de “dívida cognitiva”. O resultado pode até ficar bom. O conhecimento, porém, não fica registrado no cérebro de quem o produziu. Pensar dá trabalho. E talvez seja exatamente por isso que pensar produza aprendizado. Na nova era de agentes de IA, quanto mais fácil fica delegar, mais tendemos a entregar nossa cognição às máquinas, e mais frágeis ficamos no dia em que elas falharem.

A pane de 3 de setembro durou horas. A pane cognitiva pode durar uma geração. Na semana passada a OCDE divulgou os resultados do Pisa 2025, o exame que avalia estudantes de 15 anos em 89 países. A média da própria OCDE foi a mais baixa já registrada nas três áreas: leitura, matemática e ciências. O Brasil ficou bem abaixo dela, com 377 pontos em matemática (média de 463), 409 em ciências (482) e 408 em leitura (463), praticamente o mesmo patamar de 2022. Mais da metade dos nossos estudantes não consegue identificar a ideia principal de um texto de tamanho moderado. Outro dado inquietante, global, é o declínio justamente nas habilidades de avaliar informações, conectar fontes diversas e exercer pensamento crítico. O nível de leitura apressada quase dobrou de 2018 para cá.

Não dá para atribuir esses números à Inteligência Artificial, uma vez que os alunos avaliados foram educados antes da explosão da IA generativa. E, claro, o Brasil já tinha problemas estruturais de sobra. Mas é razoável olhar para frente com preocupação. Se a tendência é de leituras cada vez mais curtas e de uma transferência crescente do ato de pensar para as máquinas, as próximas gerações deverão chegar ao Pisa com menos aprendizado naquilo que o exame mede.

Precisamos tratar a nossa capacidade de pensar como tratamos qualquer infraestrutura crítica: com desenvolvimento, aprimoramento, manutenção e redundância. Da próxima vez que você estiver transferindo cognição para a IA, pense no que aconteceria se ela saísse do ar. Não por horas, mas para sempre.

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