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No campo, aumentar a produção nem sempre significa aproveitar de forma mais eficiente tudo o que já é gerado. Ao lado de alimentos, fibras e commodities, a atividade agropecuária também produz resíduos, subprodutos e uma demanda crescente por energia. Esses fluxos, no entanto, ainda não são plenamente integrados como partes de uma mesma cadeia de valor.
Enquanto a disponibilidade de energia pode limitar novas etapas de processamento e agregação de valor no interior, a própria produção rural gera recursos que podem retornar à cadeia na forma de energia, combustível, fertilizante ou matéria-prima. O desafio passa, portanto, por criar condições para que esses recursos circulem com maior eficiência.
Transformar esse potencial exige mais do que uma tecnologia isolada. É preciso combinar soluções energéticas, conhecimento técnico, infraestrutura e capacidade de coordenar produção, logística e consumo. Nesse contexto, os dados ganham relevância para acompanhar e organizar os fluxos que atravessam propriedades e agroindústrias.
É nesse encontro entre energia, informação e circularidade que surge uma nova fronteira para o agronegócio brasileiro: aproveitar melhor os recursos que o próprio campo já coloca em movimento.
A dimensão dessa oportunidade aparece na escala da atividade agropecuária. Em 2025, o agronegócio brasileiro exportou US$ 169,2 bilhões, equivalentes a 48,5% de tudo o que o país vendeu ao exterior. Já a safra 2024/25 alcançou 350,2 milhões de toneladas de grãos, recorde da série histórica da Conab.
A força desses números, porém, não revela todo o valor associado à produção. Entre a matéria-prima que sai do campo e os produtos de maior valor agregado existe uma infraestrutura de processamento, energia e logística que nem sempre está disponível onde a produção acontece. Em diferentes regiões do interior, a disponibilidade e a qualidade do fornecimento de energia podem determinar quais etapas conseguem permanecer próximas à origem e quais precisam ser deslocadas para outros centros.
Em áreas de grande produção, culturas como o algodão podem ser cultivadas localmente e seguir para outras regiões para etapas de beneficiamento. Entre produtores menores, limitações de infraestrutura energética podem restringir atividades como processamento de leite, irrigação ou implantação de pequenas agroindústrias. A questão, nesses casos, não está apenas na capacidade de produzir a matéria-prima, mas nas condições necessárias para transformá-la e agregar valor no próprio território.
Ao mesmo tempo, a atividade agropecuária gera outros fluxos que também carregam valor potencial. No documento Resíduos Rurais para MMGD através da Biodigestão, publicado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE) em setembro de 2025, a instituição apresenta um levantamento do potencial técnico e econômico para geração elétrica por micro e minigeração distribuída a partir de resíduos agropecuários. O estudo diferencia potencial técnico de viabilidade econômica, mostrando que a existência do recurso não significa, por si só, que todo ele possa ser aproveitado de forma competitiva.
O ponto central está justamente nessa diferença. De um lado, atividades rurais demandam energia para avançar em processamento e agregação de valor. De outro, a própria produção gera materiais que podem assumir novas funções dentro da cadeia. O desafio, portanto, não está apenas em produzir mais, mas em identificar quando aquilo que hoje encerra um processo pode se tornar o insumo do seguinte.
Do resíduo ao recurso: a lógica circular do campo
O que separa um resíduo de um recurso não é apenas sua composição, mas a existência de uma cadeia capaz de atribuir novo uso e valor a ele. Na economia circular, resíduos, subprodutos e efluentes podem retornar à produção na forma de energia, combustível, fertilizante ou matéria-prima para outros processos.
No agro, essa lógica assume diferentes configurações porque os fluxos gerados também são distintos. O princípio comum é recuperar valor antes perdido e reinseri-lo no sistema produtivo.
O setor sucroenergético, por exemplo, mostra como essa lógica pode ganhar escala. Resíduos que acompanham a produção de açúcar e etanol já são incorporados a outras etapas da cadeia e parte pode ser usada para geração de energia, enquanto outros fluxos retornam ao processo produtivo ou são convertidos em biogás e biometano. O exemplo ajuda a mostrar que circularidade não significa encontrar uma única aplicação para o resíduo, mas construir diferentes formas de valorização a partir das características de cada material.
A disponibilidade de matéria-prima, porém, não transforma automaticamente esse potencial em negócio. Entre o resíduo e um produto economicamente viável existe uma combinação de tecnologia, conhecimento técnico, financiamento e mercado. A disseminação desse conhecimento entre pequenos e médios produtores, o acesso a linhas de financiamento e a existência de condições econômicas capazes de remunerar os investimentos são fatores decisivos para ampliar a adoção.
Ao explicar como esse modelo funciona na prática, o diretor-presidente dos Negócios de Gás do Grupo Energisa Fábio Bertollo destaca que a circularidade começa pela transformação de um passivo em novos insumos para a cadeia:
“A gente recebe um resíduo que, em tese, é um passivo ambiental, assegura o correto processamento e, a partir daí, começa a gerar outros produtos. Você tem o biogás, que pode ser usado para geração de energia elétrica e térmica ou pode ser purificado para chegar ao biometano. E, no final do processo, você ainda tem um material rico em nutrientes, que pode voltar para o solo como biofertilizante.”
A economia circular, portanto, não elimina apenas um passivo: ela cria possibilidades de uso dentro da própria cadeia. Para que elas funcionem, é preciso saber quanto se produz, onde existe demanda, quando os recursos serão necessários e como fazê-los chegar ao destino. É nesse ponto que energia, logística e dados passam a formar uma infraestrutura integrada para o agro.
Energia, dados e logística: a infraestrutura do agro conectado
Agro conectado é aquele em que energia, dados, produção e logística deixam de funcionar como sistemas isolados e passam a operar como partes de uma mesma cadeia.
Transformar resíduos em novos produtos é uma das frentes dessa mudança. Produzir melhor passa também por enxergar com maior precisão o que acontece dentro da fazenda e da agroindústria. Sensores, conectividade, sistemas de gestão e análise de dados ampliam a capacidade de acompanhar máquinas, insumos, produtividade e fluxos de materiais, criando condições para decisões mais rápidas e operações mais integradas.
À medida que novos fluxos de energia e produtos entram na operação, aumenta também a necessidade de coordená-los. Bertollo explica que essa camada digital já está incorporada à operação das plantas:
“Temos um alto nível de automação e instrumentação, com controle operacional em tempo real. Essas informações fazem parte da gestão da unidade e também das cadeias logísticas associadas às entradas e saídas da produção.”
Na prática, essa infraestrutura transforma dados em capacidade operacional. As informações permitem acompanhar o desempenho da planta, organizar fluxos de entrada e saída e responder mais rapidamente às variações do processo. A informação deixa, assim, de ser apenas registro e passa a integrar a própria operação.
Fora da unidade industrial, o desafio é conectar produção, distribuição e consumo. O biometano ajuda a tornar essa questão concreta. A existência do combustível e de máquinas capazes de utilizá-lo não é suficiente, por si só, para formar uma nova cadeia energética no campo. É preciso criar condições para que essa oferta chegue ao produtor com previsibilidade e para que o abastecimento acompanhe a dinâmica da operação agrícola.
No caso de um trator movido a biometano, por exemplo, não basta haver combustível disponível na região. É preciso prever a necessidade de reposição e coordenar o abastecimento da propriedade com a oferta existente. Os dados deixam, assim, de servir apenas ao monitoramento interno e passam a conectar agentes fisicamente separados, ajudando a sincronizar produção, distribuição e consumo.
Quando esses fluxos ultrapassam os limites de uma propriedade ou agroindústria, a necessidade de coordenação aumenta. Produção e consumo podem estar distribuídos entre diferentes agentes de uma mesma região, e transformar essas conexões em uma cadeia econômica exige fazê-los operar de forma articulada. Nesse contexto, a infraestrutura digital passa a complementar a infraestrutura física, aproximando recursos, operações e demanda.
Do potencial ao mercado: a oportunidade agroenergética brasileira
O Brasil reúne uma combinação favorável para ampliar o papel do agronegócio também como produtor de energia: produção agropecuária em grande escala, disponibilidade de resíduos orgânicos e uma demanda significativa por combustíveis associada às próprias cadeias produtivas e logísticas. A oportunidade, porém, não está apenas no volume desses recursos, mas na capacidade de transformá-los em cadeias economicamente viáveis e conectadas aos mercados do interior do país.
Uma dimensão dessa oportunidade aparece no documento Resíduos Rurais e o Consumo de Combustíveis, da EPE. O estudo analisa o potencial econômico do biometano em nível nacional por meio do Simulador SIEnergia e estima que cerca de um terço do consumo brasileiro de gasolina e óleo diesel poderia ser economicamente substituído por biometano produzido a partir de resíduos agropecuários, considerando as premissas adotadas pela ferramenta.
Mais do que representar um volume imediatamente disponível ao mercado, o resultado dimensiona a possibilidade de aproximar duas pontas que já coexistem no agro brasileiro: a geração de resíduos e o consumo de combustíveis.
Transformar essa possibilidade em mercado exige, no entanto, mais do que matéria-prima e tecnologia. Na avaliação de Bertollo, a expansão do biometano depende de demanda capaz de sustentar investimentos, acesso a financiamento e arranjos logísticos que aproximem produção e consumo. Essa equação é especialmente relevante no interior, onde parte significativa dos recursos está distante dos grandes centros consumidores e muitas regiões não contam com redes de gasodutos. Nesse contexto, a escala pode surgir tanto de projetos locais quanto da conexão entre produtores, agroindústrias e consumidores de uma mesma região.
A construção desse mercado já orienta movimentos de empresas tradicionalmente ligadas à infraestrutura energética. O Grupo Energisa, por exemplo, iniciou em 2026 a produção e comercialização de biometano em sua unidade de Campos Novos, em Santa Catarina. A companhia também está construindo uma segunda unidade em Carambeí, no Paraná, com previsão de operação em 2028.
Para Bertollo, esse processo depende de uma dimensão que vai além da expansão física dos projetos:
“Fazer essas operações […] requer muito conhecimento técnico, muito know-how interno. Ele parece fácil no conceito, mas ele não é. […] A gente está hoje num processo de crescimento, de maturação, crescimento tecnológico, operacional […] para que a gente possa performar isso e escalar esse negócio com domínio dessa tecnologia, porque são várias tecnologias que a gente embarca ali e vira uma tecnologia integrada.”
A fala aponta para uma condição central desse mercado: escala também é capacidade de integrar tecnologia, operação e conhecimento. Em uma cadeia ainda em formação, transformar experiências locais em modelos replicáveis será tão importante quanto ampliar a oferta de biometano.
O próximo passo é fazer com que recursos que já existem no campo encontrem novas aplicações e mercados. Quando energia, resíduos, dados e infraestrutura passam a operar de forma articulada, o agro pode ampliar não apenas sua produção, mas também o valor gerado a partir dela.


