Veja quem está se alinhando ao teste de lealdade à “Superinteligência” de Trump
Inteligência artificial

Veja quem está se alinhando ao teste de lealdade à “Superinteligência” de Trump

Um mês após a tentativa de mudar o nome da IA, o novo termo não está ganhando popularidade. Mas certamente vai tumultuar o debate sobre Inteligência Artificial

No final de setembro, o presidente Trump assinou uma ordem executiva que continha uma única determinação, instruindo as agências governamentais a substituir o termo Inteligência Artificial por “Superinteligência”. O nome superou outras opções, incluindo “Inteligência Extrema” e “Inteligência Suprema”, apresentadas pelo presidente em uma enquete no X algumas semanas antes.

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Mudanças de nome, é claro, já se tornaram uma tradição da Casa Branca: Trump alterou denominações para projetar o domínio dos Estados Unidos sobre determinadas extensões de água (Golfo da América e Lago América), sinalizar novas prioridades institucionais (trocando Departamento de Defesa por Departamento de Guerra) ou simplesmente deixar sua marca em locais históricos (como a tentativa de incluir o nome Trump ao Kennedy Center).

A justificativa apresentada para a mudança em relação à IA é que os sistemas atuais “amplificam a engenhosidade humana”, em vez de simplesmente “imitar” a inteligência, e que a terminologia utilizada pelo governo deveria refletir essa realidade. Mas, se essa mudança seguir o padrão das anteriores, seus efeitos ultrapassarão os limites do governo.

Ela transformará uma escolha de palavras em um teste de lealdade política: quem adotar o novo termo demonstrará alinhamento com o governo, enquanto aqueles que não o fizerem se tornarão alvos de ataques. Vale lembrar que o governo Trump impediu a Associated Press de participar de alguns eventos de imprensa na Casa Branca depois que a agência de notícias se recusou a adotar o termo “Golfo da América”.

A maioria dos americanos, porém, passa meses sem sequer pensar em como chamar o grande lago entre Nova York e o Canadá. A IA, por outro lado, está no centro do debate nacional e é uma tecnologia com a qual dois terços dos americanos afirmam interagir várias vezes por semana. Essa pode ser a tentativa de mudança de nome mais ousada até agora.

Então, um mês depois, quem aderiu?

Vamos começar pelo próprio governo. O termo “Superinteligência”, ou simplesmente “SI”, agora aparece com mais frequência em solicitações governamentais, como um novo pedido do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE) para que empresas desenvolvam sistemas de vigilância “alimentados por SI” para centros de detenção da agência. O novo termo foi inserido discretamente na maioria dos sites governamentais. Alguns deles, incluindo o dos Institutos Nacionais de Saúde (NIH), agora exibem um aviso informando aos visitantes que poderão encontrar tanto a terminologia nova quanto a antiga, durante o período de transição.

Houve alguns tropeços. Um dia após a ordem de mudança de nome, o Pentágono anunciou uma nova e ambiciosa iniciativa para estudar o futuro da guerra, chamada Projeto Meridian, utilizando a terminologia antiga. Um comunicado de imprensa da Comissão Federal de Comércio dos Estados Unidos (FTC), divulgado na semana passada, usou “superinteligência” em vez da versão com duas palavras e iniciais maiúsculas determinada pelo presidente. Já os comunicados recentes do Departamento de Saúde e Serviços Humanos não apresentam qualquer sinal da nova terminologia.

O termo “IA” provavelmente continuará em uso, considerando os inúmeros departamentos, iniciativas e programas relacionados à Inteligência Artificial que surgiram nos últimos anos, como o Escritório de Inteligência Artificial e Digital do Pentágono (a ordem executiva estabelece que a mudança não se aplica a regulamentações ou documentos publicados anteriormente).

Quanto aos funcionários públicos, parece que ainda levará algum tempo até que “SI”, em vez de “IA”, seja pronunciado com naturalidade. Um pesquisador de um laboratório nacional que entrevistei algumas semanas atrás usou “IA” repetidamente antes de reconhecer o deslize de maneira constrangida. Até mesmo Pete Hegseth, o secretário de Defesa dos EUA, utilizou “IA” em uma entrevista no dia 3 de outubro.

Mas as outras mudanças de nome promovidas por Trump sugerem que o objetivo não é apenas alterar o vocabulário do governo. É também mudar a maneira como todos nós falamos.

Nas últimas semanas, a maioria das publicações do presidente Trump na rede Truth Social consistiu em declarações de apoio a candidatos nas eleições de meio de mandato. Mas, em 27 de outubro, ele fez uma pausa na campanha eleitoral para criticar o Wall Street Journal por não utilizar “Superinteligência”, “o nome que praticamente todo mundo está usando ou em breve usará”. Ele sugeriu que, em breve, uma nova regra irá além da ordem executiva, proibindo explicitamente o uso de “Inteligência Artificial” em documentos governamentais.

Mas o Wall Street Journal não está sozinho: até mesmo a Newsmax, veículo cujo fundador o descreveu como “apoiador do presidente e de suas políticas”, não está utilizando o termo preferido pelo presidente.

E os executivos das gigantes de tecnologia estão seguindo essa orientação? A situação é mais complicada. No mesmo dia em que o presidente Trump assinou a ordem para mudar o nome, ele também divulgou uma declaração sem caráter obrigatório sobre segurança da IA, o Acordo da Casa Branca sobre Superinteligência, assinada por seis das pessoas mais poderosas do setor de tecnologia: Sundar Pichai, do Google; Dario Amodei, da Anthropic; Mark Zuckerberg, da Meta; Greg Brockman, da OpenAI; Elon Musk, da xAI; e Jensen Huang, da Nvidia.

Mas, mesmo entre esse grupo, no qual três integrantes compareceram à posse de Trump, o termo não se popularizou.

Em uma análise das teleconferências de resultados do terceiro trimestre, a CNBC, canal norte-americano por assinatura, informou que apenas Zuckerberg e Musk utilizaram o termo de forma consistente. Mas Zuckerberg não conta exatamente: a Meta já vinha utilizando “superinteligência” desde o ano passado. As empresas de Musk parecem ser as que mais adotaram o termo e ele chegou a prometer renomear a SpaceXAI para SpaceXSI. O próprio Musk, porém, ainda alterna entre SI e IA em publicações no X.

Executivos da Amazon, Microsoft e Alphabet utilizaram “IA” em teleconferências, embora uma carta recente da Microsoft aos acionistas tenha feito referência à “era da Superinteligência”. Huang também mencionou o novo termo, mas continua utilizando IA.

Uma das críticas a esse projeto de mudança de nome é que ele consumirá tempo e dinheiro dos contribuintes. Cabe a Marc Benioff, CEO da Salesforce, decidir que SIForce é um nome melhor do que AIForce e orientar a empresa a implementar essa alteração. Mas, agora, funcionários públicos estão dedicando tempo à elaboração de guias sobre como os departamentos devem conduzir a mudança de terminologia. Além disso, conforme determina a ordem executiva, os dirigentes das agências federais deverão se reunir para elaborar uma nova definição legislativa de “Superinteligência”, que deverá ser submetida à avaliação do presidente até o final deste mês.

Mas estou mais preocupada com o impacto dessa mudança sobre o debate nacional a respeito da IA do que com o possível desperdício de tempo e dinheiro. Com uma frequência surpreendente, ouço desconhecidos em supermercados ou cafeterias que começam a conversar sobre Inteligência Artificial. O conteúdo dessas conversas raramente é animador, pois geralmente envolve um apocalipse no mercado de trabalho ou guerras conduzidas por IA, mas o que me dá esperança é perceber com que frequência as pessoas demonstram um desejo generalizado de participar das decisões sobre como essa tecnologia transformará suas vidas.

As pessoas podem ter opiniões radicalmente diferentes sobre a IA, incluindo uma hostilidade declarada, mas essas divergências ainda não correspondem claramente às divisões partidárias que tornam constrangedor para desconhecidos conversar sobre imigração ou mudanças climáticas.

Se “Superinteligência” se transformar em um teste de lealdade, isso deixará de ser verdade. É fácil imaginar duas pessoas conversando, por exemplo, sobre se os chatbots fazem bem ou mal à nossa saúde mental e interrompendo a conversa assim que percebem que uma delas diz “superinteligência” e a outra, “IA”. Isso seria uma pena para todos nós.

As eleições de meio de mandato acontecem amanhã. Os americanos afirmam que a IA é mais importante para eles nesta eleição do que as políticas ambientais e climáticas (e os democratas chegam a colocá-la acima das políticas relacionadas ao aborto e ao controle de armas). Estamos apenas começando a construir um debate nacional sobre o que a IA significará para nossas vidas. Independentemente de “Superinteligência” se popularizar ou não, transformar a própria terminologia em um teste de lealdade não contribuirá em nada para o avanço de um debate nacional sobre Inteligência Artificial que mal começou.

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