Robôs humanoides costumam provocar mais constrangimento do que admiração: eles tropeçam, chutam crianças e, apesar dos avanços, ainda usam as mãos pior do que meu filho pequeno. Trata-se de uma indústria nascente e esses robôs são vistos com mais frequência em vídeos virais do que em locais de trabalho ou residências reais.
Foi uma surpresa, portanto, quando, na semana passada, a Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos, a FCC, impôs uma ampla proibição à importação de robôs avançados fabricados no exterior, incluindo humanoides, quadrúpedes e robôs com rodas. A decisão, tomada por uma FCC cada vez mais partidária e alinhada a Trump, apresenta duas justificativas. A primeira é que humanoides fabricados no exterior coletariam muitos dados, tanto em residências quanto, potencialmente, em instalações sensíveis, o que representaria uma ameaça à segurança nacional. A segunda é que as empresas de robótica dos Estados Unidos precisam ser protegidas da concorrência chinesa para criar uma cadeia de suprimentos nacional mais robusta e segura.
À primeira vista, essa é uma estratégia de alinhamento entre interesses políticos e empresariais muito mais antiga do que o governo Trump. Sempre que a China passou a oferecer versões baratas de tecnologias estratégicas, como painéis solares, veículos elétricos e drones, o governo dos Estados Unidos tentou impedir que esses produtos inundassem o mercado por meio de tarifas ou de regras sobre a forma como órgãos governamentais adquirem essas tecnologias. Medidas desse tipo são sempre seguidas por debates sobre se as contrapartidas, especialmente os preços mais altos para os consumidores, compensam os benefícios.
Mas a robótica, agora, é mais bem compreendida como outra parte da indústria de Inteligência Artificial e, em muitos aspectos, como sua fronteira mais avançada. E o governo Trump vem adotando uma abordagem cada vez mais agressiva para proteger o setor de IA dos Estados Unidos. Segundo relatos, o governo considera proibir modelos chineses de código aberto, que muitas vezes rivalizam com os da OpenAI e da Anthropic, embora custem muito menos. Uma medida desse tipo impediria empresas de obter uma economia anual estimada em quase 128 bilhões de reais.
A proibição dos humanoides, portanto, não deve ser entendida como mais um capítulo da antiga estratégia comercial dos Estados Unidos em relação à China, mas como uma evidência de que o governo Trump está ampliando a proteção à indústria de Inteligência Artificial para além dos principais laboratórios atuais. Agora, o governo está disposto a intervir em favor de um setor emergente de robótica que ainda mal começou a se firmar.
Como era de se esperar, algumas empresas de robótica dos Estados Unidos receberam positivamente a nova medida da FCC. Gavin Kenneally, CEO da Ghost Robotics, empresa que fabrica robôs quadrúpedes para inspeções, afirma que os riscos de cibersegurança associados a robôs fabricados no exterior são reais. Um documento da FCC divulgado como parte da decisão menciona um incidente no qual um homem conseguiu assumir o controle de 7 mil aspiradores robóticos. “Se o anúncio de hoje incentivar uma cibersegurança mais robusta e um ambiente competitivo mais equilibrado, isso será bom para os clientes e para o setor de robótica”, afirmou Kenneally por e-mail.
No entanto, caso a nova regra tenha como objetivo impulsionar as empresas de robótica dos Estados Unidos, há uma grande falha. Essas empresas e esses laboratórios acadêmicos de robótica dependem fortemente de robôs baratos da China para realizar pesquisas. Estão formando frotas de robôs que, constantemente, aprendem novas tarefas, desde virar waffles até lavar roupas, e, frequentemente, compram humanoides chineses em vez de modelos fabricados nos Estados Unidos.
A nova decisão “cria um desafio para os pesquisadores de humanoides dos Estados Unidos”, afirma Aaron Prather, diretor de inteligência de mercado da Association for Advancing Automation, uma associação comercial do setor de robótica. “Os modelos chineses oferecem a melhor relação entre preço e capacidade disponível.” Prather acrescenta que uma análise interna recente, conduzida pela organização, constatou que 90% dos artigos acadêmicos recentes sobre robótica publicados por universidades dos Estados Unidos utilizaram robôs da Unitree, principal empresa chinesa de robótica humanoide.
Essa diferença de preço pode ser enorme. Um robô quadrúpede da Unitree pode custar por volta de 23 mil reais. Um modelo comparável da Boston Dynamics, empresa norte-americana de robótica, pode chegar a 1 milhão e 400 mil reais. Caso a pesquisa seja prejudicada, porque esses robôs baratos deixarão de estar disponíveis, a decisão da FCC poderá desacelerar o setor, ao invés de impulsioná-lo.
As indústrias de robótica dos Estados Unidos e da China estão em situações completamente diferentes. A Unitree planeja abrir o capital com o objetivo de alcançar uma avaliação de mercado em torno de 31 bilhões de reais. Nenhuma empresa de robótica dos Estados Unidos oferece uma comparação significativa e as que existem, inegavelmente, movimentam um número menor de robôs. Os humanoides da Figure ainda não são vendidos em larga escala e os robôs da 1X ainda não começaram a ser enviados para residências. Ainda assim, o trabalho com humanoides está se tornando cada vez mais convencional, como deixou claro um lançamento do Google na semana passada. A empresa anunciou um novo modelo de Inteligência Artificial criado para fazer com que humanoides aprendam novas tarefas mais rapidamente. A habilidade mais impressionante parece ser amarrar um saco de lixo, mas considerando como as mãos robóticas são difíceis de controlar, isso representa um avanço real.
Embora as diversas exceções previstas na ordem da FCC dificultem a previsão de seus efeitos práticos, o impacto simbólico é fácil de perceber. O governo considera a robótica humanoide não uma novidade, mas uma fronteira estratégica da Inteligência Artificial que merece ser protegida da concorrência estrangeira. Para uma tecnologia que, até recentemente, era conhecida principalmente por cair no palco, essa é uma grande mudança.


