Placebo digital: o que realmente funciona nos aplicativos de saúde?
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Placebo digital: o que realmente funciona nos aplicativos de saúde?

Muitos benefícios de aplicativos, wearables e sistemas de inteligência artificial podem funcionar como “pílula de açúcar”

Imagine a cena: você tem 49 anos, se considera em boa forma física, dorme bem, se exercita com regularidade. Mas, ao abrir o aplicativo do seu relógio de pulso, ele mostra um número que não bate: sua “idade de performance” é 65!

Foi o que aconteceu com Luana Colloca, professora e diretora do Placebo Beyond Opinion Center da universidade de Maryland, nos EUA. Ela é uma das maiores especialistas do mundo em efeito placebo, inclusive na versão mais recente e menos estudada: os chamados placebos digitais.

“Tive um choque. Me considero em boa forma”, conta Colloca, que chegou a compartilhar o resultado com sua equipe de pesquisa. A reação da equipe foi imediata: aquilo era um efeito nocebo, o outro lado do placebo, que é quando uma expectativa negativa produz um mal-estar real. Mas Luana Colloca acabou aproveitando a oportunidade: o número a levou a dormir mais cedo e caminhar mais ao longo do dia. O episódio mostra que nocebo e placebo podem nascer do mesmo hábito: olhar um número na tela do pulso.

A reportagem da MIT Technology Review se propôs a explorar o assunto que chama cada vez mais a atenção dos pesquisadores: o que acontece quando o efeito placebo, historicamente associado a comprimidos de açúcar sem efeito, migra para aplicativos, relógios inteligentes, chatbots e ambientes de realidade virtual.

Confiamos em ferramentas que não fazem nada?

“É um termo absolutamente novo, ainda pouco usado na literatura”, explica Colloca. Na definição dela, o placebo digital vive na fronteira das chamadas terapêuticas digitais: quando um aplicativo, uma consulta por telemedicina ou um relógio digital dispara uma melhora de sintomas que não depende do princípio ativo da tecnologia em si, mas de fatores como expectativa, sensação de cuidado e automonitoramento.

O farmacêutico Paulo Henrique Andrade de Oliveira, diretor do NEURONAPIS — Núcleo de pesquisa em neurociência aplicada, psicofarmacologia e inteligência computacional em saúde mental — chega a uma definição parecida por outro caminho: para ele, o placebo é “o meio pelo qual a gente vai desenvolver uma tecnologia diante daquela enfermidade”, ou seja, o veículo de teste antes de se provar (ou não) que existe algo realmente ativo por trás de um medicamento ou intervenção.

O psiquiatra Marcelo Demarzo, especialista em mindfulness pela Unifesp (prática focada na atenção ao momento presente) chama a atenção para o fato de que nem todo aplicativo de bem-estar é placebo. “Tem aplicativos que são baseados num método, e aí a gente não pode dizer que o efeito é placebo. Tem um princípio ativo”, diz. O problema, segundo ele, é que boa parte do mercado de apps de saúde mental nunca passou por um ensaio clínico controlado e randomizado, que é o padrão-ouro para separar o que é efeito genuíno do que é só a sensação de estar sendo cuidado.

Em síntese, dá pra dizer que o placebo digital não é simplesmente usar uma tecnologia. É quando a expectativa produzida por essa tecnologia gera benefícios independentemente de seus mecanismos ativos.

Quando o “efeito nada” também funciona

Um dos achados mais surpreendentes da pesquisa sobre placebo é que ele funciona mesmo quando a pessoa sabe que está recebendo algo inerte: é o chamado placebo aberto. É a linha de pesquisa do fisiologista Bruno Gualano, presidente do Centro de Medicina do Estilo de Vida da Faculdade de Medicina da USP, que estuda o efeito no desempenho esportivo.

“A gente dizia que essas pessoas poderiam experimentar esse efeito positivo. E, mesmo se elas não acreditassem que essa resposta pudesse vir, ainda assim essa resposta poderia se manifestar”, relata Bruno sobre um estudo publicado na revista PLOS ONE, no qual atletas recebiam uma substância inerte e eram informados, com total transparência, de que aquilo era placebo. Ainda assim, o grupo apresentou melhora de desempenho discreta, mas relevante no contexto esportivo, onde “centésimos de segundo fazem toda a diferença” entre o primeiro e o décimo colocado de uma prova olímpica. Mas não vale para todo mundo. Bruno Gualano lembra que “uma coisa é significância estatística, outra é significado clínico”. Um efeito minúsculo pode decidir uma medalha olímpica, mas não necessariamente muda a vida de alguém fora da elite esportiva.

O app pode ajudar, mas por pouco tempo

De fato, relógios inteligentes prometem melhorar hábitos só de monitorá-los. Bruno Gualano explica que parte desse “sucesso” vem de um fenômeno bem documentado na ciência, o efeito de reatividade (ou efeito Hawthorne): a simples sensação de estar sendo observado muda o comportamento. Porém, no caso dos aplicativos, não dura muito. “Esse efeito se manifesta no início da avaliação, do monitoramento, e depois isso tende a perder força”, diz. Ou seja: o relógio de pulso não transforma sedentários em atletas; ele empresta um empurrão inicial, que é, em parte, efeito placebo puro e, em parte, é o efeito agradável de saber que está sendo observado e cuidado.

Construindo aplicativos no Brasil

Enquanto pesquisadores discutem o que realmente caracteriza um placebo digital, Paulo Henrique Andrade de Oliveira tenta responder essa pergunta na prática. No NEURONAPIS, ele coordena o desenvolvimento de um aplicativo baseado em inteligência artificial para acompanhar pacientes com transtorno de ansiedade, sempre em conjunto com profissionais de saúde.

O aplicativo permite que o paciente registre o estado emocional ao longo do tempo. A inteligência artificial organiza essas informações, cruza os dados com a literatura científica e gera relatórios para apoiar o acompanhamento clínico. A tecnologia ainda será validada clinicamente: O próximo passo será justamente submetê-la a um ensaio controlado para verificar se os benefícios observados decorrem da intervenção em si, e não apenas da expectativa dos usuários.

“Essas tecnologias servem como uma ferramenta auxiliar, e não o tratamento em si”, afirma Paulo Henrique. O pesquisador também alerta para um risco pouco discutido: a dependência do automonitoramento, que pode levar algumas pessoas a substituir o acompanhamento profissional pela interação apenas com o aplicativo.

O risco que ninguém quer: nocebo

Para Luana Colloca, o maior desafio da saúde digital talvez não seja potencializar o placebo, mas evitar o nocebo. “Não vejo um grande risco no placebo digital, mas vejo um risco no nocebo digital”, afirma. Um usuário que recebe repetidamente notificações de que dormiu mal pode desenvolver ansiedade em relação ao próprio sono, mesmo sem apresentar um problema clínico relevante. Por outro lado, os mesmos algoritmos também são capazes de identificar alterações importantes, como arritmias cardíacas, mostrando que o impacto dessas tecnologias depende tanto da precisão das informações quanto da forma como elas são interpretadas.

Enquanto isso não é resolvido, os quatro especialistas entrevistados nessa reportagem concordam num ponto prático: nenhum aplicativo deve substituir a avaliação de um profissional, mas pode ajudar a chegar até ele. A dra. Luana Colloca, pelo menos, já decidiu o que fazer com o número 65 registrado no pulso. Ela não descartou a possibilidade de erro do algoritmo, mas também não se deixou definir por ele. Usou o “susto” apenas como um empurrão para dormir mais cedo e se mover mais. E essa é uma escolha que nenhum algoritmo consegue tomar por ela.

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