Eficiência energética e deslocamento do consumo: o que o Brasil precisa fazer para aliviar a conta de luz
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Eficiência energética e deslocamento do consumo: o que o Brasil precisa fazer para aliviar a conta de luz

Por que reduzir desperdícios e usar energia de forma mais inteligente pode ser uma das maneiras mais rápidas e menos custosas de aliviar a pressão sobre a conta de luz e fortalecer o sistema elétrico.

Para a maioria dos brasileiros, o setor elétrico se materializa uma vez por mês: quando a conta de luz chega. É nesse momento que um debate muitas vezes tratado em linguagem técnica passa a ter efeito direto sobre o orçamento das famílias, os custos das empresas e a competitividade do país.

Nos últimos anos, esse efeito ficou mais evidente. O aumento da demanda por eletricidade, a necessidade de expansão e modernização da infraestrutura, o crescimento exponencial da micro e mini geração distribuída, os encargos setoriais e a maior exposição do sistema aos efeitos de eventos climáticos extremos colocaram o custo da energia no centro do debate econômico. Em um país que busca crescer, digitalizar sua economia e avançar na descarbonização, a questão já não é apenas como gerar mais energia, mas como usar melhor a energia que já temos.

É nesse contexto que duas agendas ganham relevância estratégica: eficiência energética e deslocamento do consumo. A primeira reduz desperdícios e permite entregar o mesmo serviço com menor uso de energia, por meio de equipamentos, edificações e processos mais eficientes. A segunda busca distribuir melhor o consumo ao longo do dia, deslocando parte da demanda para horários em que o sistema está menos pressionado ou com energia excedente. Juntas, podem ajudar a reduzir custos operacionais, aliviar investimentos mais intensivos e ampliar a flexibilidade do sistema elétrico.

A evidência internacional é consistente. A Agência Internacional de Energia (IEA) aponta a eficiência energética como uma das formas mais rápidas e custo-efetivas de reforçar a segurança energética, reduzir emissões e conter o crescimento da demanda. Ainda assim, o ritmo global de avanço segue abaixo do necessário para atender às metas climáticas. Nesse contexto, a presidência brasileira da COP30 colocou como prioridade a combinação entre triplicar a capacidade de energias renováveis e dobrar os ganhos de eficiência energética até 2030. A mensagem é clara: a transição energética não será sustentada apenas pela expansão da oferta, mas também pela capacidade de consumir energia com mais inteligência, menos desperdício e maior flexibilidade.

No caso brasileiro, essa agenda é ainda mais relevante. O país tem uma matriz elétrica majoritariamente renovável e uma vantagem competitiva importante em energia limpa. Isso, no entanto, não elimina o desafio do custo. Em um sistema que precisa continuar se expandindo e se adaptando a novos padrões de geração e consumo, desperdícios e concentração de carga ou geração em horários críticos inevitavelmente se traduzem em maior pressão sobre toda a estrutura.

Eficiência energética: a forma mais barata de “produzir” energia

Durante décadas, a expansão do setor elétrico foi pensada majoritariamente a partir da lógica da oferta: construir mais usinas, mais linhas e mais capacidade de atendimento. Essa agenda continua necessária. Mas há um consenso crescente entre organismos internacionais, planejadores e reguladores de que a energia mais barata é, muitas vezes, aquela que não precisa ser gerada, transmitida e distribuída porque foi economizada com inteligência.

Esse é justamente o papel da eficiência energética. Quando uma indústria moderniza motores e sistemas térmicos, quando um edifício melhora seu desempenho energético ou quando uma residência substitui equipamentos obsoletos por modelos mais eficientes, o efeito não se limita à conta individual. Em escala, esses ganhos reduzem a pressão sobre o sistema, postergam investimentos e tornam a operação mais eficiente.

No Brasil, essa agenda já conta com instrumentos públicos relevantes. Um dos principais é o Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica (Procel), criado em 1985 para promover o uso eficiente da energia elétrica e combater desperdícios. Coordenado pelo Ministério de Minas e Energia (MME) e executado pela ENBPar, o programa atua em várias frentes, como equipamentos, edificações, iluminação pública, setor público, indústria e educação para o consumo eficiente. Entre seus instrumentos mais conhecidos está o Selo Procel, que ajuda consumidores e empresas a identificar produtos com melhor desempenho energético.

Os resultados mostram que essa agenda está longe de ser marginal. Segundo o Relatório de Resultados do Procel 2025, com ano-base 2024, as ações do programa proporcionaram economia de 23,79 bilhões de kWh, o equivalente a 4,24% de todo o consumo de eletricidade do Brasil naquele ano. Além disso, o Procel registrou redução de 7.594 MW na demanda de ponta, justamente o tipo de resultado que ajuda a aliviar a infraestrutura e conter custos sistêmicos.

Outro pilar importante é o Programa de Eficiência Energética (PEE), regulado pela ANEEL. Pela legislação setorial, distribuidoras devem aplicar parcela de sua receita operacional líquida em projetos de eficiência energética, conforme os critérios definidos pela agência. Trata-se de um mecanismo importante porque reconhece algo central: eficiência energética não pode depender apenas da decisão individual do consumidor. Ela precisa ser tratada como política pública estruturante, com escala, previsibilidade e coordenação institucional.

Essa visão está alinhada ao que mostram estudos internacionais sobre a transformação do setor elétrico. Em Utility of the Future: An MIT Energy Initiative Response to an Industry in Transition, o MIT Energy Initiative aponta que a evolução do setor depende cada vez mais da digitalização das redes, da incorporação de novas tecnologias, de modelos regulatórios mais adaptativos e de mecanismos que permitam maior participação do consumidor e melhor gestão da demanda. Em outras palavras, modernizar o sistema não passa apenas por expandir ativos físicos, mas também por operar de forma mais eficiente, flexível e inteligente.

Não basta consumir menos, é preciso consumir melhor

Se a eficiência energética responde à pergunta “como usar menos energia para fazer a mesma coisa?”, o deslocamento do consumo responde a outra, igualmente importante: “em que horário vale mais a pena consumir?”

Essa discussão é central porque o custo do sistema elétrico não depende apenas do volume total consumido, mas também de quando esse consumo acontece. Quando a demanda se concentra em horários críticos, cresce a necessidade de capacidade adicional, reforços de rede e maior flexibilidade operacional.

É por isso que o deslocamento do consumo, também chamado de gestão da demanda ou resposta da demanda, vem ganhando espaço em diferentes mercados. Em vez de responder ao aumento do consumo apenas com mais expansão física, o sistema passa a contar também com mecanismos que estimulem o uso mais inteligente da infraestrutura existente.

No Brasil, esse debate já existe, mas ainda está longe de ocupar a centralidade que deveria. Instrumentos como a Tarifa Branca representam um passo importante ao sinalizar ao consumidor que a energia tem custos diferentes ao longo do dia. A própria ANEEL destaca que essa modalidade pode ser vantajosa para quem consegue concentrar consumo fora do horário de ponta, justamente porque isso melhora o uso das redes e pode reduzir ou postergar investimentos no sistema. Na prática, porém, a simples existência desse diferencial tarifário não tem se mostrado suficiente, por si só, para produzir mudanças relevantes no perfil de consumo da maior parte dos usuários. Esse tipo de instrumento só faz sentido quando respeita a realidade de uso da energia por parte do consumidor, sem pressupor que todos tenham a mesma capacidade de adaptação.

Ainda assim, a experiência prática mostra que o sinal de preço, isoladamente, tem alcance limitado para alterar o comportamento do consumidor. Dados observados em iniciativas de sandbox regulatório conduzidas pela Energisa indicam que, mesmo diante de variações tarifárias significativas ao longo do dia, a maior parte dos consumidores não ajusta de forma relevante seu perfil de consumo. Isso não deve ser interpretado como falha do consumidor, mas como evidência de que a política pública e o desenho tarifário precisam considerar as restrições reais da vida cotidiana.

Para Fernando Cezar Maia, vice-presidente de Assuntos Regulatórios e Institucionais do Grupo Energisa, esse é um ponto central para a evolução do setor. “A experiência mostra que não basta criar sinal de preço e esperar que o consumidor responda automaticamente. Na prática, a mudança de comportamento é limitada quando não há instrumentos adicionais, como informação clara, automação ou mecanismos que facilitem essa adaptação no dia a dia”, afirma.

Segundo ele, isso exige uma abordagem mais abrangente na formulação de políticas públicas e no desenho regulatório. “Se quisermos que a gestão da demanda tenha escala no Brasil, precisamos ir além da tarifa. É necessário combinar sinal econômico com tecnologia, engajamento e soluções que reduzam o esforço do consumidor para participar desse processo, sempre respeitando a realidade de uso da energia em cada perfil de consumo”, completa.

Esse diagnóstico encontra respaldo na literatura internacional sobre resposta da demanda. Estudos empíricos conduzidos em diferentes mercados mostram que o consumo residencial de eletricidade tende a responder de forma limitada a variações de preço, especialmente no curto prazo. Um estudo publicado na revista Energy Economics, com análise de 12 países europeus, identificou padrão consistente de baixa elasticidade-preço. Em linha semelhante, pesquisa do National Bureau of Economic Research (NBER) com consumidores residenciais em Illinois encontrou resposta modesta mesmo ao longo de vários anos. Evidências sobre tarifas horárias na Suíça apontam na mesma direção: há algum deslocamento de carga, mas o sinal tarifário, isoladamente, raramente produz mudanças profundas e sustentadas no comportamento do consumidor.

Em outras palavras, esperar que o consumidor responda apenas ao preço é, na prática, superestimar sua capacidade de ajuste espontâneo. A experiência internacional indica que esses instrumentos são mais eficazes quando combinados com automação, informação em tempo real, desenho tarifário claro e soluções que reduzam a fricção para mudança de comportamento. Mais do que induzir deslocamentos a qualquer custo, o desafio está em criar condições para que a flexibilidade ocorra de forma viável, conveniente e compatível com a rotina do usuário.

A relevância desse debate também já aparece no campo regulatório. Em 2025, a ANEEL abriu consulta pública para discutir a viabilidade da aplicação compulsória da Tarifa Branca para consumidores da baixa tensão com consumo mensal superior a 1.000 kWh. Segundo a agência, esse universo reúne cerca de 2,5 milhões de unidades consumidoras e responde por 25% do consumo da baixa tensão no Brasil. O dado ajuda a mostrar que a discussão sobre gestão da demanda deixou de ser periférica e passou a integrar, de forma mais concreta, a agenda regulatória do setor.

Esse ponto se torna ainda mais relevante em um sistema que passa por forte transformação tecnológica. A digitalização das redes, a automação, a eletrificação de novos usos e a expansão de recursos energéticos distribuídos tornam a gestão do consumo cada vez mais estratégica. A própria EPE já trata a resposta da demanda como insumo importante para o planejamento da expansão e para a modernização do setor elétrico brasileiro.

Para Fernando Cezar Maia, a eficiência energética e a modernização das redes são partes da mesma equação. “O crescimento da geração distribuída traz desafios importantes para o sistema elétrico. As redes de distribuição passam a sofrer variações e desbalanceamentos que exigem novos equipamentos e mudanças na própria configuração das redes. Isso significa mais investimentos para manter o controle de tensão e a confiabilidade do sistema. No fim, esses custos acabam pressionando a tarifa, porque o sistema precisa se adaptar para continuar funcionando de forma segura”, afirma.

A leitura combinada desses elementos leva a uma conclusão clara: não basta criar sinais econômicos; é preciso estruturar mecanismos que viabilizem a resposta do consumidor. Isso inclui maior uso de tecnologias de automação, armazenamento de energia, soluções de gerenciamento de carga, informação acessível e, sobretudo, um desenho regulatório que leve em conta as limitações reais de comportamento dos usuários.

Por que isso importa para a conta de luz

É importante fazer uma distinção técnica com honestidade: eficiência energética e deslocamento do consumo não reduzem a tarifa por decreto. O que essas agendas fazem, e isso já é altamente relevante, é reduzir pressão de custo sobre o sistema e, com isso, ajudar a moderar a necessidade de gastos adicionais que, mais cedo ou mais tarde, acabam sendo refletidos na conta de luz.

Essa diferença importa porque torna o debate mais sério. Quando um sistema precisa ser expandido e reforçado para atender picos de demanda mais intensos, isso custa dinheiro. Quando equipamentos ineficientes elevam o consumo sem necessidade, isso também custa. Quando o consumo se concentra em horários mais críticos e exige maior esforço operacional, o resultado é o mesmo. Em todos esses casos, a ineficiência não desaparece: ela é paga, direta ou indiretamente, por toda a sociedade.

Por isso, eficiência energética e gestão da demanda precisam ser vistas como recursos do sistema, e não apenas como escolhas individuais do consumidor. Em muitos casos, são medidas com custo menor e implantação mais rápida do que alternativas puramente baseadas em expansão física. Além disso, trazem benefícios adicionais: reduzem emissões, aumentam a resiliência operacional e melhoram a previsibilidade do planejamento energético.

O que precisa avançar no Brasil

Se o Brasil quiser tratar a energia como vetor de competitividade, e não apenas como centro de custo, a agenda de eficiência energética precisa sair da periferia do debate e ganhar status de prioridade estrutural.

Isso passa, em primeiro lugar, por fortalecer sinais econômicos e regulatórios corretos. Consumidores residenciais, comerciais e industriais precisam ter acesso mais claro a instrumentos que permitam perceber valor em consumir melhor, em horários mais adequados e com tecnologias mais eficientes. Mas a evidência já sugere que isso, sozinho, não basta. Para que a resposta da demanda ganhe escala, será necessário combinar sinal econômico com automação, digitalização, informação acessível e desenho regulatório mais aderente à realidade de uso da energia. O objetivo não deve ser transferir ao consumidor a responsabilidade de resolver, sozinho, a complexidade do sistema elétrico, mas oferecer opções que ampliem sua capacidade de participar desse processo de forma simples e segura.

Em segundo lugar, o país precisa ampliar a escala da eficiência energética em setores de maior impacto, como climatização, refrigeração, motores, iluminação, edificações e processos industriais. O ganho não está apenas na troca pontual de um equipamento, mas na combinação entre tecnologia, informação, financiamento e política pública.

Em terceiro lugar, é preciso incorporar o deslocamento do consumo de forma mais ambiciosa ao planejamento do setor. Em um sistema que avança para maior digitalização e maior participação de recursos distribuídos, a resposta da demanda tende a se tornar cada vez mais relevante. Isso significa olhar para consumo flexível não como exceção, mas como parte do desenho do sistema do futuro.

E há um quarto ponto que merece mais atenção: justiça energética. A agenda de eficiência não pode ser restrita a consumidores com maior renda, maior informação ou maior capacidade de investimento. Se os instrumentos de eficiência e gestão da demanda não forem acessíveis a quem mais sente o peso da conta de luz, o país corre o risco de aprofundar desigualdades em vez de reduzi-las.

O papel do consumidor existe, mas ele não resolve sozinho

Há, sim, medidas individuais que fazem diferença. Equipamentos mais eficientes, atenção ao selo de desempenho, manutenção adequada de aparelhos, uso racional de climatização e chuveiro elétrico, redução de desperdícios em standby e adoção de hábitos mais inteligentes ajudam a reduzir o consumo e a conta. O Selo Procel e os programas de etiquetagem continuam sendo instrumentos relevantes para orientar essas escolhas.

Mas seria um erro estratégico reduzir essa discussão a uma lista de “dicas para economizar energia”. O desafio brasileiro é maior do que isso. O país precisa tratar eficiência energética e deslocamento do consumo como infraestrutura invisível: um conjunto de soluções menos visíveis do que novas usinas ou grandes obras, mas potencialmente mais rápidas, mais baratas e mais eficazes para aliviar a pressão sobre o sistema. E isso só será bem-sucedido se o consumidor for tratado como parte da solução, e não como o elo sobre o qual recai, sozinho, a responsabilidade pela adaptação.

A energia mais competitiva é a que o sistema não desperdiça

Em um contexto de eletrificação crescente, transformação digital e pressão por descarbonização, o Brasil precisará continuar expandindo sua infraestrutura energética. Mas a qualidade dessa expansão dependerá, cada vez mais, da capacidade de evitar desperdícios e de organizar melhor o consumo.

A discussão sobre energia mais barata, portanto, não pode ser reduzida à oferta de novos megawatts. Ela precisa incluir também eficiência, flexibilidade e inteligência no uso da energia. É nessa convergência que está uma das oportunidades mais concretas para aliviar custos, reforçar a segurança do sistema e aumentar a competitividade do país.

No fim, a pergunta correta talvez não seja apenas “como gerar mais energia?”. Em um sistema sob crescente pressão de custo, clima e demanda, a pergunta mais estratégica é outra: como fazer mais com a energia que já temos e usá-la melhor?

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