A IA que inverteu os valores da democracia
Tecnologia & Sociedade

A IA que inverteu os valores da democracia

Modelo lançado para multidões chega com estratégia que divide o mundo

O mundo se fragmenta e se une em blocos todos os dias.

E o modelo tradicional, mediado por países e fronteiras, está dando lugar a entidades formadas por grupos com interesses próprios em tecnologia.

A WAICO, sigla para Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial, é uma dessas novas organizações. Fundada em julho, é liderada pela China e reúne outros 28 países. Estão lá: Brasil, Rússia, China, Cuba e nações da Ásia e África.

Os Estados Unidos e todo o bloco europeu ficaram fora dessa ação que tem por objetivo promover a cooperação técnica, a governança global e o uso seguro da Inteligência Artificial.

Essa divisão em dois grandes blocos tecnológicos diferentes mostra que a IA está modificando as bases geopolíticas. Antes, existia uma regra simples. Sociedades abertas produziam tecnologias abertas. Regimes autoritários preferiam controle, censura e centralização. 

Hoje, enquanto OpenAI e Anthropic caminham para modelos cada vez mais fechados, protegidos por assinaturas e infraestrutura sobre a qual apenas elas têm controle, empresas chinesas passaram a apostar na direção oposta. É daí que vemos o surgimento do Kimi K3, um novo modelo de Inteligência Artificial que rapidamente passou a disputar espaço com os sistemas mais avançados do mundo.

Seguindo o caminho do irmão mais velho, o DeepSeek, lançado no finalzinho de 2023, o Kimi K3 chega agora em versão aberta, permitindo que pessoas comuns, empresas, universidades, hospitais e governos executem o modelo em seus próprios servidores.

Isso não significa que a China tenha se tornado mais liberal. O país continua não abrindo mão de controlar informação e de uma das mais fortes censuras digitais no mundo. A decisão de abrir o Kimi não decorre de uma mudança de valores, mas de uma estratégia de dominação internacional de longo prazo.

Os Estados Unidos ainda dominam a infraestrutura da Inteligência Artificial. Controlam os chips mais avançados, os maiores laboratórios e grande parte do investimento privado no setor. Quando Washington restringiu a exportação dos processadores mais modernos da Nvidia para empresas chinesas, pretendia preservar essa vantagem tecnológica.

É possível, porém, que a decisão tenha feito o tiro sair pela culatra. Privados do melhor hardware disponível, os chineses passaram a buscar formas mais eficientes de construir modelos. O Kimi K3 utiliza técnicas como Mixture of Experts, que ativam apenas as partes necessárias do modelo em cada tarefa, reduzindo o custo computacional sem comprometer o desempenho. Se isso se confirmar, as restrições americanas podem ter acelerado exatamente o tipo de inovação que pretendiam conter.

Kai-Fu Lee, que já passou por Apple, Google e Microsoft, antecipou esse movimento em “AI Superpowers – As Superpotências da Inteligência Artificial”. Seu livro, que é lá de 2018, já desenvolvia a tese de que a disputa entre Estados Unidos e China não seria decidida apenas por quem produzisse os melhores algoritmos, mas por quem conseguisse transformar Inteligência Artificial em infraestrutura econômica. Na época, a ideia parecia ousada. Hoje, ela ajuda a explicar por que os laboratórios chineses avançam tão rapidamente mesmo enfrentando restrições do mundo todo.

A principal inovação do Kimi K3, porém, talvez não esteja na engenharia, mas na forma de distribuição. O modelo de peso aberto se transforma em um instrumento de influência a ser espalhado pelo mundo. Aqui mesmo, na redação da MIT Technology Review Brasil, chegamos a instalar a primeira versão que logo foi derrubada pelos próprios chineses por questões de segurança.

Quanto mais organizações construírem suas aplicações sobre modelos chineses, maior será a dependência tecnológica de Pequim. É o “Made in China”, de antigamente, voltando com toda a força e de cara rejuvenescida.

Essa discussão, curiosamente, também vem ganhando apoio de gigantes do Vale do Silício. Jensen Huang escolheu um tema estratégico para fazer sua estreia no X. Em seu primeiro post na plataforma, publicado em 24 de julho, o CEO da Nvidia compartilhou uma carta aberta em defesa dos modelos abertos. Disse que eles são essenciais para ampliar a inovação, fortalecer a segurança cibernética e permitir que diferentes países desenvolvam sua própria infraestrutura de IA.

Huang ainda chamou a atenção para um curioso detalhe que passou quase em branco. Durante o ataque dos modelos de IA da OpenAI contra a Hugging Face, quem conteve o estrago foi um modelo aberto. E arrematou o assunto dizendo: “Por esse motivo, criamos a Aliança da IA Aberta”. Dell, Linux, IBM e SpaceX também compraram a ideia e decidiram se unir em favor dessa nova entidade.

E o próprio Elon Musk mudou seu comportamento. Agora, ele quer dar de mão beijada o que os outros nunca entregariam por fortunas. Em recente entrevista à revista The Economist, ele disse que “códigos abertos dão transparência e mais poder ao usuário. Deveria ser prática comum nas empresas de IA que só pensam em enriquecer”.

Vale lembrar que o homem mais rico do planeta não fica só no discurso. Musk está liberando o código-fonte para turbinar sua IA, o Grok, e para quem quiser “tunar” o software da sua picape da Tesla.

A corrida da Inteligência Artificial não é para ser entendida apenas como uma competição tecnológica. Ela também expressa diferentes estratégias de projeção de poder. Os Estados Unidos apostam na concentração da propriedade intelectual e da infraestrutura. A China aposta na difusão tecnológica como forma de ampliar sua influência pelo mundo.

Na economia digital, abertura e fechamento são sinais opostos quando se fala em valores políticos e estratégia nacional. Talvez o aspecto mais surpreendente da ascensão do Kimi K3 seja justamente este: a abertura tecnológica passou a ser utilizada não como expressão de liberdade, mas como mecanismo para expansão de poder por meio do código aberto para multidões.

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