Uma recente trend do Instagram levou os usuários a recorrer à Inteligência Artificial para descobrir como seriam se vivessem nos anos 1980. Mas e se, em vez da aparência, usássemos a IA para gerar imagens comparando a maneira como diferentes gerações chegaram às urnas?
Para os jovens que votarão em 2026, é difícil imaginar uma eleição sem redes sociais, aplicativos de mensagens, vídeos curtos, mecanismos de busca, influenciadores e, agora, ferramentas de Inteligência Artificial. Em 1989, ano da primeira eleição presidencial direta após a redemocratização, o cenário era bem diferente: a comunicação era mais limitada e centralizada em jornais, revistas, rádio e TV. O acesso não ocorria em uma rede infinita de possibilidades e conteúdos.
Com um ecossistema muito mais fragmentado, cercado por telas, como se informam os jovens de 16 a 29 anos que compõem 21,6% do eleitorado do país, de acordo com o levantamento do Tribunal Superior Eleitoral (TSE)? Nesta faixa etária estão desde aqueles que vão para as urnas pela primeira vez até os mais experientes, que chegam até a sexta eleição (considerando as gerais e municipais).
Entregamos um questionário a 30 jovens, com idades entre 17 e 25 anos, mas que vivem em centros urbanos e têm escolaridade que varia de “cursando o Ensino Médio” a “Ensino Superior completo”. A amostra não representa a juventude brasileira, diversa em realidades sociais e econômicas, mas o objetivo foi entender um pouco como esses jovens têm buscado informações e o papel da tecnologia neste processo.
Quem responde ao jovem?
Quando perguntados sobre onde costumam buscar informações a respeito das eleições, 20 jovens citaram as redes sociais, seis mencionaram o Google como buscador de links com a informação desejada, três apontaram sites jornalísticos e dois disseram não ter o hábito de procurar esse tipo de informação.
As redes sociais também aparecem como uma importante fonte quando precisam se informar sobre um candidato específico. “Procuro no próprio Instagram dele”, afirma a universitária Larissa Martins, de 22 anos, que votará pela terceira vez. Polyana Ferreira, também universitária, de 22 anos, busca “pela rede social X, no perfil de Instagram e no Google”. “Costumo buscar o perfil próprio do candidato e, caso ele já tenha sido eleito anteriormente, busco informações oficiais sobre seus feitos no Google”, explica Júlia Gomes, de 21 anos, que também está na faculdade. A procura direta em sites de veículos jornalísticos ou até mesmo do próprio TSE é citada pela minoria, mas muitos podem chegar a eles durante a trajetória de busca.
Hoje, uma informação política pode vir por um vídeo recomendado em uma rede social, provocar uma busca no Google, levar a uma reportagem e terminar em uma página oficial. O eleitor não escolhe apenas entre fontes. Parte do que encontra também é selecionada por plataformas e sistemas de recomendação, que usam algoritmos para determinar quais conteúdos aparecem primeiro em sua tela.
De acordo com Daniela Machado, coordenadora de educação do Instituto Palavra Aberta, que tem um programa de educação midiática chamado Educamídia, com a atual enxurrada de informações, é necessário interrogar a informação, não somente consumi-la. “Não importa muito de que maneira vai se buscar essas informações, se vai entrar numa rede social, se vai conversar com alguém ou tentar ouvir algo de uma ferramenta de IA. O importante é que procure sempre a evidência do que está sendo argumentado, quem está falando aquilo, questionar fontes da informação, procurando identificar a intenção de quem está fazendo a informação circular”, detalha Daniela.
Menos IA do que se imagina
O processo eleitoral de 2026 tem sido marcado pela maior preocupação com conteúdos gerados por IA e deepfakes. O próprio TSE fez alterações na resolução que trata da propaganda eleitoral para incluir regras específicas para conteúdos sintéticos e IA.
Falar de jovem, Internet e busca por informação sobre as eleições talvez nos faça imaginar que o percurso natural dessa geração seja a Inteligência Artificial, mas, na verdade, ela não apareceu como uma opção óbvia. “Nunca usei, gosto mais da IA para o estudo”, afirma a universitária Maria Clara Koester, de 21 anos, que mora na cidade do Rio de Janeiro e vai participar do processo eleitoral pela terceira vez. Já para Catherine, eleitora estreante que tem 17 anos e cursa o Ensino Médio no Distrito Federal, a confiança ainda interfere nessa experiência: “Não acho que eles vão me dar uma resposta 100% imparcial”.
Para muitos, talvez ainda seja mais interessante explorar as ferramentas de IA para criar conteúdo, imagens e ajudar com os estudos. No caso do grupo entrevistado, de fato, foi uma minoria que buscou um chatbot com fins informativos, apenas oito de 30 jovens. E os que fizeram uso, chegaram a ela com questões mais direcionadas. “Usei para saber como usar a urna e confirmar sem fazer besteira no meu voto”, disse a carioca Maria Clara Cruz, de 18 anos, que está terminando o Ensino Médio e também vai às urnas pela primeira vez.
Dois jovens que responderam ao nosso questionário e têm 25 e 26 anos de idade, respectivamente, demonstraram um pouco mais de intimidade com a IA ao utilizá-la com um propósito que não era apenas o de ser mais um buscador. “Achei mais imparcial do que eu esperava, mas eu fui muito específico em meu prompt. Pedi por imparcialidade e por sites de notícias formais”, explicou Gabriel Rosas, de 25 anos, que vai votar pela terceira vez. Já o universitário Victor Hugo Gomes pediu à IA um resumo das leis propostas por um candidato no qual tem interesse.
“IA e chatbots trazem uma camada de complexidade, mas a mesma postura de saber de onde veio a informação, por que ela circula e o que está em jogo continua valendo para esses ambientes. Quando a informação chega por um chatbot, ela chega com um aspecto de uma informação mais polida, que dá a sensação de ser a palavra final”, aponta Daniela.
Os tribunais veem os jovens eleitores?
No ano de 2002, o Tribunal Superior Eleitoral criou o Programa Eleitor do Futuro, com o objetivo de aproximar crianças e adolescentes da política e do processo eleitoral como exercício de cidadania. Cabe aos tribunais regionais eleitorais (TREs) colocá-lo em prática. Entre as iniciativas encontradas durante essa reportagem, ainda aparecem ações tradicionais, como palestras e visitas a escolas para falar de título de eleitor e urna eletrônica, ao lado de experiências que tentam incorporar linguagens e problemas do ambiente digital.
No TRE de Mato Grosso, por exemplo, cerca de 300 estudantes participaram de uma oficina de audiovisual para as redes sociais, com o objetivo de estimular a participação da juventude no processo democrático e promover o enfrentamento à desinformação nos ambientes digitais.
Já na página do TRE de Alagoas, encontramos o anúncio de um concurso de vídeos para as redes sociais com o tema “Juventude Contra a Desinformação”, criado com o objetivo de incentivar o protagonismo dos estudantes na produção de conteúdos sobre educação midiática, cidadania digital e enfrentamento a notícias falsas. De acordo com o tribunal, houve uma percepção de que é preciso ouvir os jovens também. No entanto, para a surpresa dos organizadores, não houve tanto interesse na iniciativa.
“Mesmo oferecendo uma premiação atrativa e propondo a produção de vídeos curtos, que é um formato muito presente no cotidiano dos jovens, tivemos uma adesão menor do que esperávamos. Isso nos mostra que estar onde os jovens estão não significa, necessariamente, conseguir mobilizá-los. É um aprendizado importante para pensarmos novas formas de aproximação e de educação midiática”, avalia Flávia Gomes de Barros, coordenadora do Núcleo de Enfrentamento à Desinformação do TRE/AL.
Não é só estar no ambiente digital
A experiência em Alagoas expõe uma dificuldade que não se resolve apenas com a escolha da plataforma ou do formato. Na amostra de 30 jovens que tivemos para a reportagem, em que dez deles votarão pela primeira vez nas eleições de 2026, apareceram dúvidas sobre o papel dos senadores e deputados, quantos representantes temos na Câmara e até por que votaremos em dois senadores neste ano. Em geral, elas levam a respostas mais objetivas nas buscas, mas existem também questionamentos sobre as propostas dos candidatos, processos na Justiça envolvendo políticos e até “como escolher candidatos?”. Neste caso, o pensamento crítico e o olhar atento às fontes são ainda mais importantes.
É nessa direção que atua o #FakeTôFora, projeto do Instituto Palavra Aberta voltado à educação midiática no contexto das eleições. A iniciativa oferece materiais para educadores trabalharem em sala de aula temas como democracia, processo eleitoral, urna eletrônica, pesquisas e desinformação e propõe a criação de coletivos de checagem, nos quais os próprios estudantes investigam informações que circulam em redes sociais, aplicativos de mensagens e outros meios. “A gente tem que tomar cuidado para não jogar para a escola todas as demandas da sociedade, mas a construção da ideia de educação para a cidadania parte do que a escola precisa olhar e, muito casado com isso, vêm as educa digital e midiática”, afirma Daniela.
A proposta ajuda a deslocar a discussão da ideia de simplesmente proteger o jovem de conteúdos falsos. Em um ambiente no qual uma dúvida eleitoral pode começar no TikTok, passar pelo Google, chegar a um chatbot e terminar em uma página oficial, educação midiática significa desenvolver condições para perguntar quem produziu uma informação, com quais evidências, em que contexto e com qual objetivo. Em meio a tantas possibilidades de percursos e respostas, o mais importante está em aprender a decidir quais deles merecem confiança.

