A tecnologia mudou quem você é? 
Humanos e tecnologia

A tecnologia mudou quem você é? 

O psicanalista Christian Dunker e o psicólogo Alexander Coimbra Amaral falam sobre relações sociais, produtividade e equilíbrio em tempos de alta conectividade

No restaurante, uma criança almoça de olhos fixos no tablet, enquanto os adultos checam frequentemente o celular sobre a mesa. Em uma lanchonete, adolescentes de um mesmo grupo jogam online e trocam comentários rápidos. No metrô, passageiros seguem de cabeça baixa, entre mensagens, trabalho, jogos e redes sociais.

Três situações cotidianas, observadas repetidamente na cidade do Rio de Janeiro, mas que poderiam ser em tantos outros locais. A sensação de estarmos conectados o tempo todo, hipnotizados por uma tela, pode ser pessoal, mas também é coletiva e pesquisas confirmam o que, muitas vezes, parece estar só na nossa percepção.

O relatório Digital 2024: Global Overview Report mostrou que o Brasil está entre os países mais conectados do mundo. Brasileiros passam, em média, 9 horas e 13 minutos por dia na Internet, o que está acima da média global de 6 horas e 40 minutos, e já pode ser considerado um regime de exposição contínua.

A TIC Domicílios, realizada anualmente pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), mostrou que, em 2025, 86% dos domicílios brasileiros tinham acesso à Internet e 85% da população era usuária da rede, sendo que 68% faziam uso exclusivo pelo celular. Já a TIC Kids Online Brasil apontou que 92% das crianças e adolescentes entre nove e 17 anos eram usuários da Internet.

Os dados também alimentam reflexões sobre a nossa saúde, especialmente a mental. Profissionais e pesquisadores da área já alertam para os efeitos da mudança de hábito no uso dessas tecnologias.

“Posto, logo existo”

A equipe da MIT Technology Review Brasil conversou sobre o assunto com Christian Dunker, psicanalista e professor premiado no Prêmio Jabuti; e Alexandre Coimbra Amaral, psicólogo, escritor best-seller, palestrante e consultor em saúde mental corporativa. Populares nas redes sociais, ambos estão acostumados com a produção de conteúdo sobre o próprio trabalho, principalmente em vídeos, vivenciando e entendendo como a tecnologia vem nos afetando em tempos de muitas telas e intensa conectividade.

Christian Dunker reflete que a saúde mental é um campo vasto, sendo afetada por hipóteses genéticas ou neurocerebrais, mas considera que essa relação é, muito provavelmente, determinada por fatores como a forma como a gente trabalha, usa a linguagem, deseja, perspectiva o nosso futuro a partir do passado e constrói a própria narrativa. “As tecnologias afetam a nossa maneira de trabalhar e consumir. No caso das tecnologias digitais, elas são essencialmente transformações de linguagem. Linguagem de telas, a forma como a gente passa a amar, desejar, como a gente trabalha em chave de linguagem digital, como produzimos identidades digitais, ou seja, é um impacto violento”.

Talvez estejamos mais sozinhos, como aponta Alexandre Coimbra, e essa seria uma das dimensões do impacto da tecnologia, ao se transformar em um terceiro elemento da vida, que se coloca entre nós e o outro humano. Uma percepção que se dá em situações do cotidiano, como uma criança reclamando de falta de atenção plena dos pais, que estão usando o celular, enquanto estamos também preocupados com o tempo de tela dessa criança; ou quando casais adultos ativos e produtivos estão absolutamente abduzidos pelas telas, seja por trabalho, conteúdo e necessidade de performance.

Alexandre, que escreveu o livro “Cuidar da solidão até virar encontro”, considera que estamos tendo relações cotidianas esvaziadas de presença, porque é a qualidade dessa presença que a transforma em encontro, não apenas estar junto. E, quando falamos especificamente das redes sociais, essa lógica se repete. “A rede social surgiu prometendo encontro e entregou solidões”, afirma Alexandre, “O que caracterizou a chegada da rede social era que a gente tinha autonomia de escolher quem a gente ia ver na rede. A gente não tem mais essa autonomia. Quem decide quem a gente vai ver e o conteúdo que a gente vai consumir é o algoritmo, não é mais a nossa dimensão autônoma de construção de rede. Então, isso amplifica essa dimensão da solidão”.

Dunker tem um olhar mais ponderado. Segundo ele, estaríamos mais juntos e, ao mesmo tempo, mais separados, porque há uma diversidade de tipos de laços, que conversa diretamente com a heterogeneidade de camadas de linguagem. “Por exemplo, nos consultórios, a gente escuta ‘mas ela só manda um foguinho (símbolo de interesse na pessoa, em algumas redes). Ele não está tão interessado, porque só fala com emoji. Outro já me manda um abraço e esse aqui me convidou para o Whatsapp’. Você tem redes e redes e isso vai tornando a sociabilidade mais complexa”. De todo modo, o psicanalista não ignora a complexidade das consequências. “O efeito imediato para as gerações que estão crescendo com isso é um recuo brutal da intimidade e da comunalidade. São duas experiências que se tornam rarefeitas, mas são muito importantes para a saúde mental”.

E se a nova linguagem e o ato de existir muitas vezes parecem mais orientados por estar conectado ou presente em redes sociais, fica mais difícil entender quem somos para além do que precisa ser mostrado publicamente, principalmente nas horas necessárias de solidão, em que precisamos silenciar os barulhos da vida, afirma Alexandre. “A tecnologia, neste momento, faz perguntas importantes que são: você é o que posta? Você é o que curte? É o que comenta? O que acontece na sua vida quando desliga a tela? São perguntas direcionadas para quando a tecnologia não está presente, porque a forma como ela vem se consolidando, como parte da nossa identidade, portanto, parte intrínseca da nossa saúde mental, que faz a gente se confundir”.

Produtividade em tempo integral

O aumento da exposição às telas e do tempo de uso da Internet evoluíram conforme recursos tecnológicos foram aprimorados, mas o lockdown estabelecido no início da pandemia de Covid-19 acelerou a mudança: aulas online, trabalho remoto mais disseminado, encontros por vídeo, shows por lives em redes sociais, entre outras adaptações que ajudaram a seguir adiante e a sobreviver, mesmo em um cenário de incertezas. Descobrimos possibilidades, mas mudamos hábitos.

Em outubro de 2020, McKinsey & Company, uma consultoria de gestão norte-americana, fez uma pesquisa sobre mudanças no trabalho durante a pandemia. Na ocasião, executivos disseram que as empresas aceleraram em três a quatro anos a digitalização das interações com clientes, cadeias de suprimentos e operações internas. A aceleração também foi percebida nas tomadas de decisão, na migração para a nuvem e nos investimentos em segurança de dados. No caso do trabalho remoto, a implementação teria acontecido 40 vezes mais rápido do que se imaginava antes da Covid-19. No Brasil, dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostraram que 8,8 milhões de pessoas trabalhavam remotamente na última semana de maio de 2020. Em 2022, 7,4 milhões de pessoas estavam em teletrabalho e 9,5 milhões em trabalho remoto.

Mas o que se apresentou como solução, praticidade e flexibilidade, também trouxe desafios, como conflito entre demandas pessoais e familiares, além de aumento do estresse, da depressão e da ansiedade. Não por acaso, em 2025, o Brasil teve mais de meio milhão de licenças por transtornos mentais, de acordo com o Ministério da Previdência Social. Os afastamentos por ansiedade e depressão cresceram 15% em relação ao ano de 2024 e estão atrás apenas de doenças na coluna.

“Todas as redes sociais se transformaram em instrumento de trabalho. A tecnologia está sendo uma produtora de ansiedade. A notificação te lembra que você ainda não fez determinada coisa, não respondeu a uma mensagem, não viu um vídeo, ou uma série que está todo mundo comentando. Dependendo dos aplicativos que você tem instalados, eles vão te lembrando de débitos com a vida e tudo vai se transformando em uma grande planilha de coisas a fazer”, explica Alexandre Coimbra.

Além disso, estamos preenchendo espaços vazios com conteúdo, numa busca por produtividade intensa. “Eu não tenho mais energia para fazer nada e eu ainda não fiz tanta coisa. Essa é a sensação que a tecnologia tem provocado. A gente lava louça escutando podcast, descansa respondendo mensagem, assiste a filmes respondendo mensagem… estamos preenchendo os tempos que deveriam ser de esvaziamento necessário à vida. O burnout se transformou numa epidemia do nosso tempo, porque é uma doença ocupacional. Então a gente está trabalhando essa identidade que precisa performar cada vez melhor”, alerta o psicólogo.

Fazendo uma analogia com a própria tecnologia, é como se deixássemos um computador ligado o tempo todo. Em algum momento, ele vai apresentar problemas. Para reorganizarmos nosso corpo e nossa mente, precisamos de descanso, como alerta Christian Dunker. “Quando a gente dorme e sonha, recompõe aquilo que a vida exige e às vezes exige demais de nós. O impacto das telas, direto e indireto, ele afeta tanto os mecanismos indutores quanto os mecanismos de recomposição, de proteção. A gente é convocado a ir cada vez mais rápido, a gente faz cada vez menos pausas, a gente dorme cada vez menos. Você acaba atacando aquilo que te protege e aumentando a toxicidade daquilo que te perturba. A chance de você ter uma percepção maior da problemática do sofrimento psíquico vai ser grande, como está acontecendo especialmente depois da Covid-19″.

Não é eliminar, mas equilibrar

O debate não é uma condenação da tecnologia, mas um alerta que pede equilíbrio e autoavaliação, tornando o uso mais positivo. Não fosse pelas chamadas de vídeo, por exemplo, talvez não fosse possível conversar tão diretamente com Alexandre Coimbra e Christian Dunker para essa matéria, por conta das agendas. Outro ótimo exemplo é o atendimento psicológico por vídeo, que também ganhou importância e regulação. “Esses atendimentos online foram impulsionados pela situação da Covid, a gente olha uma coisa ruim que, em função da tecnologia, gerou uma expansão muito grande da escuta. Então, lugares remotos, pessoas que tinham dificuldade de sair de casa, cuja condição sintomática tornava ir e vir na cidade um problema, puderam ser acolhidas”, lembra Dunker.

É uma questão de equilíbrio também, de compreender quanto a tecnologia te beneficia e quanto te escraviza, como pondera Alexandre. “Sou eu que preciso me dar um tempo, me escutar e ser honesto naquilo que tem me feito mal. A partir da nomeação do que é tóxico para você na relação com o mundo virtual, fazer ajustes. A gente, por força do hábito, entra num modo mais apassivado na relação com os aplicativos. Então, a gente tem que, em primeiríssimo lugar, ativar esse modo de funcionamento, senão nada muda”.

O mesmo vale para equilibrar as relações com os outros. Temos uma atenção mais distribuída, fruto de uma nova forma de vida, com multiplicidade, eventuais prejuízos em organizações cognitivas, memória e tomada de decisões, mas como você se recompõe após essa exposição é determinante. “Uma relação saudável é aquela que obviamente não incorre em substituições dependenciais. Então, eu estou fazendo isso em vez de quê? Por exemplo, eu estou jogando videogame, que é ótimo, mas isso é para aumentar meu nexo com os outros, minha sociabilidade, a minha capacidade de sentir satisfação em estar junto com os outros, ou isso é o jeito de evitar os outros? É o mesmo comportamento, mas com funções diferentes”.

Bem-estar como inovação

A saúde mental ganhou importância não por ser uma novidade, mas porque passamos a entender a importância de considerá-la como parte de um bem-estar integral. Por isso, o tema terá espaço no São Paulo Innovation Week, evento sobre inovação que acontecerá entre 13 e 15 de maio, no Mercado Livre Arena Pacaembu e FAAP, e contará também com a participação da MIT Technology Review em três palestras, um painel e um podcast.

Entre mais de 1.500 palestrantes nacionais e internacionais, estarão Christian Dunker e Alexandre Coimbra Amaral. Christian fará a palestra “O Algoritmo da Empatia: A Escuta Humana como a Maior Inovação da Era Digital” junto com Claudio Thebas, educador, escritor e palhaço brasileiro. Segundo o psicanalista, entre alguns temas, vão abordar a empatia, mostrando como ela não é só identificação, afinidade ou afetos, mas envolve um trabalho de criação; e escuta, que não tem a ver com obedecer ao outro, mas com uma hospitalidade que pode ser treinada. Dunker e Thebas também são autores do livro “O palhaço e o psicanalista – Como escutar os outros pode transformar vidas”.

Já a palestra de Alexandre Coimbra Amaral será “Esperançar: Saúde Mental como Ato Coletivo e Inovação Humana”, baseada nos três livros lançados por ele, com temáticas sobre ansiedade, esperança e solidão. De acordo com o psicólogo, essas três palavras se correlacionam com a nossa vida e a atividade profissional.

A expectativa é de que 90 mil visitantes participem dos três dias do São Paulo Innovation Week.

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